Chernobyl na vida de Verlaine e Wilde

O nome russo para a artemísia, planta da qual se origina o absinto, é chernobyl. A coincidência com o nome da usina que, em 1986, protagonizou o maior desastre nuclear do mundo tem algo de significativo quando se pensa na história da bebida em questão, indissociável da vida e da obra de grandes nomes da arte e da literatura, como Paul Verlaine e Oscar Wilde.

Raquel Cozer, O Estado de S.Paulo

11 de janeiro de 2011 | 00h00

É dessa relação intrínseca que trata Absinto - Uma História Cultural, do jornalista Phil Baker, cuja pesquisa destaca a chamada "década do absinto", a última do século 19. Naquele momento, a bebida estava mais em alta do que nunca entre escritores. Não à toa, dois de seus mais notórios consumidores, Oscar Wilde e Ernest Downson, morreram justamente em 1900. Como escreveria anos depois, num ímpeto otimista, W.B. Yeats: "Aí, em 1900, todo mundo desceu das pernas de pau; doravante, ninguém tomava absinto com café preto; ninguém mais ficava louco; ninguém mais se suicidava; ninguém se convertia ao catolicismo; ou, se o faziam, esqueci."

A artemísia era usada desde milhares de anos antes de Cristo como erva medicinal. Pitágoras dizia que folhas da planta maceradas em vinho facilitavam o parto, enquanto Hipócrates as indicava para dores menstruais e reumatismo. No Renascimento já se consumiam outras bebidas derivadas da planta, também macerada em vinho. Foi só no século 18 que surgiu o absinto tal como ficou conhecido, uma das bebidas de mais alto teor alcoólico da história. Passaria a ser consumido por tropas francesas em guerras coloniais na África do Norte, como defesa contra malária, antes de ser tornar um hábito burguês. Em Paris, o horário entre 17 e 19 horas ficou conhecido como a Hora Verde - era até respeitável tomar uma dose antes do jantar.

Não demorou para surgir a afinidade entre boemia e absinto, considerada a "mais cerebral das bebidas". Gustave Flaubert ressaltou esse aspecto na vida de quem aspirava ser intelectual: "Ser dramaturgo não é uma arte, é um jeito (...). Para começar, tem de tomar uns copos de absinto no Café du Cirque." Era na passagem do "um copo" para "uns copos" que a bebida virava veneno. Numa bebedeira, por exemplo, Paul Verlaine chegou a atear fogo na própria mulher. Ao final da vida, jogaria a culpa de todos os seus excessos no absinto.

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