Fábio Motta/AE - 14/1/2009
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Chico 80

Após internação, humorista festeja o aniversário em casa, com a família

Patrícia Villalba / RIO - O Estado de S.Paulo,

12 Abril 2011 | 06h00

Mais tímido na intimidade do que o público poderia imaginar, mais gentil que sua genialidade faria supor, mais amigo que pai, Chico Anysio chega hoje aos 80 anos comemorando a vida, após um tremendo susto de 110 dias de internação num hospital. Estará em casa, e com certeza ao lado da mulher, Malga, dos filhos e netos, em festa sem grandes alardes. "A gente vai se reunir na casa dele, num jantar. Não sei ainda o que vai acontecer, mas ele nunca foi muito de festa, vai ser uma coisa simplesinha", conta o filho Bruno Mazzeo ao Estado, humorista como o pai, coisa que dá orgulho a ambas as partes. "O que ele gosta mesmo é de ter os filhos perto."

 

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Chico tem oito filhos, coisa de quem teve anos bem vividos e que se refletem no perfil recheado de alguns dos momentos mais saborosos da história da televisão brasileira.

 

Humorista, ator, escritor, dublador, compositor e até pintor, ele não é de fazer nada de qualquer jeito. Mas surpreende mesmo na facilidade com que se transforma nos 209 tipos - conforme conta feita por ele mesmo - que foi acumulando no currículo desde que ganhou o primeiro concurso na Rádio Nacional, em 1947 - com facilidade notável para trabalhar com a voz, apresentou um número com nada menos do que 32 personagens. "Ele sempre foi calado, na dele, nunca foi de exibições. Geralmente, todo comediante é meio contido, né?", define o também humorista Lúcio Mauro, amigo desde os tempos da Rádio Clube de Pernambuco, antes da vinda para o Rio, e seu companheiro de cena até outro dia no quadro do personagem Alberto Roberto, no Zorra Total, da Globo. "O talento dele é tão grande que não precisa exagerar."

 

Carlos Manga, amigo e seu diretor nos primórdios da TV, não quer nem ouvir falar em exagero. "O Boni diz que ele seria um fenômeno se tivesse nascido nos Estados Unidos. Pois eu digo: se o Chico Anysio tivesse nascido na Inglaterra, ele seria o Chaplin!", compara.

Foi Manga quem teve o insight de aproveitar o recém-chegado videotape para fazer Chico literalmente se desdobrar em personas. "Eu vi aquela máquina no corredor da TV Rio e quando me contaram do que se tratava, pensei logo no Chico. ‘E se eu te disser que posso botar você para contracenar com você mesmo?’, perguntei a ele", conta Manga ao Estado. Nascia ali, em 1960, o Chico Anysio Show, programa que aproveitou todo o potencial cênico do humorista e o transformou no mito que ele é hoje. Pode-se imaginar que a técnica artesanal de tampar a metade do negativo e gravar alternadamente causou enorme frisson. "A gente manteve segredo sobre isso até onde deu, e nos divertimos muito! Tinha gente que achava que era o Maurício Sherman que se fantasiava para contracenar com o Chico, imagina!", anota Manga que, cheio de emoção, lembra ainda dos tempos em que o amigo estrelou deliciosas comédias da Atlântida, ao lado de bambas como Oscarito e Grande Otelo.

Entre feitos ilustrados por números grandiosos, Chico poderia se gabar como o artista que permaneceu 40 anos no ar com variações de um programa - Chico Anysio Show, Chico City, Chico Total, Escolinha do Professor Raimundo, entre outros - que nada mais eram do que um palco para que ele reinasse absoluto. Não é por acaso que o que talvez seja o pior momento de sua carreira tenha sido a perda desse palco. Em 1995, a Globo, sofrendo forte concorrência de outras emissoras, tomou uma série de medidas, entre elas a do cancelamento da Escolinha do Professor Raimundo.

Primeiro um quadro do Chico Anysio Show e, com o grande sucesso, o único capaz de conter a novela Pantanal, da TV Manchete, a Escolinha misturava pessoal da velha guarda com talentos novinhos em folha - Zezé Macedo, Grande Otelo e Rogério Cardoso, por exemplo, contracenavam com Tom Cavalcanti e Cláudia Jimenez, ainda "revelações". Mas com humor fácil e calcado em bordões, não passou sem críticas. "A Escolinha é chamada, por grande parte da crítica, de velharia. Ridículos críticos que não aprenderam que um programa que apresenta um elenco de humoristas desse padrão não tem por que ser chamado de velharia, mas de faculdade", disse ele à época, combativo que sempre foi.

Com o fim da Escolinha, Chico seria presença esporádica no ar, em programas especiais e até levar sua turma de "alunos" para um quadro no Zorra Total. Nunca se conformou, e passou a deixar a direção da Globo de cabelos em pé ao se pronunciar com todas as letras em entrevistas, dizendo que sim, estava na geladeira e que, claro, adoraria ter um programa só seu de novo. "Ele teve durante muitos anos um programa semanal no ar. E é muito difícil quando você é acostumado depois não tem mais isso. Ele pegou um momento de transição, todo mundo estava meio sem saber como agir na televisão. O que ele passou foi por um estranhamento, era fora da realidade dele", detalha Bruno Mazzeo. "Mas hoje em dia ele está mais tranquilo com relação a isso", completa. "Ele pode ter ficado chateado, mas acho que não mexeu com ele, porque ele sabe o talento que tem", resume Lúcio Mauro. / COLABOROU THAIS PINHEIRO

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