Chekhov e sua grande família

Montagem russa Os Irmãos Chekhov focaliza anos de juventude do dramaturgo

Maria Eugênia de Menezes, O Estado de S.Paulo

13 de novembro de 2010 | 00h00

Sentado no escuro da plateia, o espectador poderá ter a sensação de espiar de soslaio, quase como um voyeur, o cotidiano de uma família. Uma família como as outras. Em que há desavenças entre irmãos, discussões despropositadas. Em que uns dias são melhores que outros. Uma casa comum, onde não faltam reconciliações, gritos e risos.

É assim, ao menos, que o diretor russo Alexander Galibin gosta de imaginar que sua peça Os Irmãos Chekhov será vista pelo público de São Paulo: como um instantâneo, um breve e vertiginoso mergulho na juventude do dramaturgo Anton Chekhov.

A montagem, que chega ao Brasil para apenas três apresentações - duas hoje e uma amanhã - no Teatro do Sesc Consolação, fez sua première na última edição do Festival Internacional Chekhov. Foi pensada como parte das comemorações pelos 150 anos do escritor e tenta palmilhar, a despeito da aura de despretensão que a cerca, uma faceta inexplorada da vida do autor de A Gaivota. "Queria tocar em um lugar que ainda não tinha sido tratado pela dramaturgia", disse Galibin, diretor artístico do Stanislavski Teatro Dramático de Moscou, em entrevista ao Estado. "Um período em que Chekhov ainda não era ninguém. Não era o escritor famoso, o dramaturgo. Era apenas o irmão dos seus irmãos."

Durante muito tempo, mesmo depois de já ter se formado médico, Chekhov escrevia por dinheiro. Escrevia muito para conseguir ganhar seis ou oito copeques por linha. Era com os contos que vendia para revistas e jornais, que sustentava a família. Os dois irmãos mais velhos, os dois mais novos, a irmã Macha - nome que nos remete invariavelmente à personagem de sua peça As Três Irmãs.

Juventude. Escrito por Helena Gremina, o texto de Os Irmãos Chekhov desvela um recorte desse cotidiano. Focaliza o jovem dramaturgo em seus anos de formação, seu relacionamento - não raro conflituoso - com a família, miudezas de uma rotina que, até então, nada tinha de extraordinária. "É um trabalho que quebra com esse olhar de estátua de bronze que as pessoas dirigem a Chekhov. Que mostra um homem dentro de uma família. Com todos os problemas que uma família tem, em todas as suas situações anedóticas e tristes", comenta o encenador.

Tão devotada ao relato de filigranas, de acontecimentos desimportantes, a obra de Helena Gremina termina por carregar uma aura chekhoviana na própria forma como se organiza.

Seria precisamente na sua devoção à simplicidade que Chekhov desconcertou seus contemporâneos e se tornou revolucionário. Seu teatro propunha parâmetros desconhecidos, impunha a construção de uma nova carpintaria teatral. E foi isso que Konstantin Stanislavski fez quando apresentou sua versão de A Gaivota com o Teatro de Arte de Moscou: inaugurou uma escrita cênica outra, que mudaria, para sempre, os rumos do teatro.

A montagem que chega ao Sesc Consolação bebe diretamente nas duas fontes. Além de debruçar-se sobre a história do dramaturgo russo, Galibin é um herdeiro quase direto de Stanislavski. Estudou com Anatoly Vassiliev - um dos desdobradores da teoria stanislavskiana de formação de atores - e hoje dirige um teatro fundado pelo mítico diretor. O Stanislavski Teatro Dramático de Moscou surgiu a partir de um estúdio de ópera que o encenador manteve no fim da vida. Herdado por seus alunos, acabou por se transformar em um teatro de prosa e, hoje, ocupa um prédio na mais importante avenida da capital do país.

Por tudo isso, convém esperar por um verniz realista na realização de Os Irmãos Chekhov. O que não deve resultar, ressalva o diretor, em uma abordagem datada. "Gosto de pensar que sou um homem tradicional. Não porque procuro aquilo que está estabelecido, cristalizado. Mas porque entendo a tradição como um retorno à raiz das coisas."

OS IRMÃOS CHEKHOV

Teatro Anchieta. R. Dr. Vila Nova, 245, 3234-3000. Hoje, 18 h e 21 h; amanhã, 19 h. R$ 20.

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