Chega o centenário do escritor Érico Veríssimo

Érico Veríssimo se definia como um ´gaúcho a pé´. Veríssimo poderia estar a pé, mas sua obra marchou em ritmo galopante pelo século 20 e chega aos dias atuais com uma das maiores da literatura brasileira. A pé ou não, sua obra alcançou lugar nunca imaginado por ele mesmo. Traduzido para vários idiomas, festejado por crítica, público e amigos, o autor de O Tempo e o Vento completaria 100 anos neste sábado.Entre as homenagens mais recentes, vale ressaltar o livro áudio Érico Veríssimo - Contos por Paulo Autran e o lançamento em DVD da minissérie O Tempo e o Vento, que a Globo realizou magistralmente em 1985. O DVD (Som Livre, R$ 60) traz na íntegra a minissérie inspirada no maior clássico do autor gaúcho, e conta com um especial dirigido pelo cineasta Jorge Bodanzky. O CD tem gravação de Paulo Autran para seis contos do escritor, de quem foi amigo. "Conheci o Érico em 1957, quando a peça Othelo, na qual trabalhei, estreou em Porto Alegre. Foi uma amizade linda que durou até a sua morte", relembra o ator, que não lê apenas os contos, mas dá dimensão dramática a uma obra que não foi escrita para ser necessariamente encenada. "Eu procuro dar sabor às leitura". "Costumo escolher os poemas que gravo. Mas desta vez, não foi assim. E acho a escolha de contos do Érico foi muito adequada. Um romance talvez fosse muito extenso", comenta Autran, que levou apenas três horas para gravar os seis contos que compõem a edição dupla: A Escolha, As Mãos de Meu Filho, O Navio das Sombras, Chico, Os Devaneios do General e Esquilos de Outono. Destaque para a faixa extra com comentários de Autran sobre as anotações que o próprio Érico fez sobre o conto Chico, 41 anos depois de tê-lo escrito. "Nunca faço comentários nos CDs que gravo, mas as observações de Érico sobre este conto são interessantes. Ele escreveu Chico muitos antes de ser um grande romancista. Para ele, Chico e seu drama eram apenas um assunto literário e não um sintoma de doenças terríveis de nosso organismo social. Muito autocrítico, Érico escreveu: ´Se um dia houver um concurso de lugares-comuns, acho que vou me inscrever com este conto´", comenta Autran."Ele é realmente espetacular. Toda vez que penso num novo CD, a primeira pessoa em quem penso é o Paulo", conta Paulo Lima, organizador e idealizador da coleção de livros áudio que já tem em seu portfólio obras de Fernando Pessoa, Drummond, Cecília Meireles e prepara para o início de 2006 o lançamento de A Hora da Estrela, junto com a edição pela Rocco do livro de Clarice Lispector. E é Paulo Autran quem aprova as homenagens a Érico. "Tudo que foi feito neste ano é muito justo. Érico, principalmente O Tempo e o Vento, é maravilhoso. Obra bem escrita, liberal, progressista. É fantástica". O fato de justamente esta obra seminal chegar à telas da TV teve papel crucial na difusão da genialidade de Veríssimo. "Antes da minissérie, o Érico era mais conhecido e valorizado no Sul. Não havia esta paixão no restante do País. Depois de 1985, isso mudou muito", conta Bodanzky. "Agora, com a chegada do DVD, vamos poder perpetuar isso. Eu mesmo não vejo o material que filmei sobre a série desde a época em que finalizei. Vai ser ótimo ver de novo", completa o diretor de filmes como Iracema - Uma Transa Amazônica. Com direção-geral de Paulo José, direção dele e de Denise Saraceni e Walter Campos, a minissérie teve adaptação de Doc Comparato, com colaboração de Regina Braga. Os números são superlativos. Foram consumidos mais de 80 mil horas só para construir os cenários, seis meses de pesquisa, 3 mil figurantes, centenas de baldes de sangue de chocolate e groselha... Até uma Figueira falsa foi construída na cidade cenográfica. Bodanzky realizou não um making-of sobre esses bastidores, mas um documentário sobre essa que é uma das maiores empreitadas da TV Globo. "Daniel Filho me convidou e me deu carta branca. A idéia fazia parte de um projeto maior de documentar todas as grandes séries que a Globo produziria a seguir. Eu fiz este no formato para ir ao ar no domingo, véspera da estréia. Mas o Tancredo Neves morreu naquele domingo e o material acabou não sendo exibido". O documentário também revela os bastidores de cenas antológicas, como a primeira vez que Ana Terra (Glória Pires) entra em cena e se olha no espelho d´água. Ana é a ´mulher de faca na bota´, a personificação da força da mulher gaúcha. Sua saga e a de sua família é a saga do povo e da formação do Rio Grande do Sul, passando pelas lutas de fronteiras, pela Revolução dos Farrapos e chegando até a República e ao governo Getúlio Vargas. A minissérie conta apenas a primeira parte, O Continente (1949), da obra que possui mais dois volumes: O Retrato (1951) e O Arquipélago (1962), que se estende até 1945. Para concluir este ano de homenagens, uma ótima notícia seria ouvir que a obra completa vai chegar finalmente à televisão. Os fãs agradeceriam.

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