CHICO BUARQUE SUPERA 'TRAUMAS DO PALCO'

Depois de muito ensaio, cantor começa hoje turnê classificada por amigos como 'superprodução'

BOLÍVAR TORRES , ESPECIAL PARA O ESTADO, O Estado de S.Paulo

05 de novembro de 2011 | 03h09

A timidez de Chico Buarque já é folclórica. No imaginário dos fãs, sua aversão ao palco costuma servir de justificativa para os longos períodos de hibernação. Como Copa do Mundo, cada show se transforma num evento histórico, que só se repete depois de muita espera. Não por acaso, a turnê de seu penúltimo disco, Carioca, foi vista por mais de 200 mil pessoas em 2006.

E a expectativa não é diferente para a sua mais nova turnê, que se inicia oficialmente hoje, em Belo Horizonte. A série de apresentações, que segue por Porto Alegre, Curitiba, Rio e São Paulo até 25 de março do ano que vem, será mais uma oportunidade para admiradores e jornalistas derramarem litros de tinta sobre o velho mito do Chico recluso e introspectivo, obrigado a superar seus nervos para pisar no palco.

Chico, contudo, parece cada vez mais à vontade em cena. Ao menos é o que dizem músicos que dividem o palco com ele. "Tudo passa pela preparação", diz Chico Batera, que acompanha o cantor e compositor desde 1978. "Como nossas temporadas têm longos intervalos, e o Chico passa muito tempo se dedicando a outras atividades, ele chega um pouco enferrujado e precisa de um tempo para se soltar. É como em qualquer atividade. Se você ficar quatro ou cinco anos sem jogar futebol, vai precisar de um tempo para voltar à forma."

Nos palcos, Chico conta com um suporte cada vez maior. O novo show é uma superprodução, preparada nos detalhes para fazer o cantor brilhar. Ao falar com a reportagem, Batera disse que estava saindo de seu 40º ensaio. "Nunca vi nada parecido com essa produção", afirma o baterista, que já gravou com Ella Fitzgerald, Frank Sinatra, Quincy Jones e João Gilberto.

A produção conta, de fato, com artifícios de show pop. O fone de ouvido, por exemplo, evita a microfonia, facilitando o trabalho do técnico, mas pode soar pouco natural para os músicos. "Leva um tempo para se acostumar porque isso é coisa de megashow pop, e não somos artistas pop", diz Batera. "Mas à medida que os ensaios seguem, tudo vai ficando nos trinques, e o Chico vai pegando o embalo. Agora está tudo debaixo dos dedos."

Apesar dos requintes técnicos, não há pirotecnia no conceito do show, que será menos orquestrado que os anteriores, com uma participação maior do conjunto e arranjos com menos elementos. Com 90 minutos de duração, o roteiro é todo construído em torno das 10 canções do seu último disco, Chico, além de composições de outras fases.

Miúcha, irmã de Chico, fala sobre a relação que ele tem com os próprios shows. "É verdade que o palco não é o ambiente natural do Chico. Isso não é um mito. Mas o fato é que nos últimos anos ele está muito mais solto. Acho que, como o Chico tem essa coisa do futebol, de time jogando junto, assim que estabelece um bom entendimento com os músicos, o palco se torna um lugar menos horrível e ele fica mais desinibido."

Como Tom Jobim costumava dizer, o palco "é o lugar mais perigoso do mundo, porque tudo pode acontecer." E os músicos recorrem a soluções curiosas para aliviar a tensão.

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