Chico Buarque: "não pretendo criar samba para mensalão"

A crise política brasileira ainda não é fonte de inspiração para o escritor e compositor Chico Buarque de Holanda. "Voltei a compor letras de música, mas não pretendo criar um samba para o mensalão", brincou ele, que nesta terça à tarde chegou a Passo Fundo para receber o prêmio Zaffari & Bourborn de literatura, no valor de R$ 100 mil, por seu romance Budapeste. O prêmio foi entregue durante a 11ª Jornada Nacional de Literatura. "O Brasil está com a alma ferida com o que está acontecendo, mas é bom que isso esteja ocorrendo".Chico disse que acompanha diariamente o noticiário das diversas CPIs e, por conta da série de revelações que a cada dia é revelada, ainda não conseguiu formular um pensamento concreto. "Concordo com a Marilena Chauí que, perguntada sobre o que pensa, disse preferir o silêncio por não ter ainda o que dizer".Para ele, é importante que tudo seja revelado, pois muita coisa suja que estava escondida no subterrâneo agora está aflorando. "Claro que estou triste com a realidade: gosto do Lula, votei nele e sua eleição foi o momento mais importante para a afirmação da democracia", comentou. "Só espero que tudo isso tenha algum proveito e não provoque apenas a alegria raivosa de quem não votou nele".Chico contou que já compôs a letra de cinco músicas antes do surgimento dos escândalos e que pretende continuar no processo de criação sem se envolver com a realidade. "Claro que, se fosse algo imediato, para divulgação imediata, talvez eu criasse algo. Não planejo isso, mas também não posso estar certo de que a situação não vá interferir na minha criação".Como submeteu o dedo mindinho da mão esquerda a uma operação (apresentava a região imobilizada com uma pequena tala) por conta de uma contusão no futebol, ele disse que, no momento, não tem conseguido pegar no violão.O retorno à música confirma a alternância que Chico Buarque mantém com a literatura. O revezamento, aliás, surgiu depois que ele percebeu ter atingido a maturidade que julga necessária para a escrita ficcional. "Só escrevi Estorvo quando me senti preparado; caso contrário, seria desastroso".Chico observou que boa parte de sua obra musical foi composta durante a juventude, ao contrário da literatura, quando só se arriscou quando mais maduro. "A literatura exige mais reflexão e menos arroubos", comentou ele, lembrando dos momentos obsessivos em que passou, durante dois anos, escrevendo Budapeste. "Aprendi que jogar fora escritas mas mal resolvidas também representa escrever; na verdade, eliminar material ruim é sinal, na verdade, de boa escrita", brincou.O escritor confessou desconhecer o prêmio que recebeu e que só conhecia a Jornada de Literatura de Passo Fundo por meio de amigos escritores, como Luis Fernando Verissimo. "O interessante é como eventos como esse propagam bem a literatura", disse. "Eu não acreditava que a Festa Literária Internacional de Paraty fosse dar certo e, no entanto, é um sucesso".Chico contou ainda que sempre conviveu com escritores, desfrutando da amizade próxima de seis, até sete deles. "Depois que me tornei um, o número diminuiu bastante", brincou.

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