Chegada ao teatro. Pela porta da frente

Il jazz stà diventando inttelettuale? Lembro da frase, numa versão italiana do romance de Nelson Algren, O Homem do Braço de Ouro, filmado em 1955 com Frank Sinatra no papel-título. A indagação refletia o espírito adversativo da época. Nas artes plásticas, era abstracionismo versus figurativismo. No jazz, rolava uma guerra sem trégua entre o tradicional e o moderno: os defensores do hot chamavam de "impostores" os praticantes do bebop; os adeptos da New Thing, com seu jargão cool, descartavam os tradicionalistas como "old hat" e "square" - antiquados e quadrados.

Roberto Muggiati & Jazz, O Estado de S.Paulo

06 de novembro de 2010 | 00h00

Felizmente, entre mortos e feridos, salvaram-se todos. Discos e concertos opondo tradicionalistas e modernistas mostraram que não havia muita diferença e renderam música da melhor qualidade. Havia uma evolução natural do trompete de Louis Armstrong ao de Dizzy Gillespie, passando pelo de Roy Eldridge; o mesmo para a transição do saxofone tenor de Coleman Hawkins para John Coltrane, passando por Lester Young (Coleman e Coltrane até gravaram juntos).

Kubrick. Nos seus 100 anos de vida visível (ou audível), o jazz mudou de pele um sem-número de vezes. Assistimos hoje a uma recapitulação de tudo o que já aconteceu antes, com ênfase nesta ou naquela vertente. Ouvi Brad Mehldau pela primeira vez na trilha do último filme de Stanley Kubrick, De Olhos Bem Fechados, numa interpretação relativamente bem comportada do standard Blame It On My Youth.

Neste começo de outubro, eu o vi de perto no Theatro Municipal do Rio, na sua turnê Piano Solo Improvisations. Uma bela mudança em 13 anos. Aos 40, Brad já descobriu o que quer e aperfeiçoou uma linguagem própria. Há quem o compare a Keith Jarrett. Nada a ver. Jarrett define bem as fronteiras entre suas composições clássicas, seus solos de piano fluviais e suas improvisações sobre standards. Já em Brad é tudo uma coisa só, sem limites claros.

Reconstrução. No concerto carioca, ele partiu de material conhecido: Chico Buarque (Trocando em Miúdos), Beatles (Blackbird), e standards vinculados a Chet Baker (I"m Old Fashioned), Bud Powell (Get Happy) e John Coltrane (My Favorite Things). Os altos voos de Bud e Trane de 50 anos atrás ficaram rasantes comparados aos improvisos de Mehldau. Ele esboça o tema em poucas pinceladas e parte para a sua "desconstrução" - na verdade, uma "reconstrução", como se estivesse juntando meticulosamente as peças de um Lego gigante.

Suingue, blue notes e outros cacoetes do improviso jazzístico são preteridos, Mehldau prefere entregar-se a escalas eruditas (Bartok, impressionistas e até Schumann), o que pode alienar um pouco o jazzófilo ortodoxo. Seja como for, sente-se que é um trabalho de amor e de grande dedicação. "O jazz nunca teve medo de pegar algo e transfigurá-lo", disse ele no Rio.

Já a Jazz Orchestra of the Concertgebouw tem mais os pés da terra, apesar das harmonias etéreas da primeira parte do programa, dedicado à releitura de Birth of the Cool, de Miles Davis, de 1949/50. Haja releituras dessas gravações lendárias! Eu mesmo, num saxofone tenor Ubaldo T. Abreu, acompanhado por uma bateria Pingüim e um violoncelo do avô amplificado, já tocava Boplicity em Curitiba, em 1957.

Montreaux. Em 1992, Gerry Mulligan, que participou daquelas sessões, correu o mundo com o Re-birth of the Cool. E o próprio Miles, no seu último verão, tocou temas de Birth of the Cool no Festival de Montreux de 1991.

A Concertgebouw, no formato típico das big bands, com seus naipes de sax, trompete e trombone e uma seção rítmica, obedeceu às orquestrações originais de Gil Evans. Os solos - competentes, mas burocráticos - nada acrescentaram. Foi na reverência às partituras originais de Birth of the Cool que saltou aos ouvidos a magia daqueles arranjos e composições de 60 anos atrás, que soam não apenas novos, mas eternos.

Tema original. Na segunda parte, a JazzGebouw homenageou Duke Ellington, o pai da orquestração jazzística (Caravan, In a Sentimental Mood), e mostrou seu talento próprio numa bela orquestração tríplice de All The Things You Are e num tema original, Blues for Rio de Janeiro.

Na atmosfera belle époque da sala, lembrei de repente da importância do Municipal para o jazz. Ali aconteceu, em 16 de julho de 1961, o concerto do American Jazz Festival, um grupo itinerante que incluía, entre outros, Coleman Hawkins, Roy Eldridge, Al Cohn, Zoot Sims e Herbie Mann.

Aquela noite memorável foi gravada em dois álbuns, Jazz no Municipal, pelo selo Imagem. A visita dos americanos seria retribuída no ano seguinte com o famoso concerto brasileiro no Carnegie Hall de Nova York, que lançaria a bossa nova para os EUA e o mundo. Levou algum tempo, mas os grandes templos da tradição erudita acabaram despertando para o valor musical do jazz.

ROBERTO MUGGIATI É PESQUISADOR, MÚSICO E ESCRITOR, AUTOR DO LIVRO BLUES - DA LAMA À FAMA

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