Chekhov e seus persistentes inquéritos à alma

Encontro este mês em Yalta, para celebrar os 150 anos do grande escritor e dramaturgo russo, nos fez repensar algumas das questões profundas de sua obra genial

Danilo Santos de Miranda, O Estado de S.Paulo

29 de outubro de 2010 | 00h00

Comemoramos 150 anos do nascimento de Anton Chekhov no início de 2010. Foi em Yalta, banhada pelo mar Negro, onde estive no começo deste mês de outubro, que ele passou os anos mais serenos de sua vida curta e enferma de apenas 44 anos. Em meio a muitos especialistas, gestores culturais, acadêmicos e artistas, esse Congresso sobre a atualidade desse russo me fez recuperar uma percepção detalhada e pessoal: de que seus compatriotas, que deveriam ser os maiores interessados na propagação dos textos, são os que mais preservam um certo cânone chekhoviano, que exaltam como sendo dificilmente penetrável para outras realidades. Meu desejo passava bastante ao largo de defender uma ou outra adaptação considerada "fiel" ou não. Naquela ocasião, aquele Shakespeare da Crimeia me falava por sua empática e ambígua relação entre as pessoas, seus diálogos prosaicos e abarrotados de significados, seu jogo de ofertar um repertório de agruras normalmente acompanhadas de uma resignação particular. Ali, naquela extensão litorânea de Yalta onde estávamos, cunhou-se o conceito de que, das vivências sucintas como de seus escritos, podemos tirar proveito de ideias extraordinárias e igualmente profundas, pois foi esse literato que enalteceu a "brevidade", aparentando-a como "irmã do talento".

Sem respostas. Em uma reunião como essa, comentar os quase 600 contos e as 14 peças de teatro de Chekhov é prometer a si mesmo se lançar a angústias universais e segredos insondáveis da natureza humana que foram desvelados pelo russo em um método socrático: sem respostas, só infiltrando perguntas cada vez mais discretas em nosso íntimo. Será que Tio Vanya se arrependeu de ter ajudado Aleksandr Serebriakov? Será que esse eterno frustrado Tio Vanya teve um momento de discernimento para mudar seu destino e não o fez? Será que Trepliov, em A Gaivota, se insistisse na carreira de dramaturgo e não tivesse se matado, pudesse ser um grande escritor? Será que a fala final das Três Irmãs ("Se soubéssemos, se soubéssemos") não nos mostra que Chekhov evidencia que está na rotina da vida, no desenvolver dos fatos simples, que as circunstâncias acabam por nos privar de escolhas decisórias em nossos futuros? Será que Dmitri Gurov e Ana Sergueiévna resolvem por fim ficar juntos depois de reconhecerem que deixaram circunspectos os melhores momentos que poderiam ter vivido em um romance iniciado há anos na mesma Yalta, no conto A Dama do Cachorrinho? Ou será que é próprio do humano ser irremediavelmente sombrio, modesto, arcaico e se afligir em frustrações ao longo da vida? Fica provado, para muitos pesquisadores, que o mais importante no vaivém da ação dramática é aquilo que não se descobre na própria cena, mas que tardiamente se revela: um passado que ela evoca para justificar personagens abatidos por uma consternação de quem não pode reviver o tempo perdido.

Sua predileção por anti-heróis não acontece por acaso. Para alguém que foi médico, trabalhou incansável e solidariamente, afortunou-se com a profissão e cultivou a literatura por paixão, fica claro que Chekhov é um crítico dos comportamentos passivos tanto quanto das posturas políticas muito fervorosas que se propagavam na época. A tessitura de sua arte não figura um propósito panfletário que esteja manifesto em sua vasta bibliografia. Seu interesse se voltou mais frequentemente ao relativo à metafísica, a questões universais e atemporais, sem indicar nenhuma prerrogativa moral que se possa abstrair de suas histórias. Pouco importa se o desfecho segue conforme as regras convencionais de uma época. Concerne a cada leitor ou espectador apontar este ou aquele desvirtuamento moral ao personagem se houver interesse e se considerar tal característica saliente para tanto. Por essa razão, suas personagens são imutáveis, não sofrem com a convenção de uma época, mas sim com a sua própria ausência de decisão. O escritor está voltado para razões que nos expõem nus frente a conduções presumidamente livres e singulares. A reflexão é guiada para pensarmos no que fazer com a única vida de que dispomos e no peso que damos a nossas predileções. A paixão desmedida, o egoísmo, a resignação, o fracasso são características recorrentes nas personagens chekhovianas, pessoas comuns que em nada se assemelham com aquelas maniqueístas às quais percebemos em tantos outros clássicos.

Discutimos durante dias infatigáveis a atualidade de Chekhov e todos os matizes de suas composições literárias. Mas esse encontro continuará sem muitas respostas, ainda que estejamos há um século e meio do nascimento deste autor fundamental para os amantes do teatro e da literatura. A minha expectativa, mesmo carente de algumas respostas, submete-se a olhar o futuro com otimismo. Se ao final de Tio Vanya, Sonia, a sobrinha, convence o protagonista de que é preciso descansar, cabe a mim categoricamente negar Sonia. Não podemos descansar nunca ao revirarmos os segredos de Chekhov.

DANILO SANTOS DE MIRANDA É O DIRETOR REGIONAL DO SESC SÃO PAULO

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