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Chiara bem-amada

Filha de Mastroianni e Deneuve confessa que se sente, enfim, uma atriz

LUIZ CARLOS MERTEN, O Estado de S.Paulo

15 Julho 2012 | 03h10

Qualquer pessoa pode pensar que, sendo filha de dois monstros sagrados - Catherine Deneuve e Marcello Mastroianni -, Chiara Mastroianni, muito naturalmente, deveria querer seguir a carreira dos pais, convertendo-se em atriz. Ela confessa que nunca esteve muito segura de querer ser atriz, ou de ser uma.

O 'click' deve-se a Christophe Honoré, quando lhe ofereceu aquele papel em Non, Mas Fille, Tu n'Iras Pas Danser. Foi ali que, pela primeira vez, e mesmo já tendo feito participações em dezenas de filmes, Chiara sentiu que era atriz. Ela conta isso com serenidade, numa entrevista realizada em Cannes, após a apresentação do filme de Honoré, Bem Amadas, que tem estreia prevista para o dia 20, no Brasil.

Quem são elas? Chiara e sua mãe, na realidade e na ficção, Catherine Deneuve. Interpretam Véra e Madeleine no filme que fala de amor. Tem havido algum outro tema na obra de recente de Honoré? O mais nouvelle vague dos autores de sua geração no cinema francês ama os filmes encantados. Romain Durys cantou em Paris e Honoré expandiu a experiência em Canções de Amor e Bem Amadas. A simples presença de Catherine Deneuve, a mítica Bela da Tarde, não deixa de ser uma referência - ou aquilo que os franceses chamam de clin d'oeil, o piscar de olho - a Jacques Démy e seu cultuado Os Guarda-Chuvas do Amor. Deneuve fala do filme e do diretor na entrevista abaixo. Para Honoré, ela não é a estrela mítica, "é a mãe de minha amiga Chiara".

A própria Chiara não superestima o fato de ser filha de quem é, como se fosse uma obrigação perpetuar a tradição estelar da família. "Comecei fazendo papéis secundários e sem ter nenhuma convicção sobre o que fazia. Fui e serei sempre uma artesã", ela afirma. E conta uma história. Sua estreia no cinema ocorreu aos 8 anos, em Cinecittà. Marcello, seu pai, estrelava o filme da vez de Federico Fellini, e era A Cidade das Mulheres. Chiara fez uma cena com o pai, mas ela foi cortada. "Já era um sinal para que eu nunca me levasse demasiado a sério", ela diz (e ri). Mais tarde, e apesar do parentesco ilustre - seus pais nunca trataram de impor sua participação em nenhum elenco -, ela fez testes para papéis e filmes para os quais não foi chamada. O pai lhe deu um conselho - "Não tome isso como algo pessoal, uma rejeição. É que o papel não era para você."

Ela retrucava que era fácil para alguém como ele, com seus mais de 100 filmes e grandes personagens, dizer aquilo. Seu primeiro papel oficial foi em Minha Estação Preferida, de André Téchiné, de 1993, contracenando com a mãe. Chiara conta que estava uma pilha de nervos. Fez o filme tensa, e olhe que Téchiné, que fez vários filmes com sua mãe, a conhecia desde criança e tratava de relaxá-la. Em 1996, Arnaud Desplechin dirigiu-a num papel em Comment Je me Suis Disputé (Ma Vie Sexuelle). Ela nem se lembrava, mas no final Desplechin lhe enviou um bilhetinho, dizendo esperar que trabalhassem de novo, e num papel maior, como ela merecia. Esse papel veio somente em Um Conto de Natal, 12 anos mais tarde.

Romantismo. Filmes (no plural) com Honoré, com Desplechin. Ambos costumam repetir atores. Como Chiara se sente integrando essas famílias de autores do cinema francês? "Não gosto de pensar em família desse jeito, como se tivéssemos um vínculo e eles tivessem de seguir me oferecendo papéis. Mas quando o papel existe e eles me chamam, naturalmente que é um prazer."

Antes do papel decisivo em Não, Minha Filha, Você Não Irá Dançar, de 2009, Honoré ofereceu a Chiara um papel pequeno, mas cheio de significados, em A Bela Junie. O filme de 2008 é uma livre adaptação, transposta para a atualidade, de A Princesa de Clèves, romance de Madame de La Fayette que é considerado clássico por haver introduzido a análise psicológica na literatura francesa. Não foi mera coincidência que Chiara tivesse feito - um de seus primeiros papéis como protagonista - A Carta, de Manoel de Oliveira, justamente baseado em A Princesa de Clèves.

"Foi um brincadeira de Christophe me chamando para fazer o papel, aliás, uma dupla brincadeira. Os filmes dele, como aquele de Oliveira, são produzidos por Paulo Branco, que virou referência como patrocinador de cinema de autor. Paulo acredita que se pode fazer grande cinema com pouco dinheiro - só o que é preciso é um pouco de celuloide e inteligência de mise-en-scène", ela avalia.

Bem Amada versa sobre o quê? "Apesar do título, é um filme sobre a dificuldade de amar. Minha mãe, Madeleine, é amante desse homem há 40 anos. De cara, ela canta que pode viver longe dele, mas não deixar de amá-lo. É a essência romântica de Christophe. Em Canções de Amor (de 2007), ele já me havia feito cantar a canção mais dramática e depressiva do filme, e aliás me sugerira que deixasse a emoção fluir. Se chorasse, tudo bem. Christophe é mestre em fazer com que a gente libere os sentimentos."

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