Lu Barcelos/Divulgação
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Chega mais perto

Os limites da intimidade estão na nova coreografia da companhia goiana Quasar, Tão Próximo, que desembarca em São Paulo no sábado

Maria Eugênia de Menezes GOIÂNIA, O Estado de S.Paulo

03 de novembro de 2010 | 00h00

O indivíduo sempre esteve no horizonte de Henrique Rodovalho. Não importa em que fase da trajetória da Quasar. A cada nova obra, desde os primórdios da companhia goiana, o coreógrafo diz que seu foco recaiu invariavelmente sobre um corpo solitário, seus movimentos, suas motivações. "Mesmo que vários bailarinos estivessem dançando ao mesmo tempo, havia um olhar para cada um." Mas esse tempo, de supremacia da individualidade, acabou.

Em sua nova coreografia, Tão Próximo, a Quasar Cia. de Dança recusa o caminho costumeiro, toma a contramão e vai deter-se sobre as relações com o outro, as possibilidades de encontro. É a isso que a plateia do Teatro Alfa deve assistir nas apresentações que o grupo do Centro-Oeste faz neste sábado e domingo em São Paulo: a corpos que se encontram, que se misturam e chegam a se aproximar tanto, mas tanto, que se confundem.

Na semana passada, quando o Estado acompanhou sua estreia nacional em Goiânia, os bailarinos testaram essa "fórmula de proximidade extrema". Coberto por uma imensa manta de pelúcia branca - que também deve ser vista por aqui -, o palco tornou-se um espaço a sugerir intimidade. "É como se essa pelúcia fosse outra pele na qual se esfregam, um quarto de dormir, uma cama", comenta Rodovalho, coreógrafo e diretor-artístico da Quasar desde 1988. "A coreografia seria completamente diferente se usássemos o linóleo convencional."

 

 

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linkSeu corpo coladinho ao meu

Mais do que simples cenário, o tapete de pelúcia sobre o qual dançam os bailarinos ditou a própria partitura dos movimentos. Não é apenas o indivíduo que desapareceu do palco. É o ritmo de toda a movimentação que mudou. Os corpos sobem pouco ao ar, estão quase sempre presos ao chão. "Todo o eixo de equilíbrio mudou. Tivemos que redimensionar os pesos, os apoios. No início, foi um pânico. Eles escorregavam, caíam. Tiveram que reaprender a dançar", explica. Os gestos também ficaram mais lentos, por vezes mínimos, circunscritos a pequenas partes do corpo. Um braço que se ergue, um dedo indicador que encontra a ponta de um pé, dois olhares que se cruzam.

Talvez por isso, nos conta o diretor, o atual trabalho tenha surgido menos da sala de ensaio que das conversas com o elenco. Foi de incontáveis discussões sobre o real espaço entre as pessoas, sobre os limites entre convivência social e intimidade, que o diretor retirou substrato para a coreografia, a 22.ª que conduz à frente da Quasar.

Inevitavelmente, o resultado destoa um pouco daquilo que a companhia levou aos palcos nas últimas duas décadas. Sem o virtuosismo que costuma caracterizar o grupo goiano. Mas ainda com traços ressaltados da linguagem irreverente e bem-humorada que foi capaz de romper a hegemonia do eixo Rio-São Paulo-Belo Horizonte e atrair olhares dentro e fora do País.

Leitura aberta. A guiar Tão Próximo existe uma dramaturgia esboçada, mas não uma leitura única. Ou um sentido inequívoco a ser apreendido. "Não se trata apenas de uma reflexão sobre relações próximas, relacionamentos amorosos. Investigamos também essas relações corriqueiras, cotidianas. O quanto somos capazes de fazer algo pelo outro? E o quanto fazemos isso por um genuíno altruísmo ou apenas para apaziguar nossas consciências?" questiona Rodovalho.

A reflexão sobre os limites dessa relação com o próximo serve de pano de fundo, mas também contamina os movimentos. Pela primeira vez, Rodovalho construiu uma coreografia inteira sem um único solo. Aqui, só há lugar para duos, para trios, para muitos dançando juntos. Para corpos que se procuram.

O indivíduo, contudo, não foi apagado, ele gosta de ressalvar. E evoca uma cena para explicar seu ponto de vista: Deitada no chão, uma bailarina permite que alguém pise sobre ela, caminhe sobre o seu corpo. Mas não se trata de uma anulação. "Fiz questão de que ela mantivesse os olhos abertos. O fato de ser pisada é algo que ela pode aceitar ou recusar. É uma escolha".

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