Chega de só ouvir

Quatro CDs de Hendrix saem com DVDs que contam como cada disco foi gravado com saborosas histórias de bastidor

Roberto Nascimento, O Estado de S.Paulo

26 de junho de 2010 | 00h00

A presença dos três primeiros álbuns de Jimi Hendrix no conjunto das grandes obras musicais da história da humanidade é incontestável. Lançados em um período de dois anos entre 1967 e 1969, os discos desenvolveram a ideia do álbum conceitual disseminada pelos Beatles em Sgt. Peppers Lonely Hearts Club Band e viraram o mundo do rock de cabeça para baixo com técnicas de gravação inovadoras, faixas instrumentais abrangentes e, é claro, a incomparável maestria do guitarrista que resumiu todo o caos e esperança de sua época ao catalisá-los por um grande filtro de distorção e lirismo.

O relançamento dessa santíssima trindade (Are You Experienced?, Axis: Bold as Love e Electric Ladyland) - mais o póstumo First Rays of the New Rising Sun - chega ao Brasil agora pela Sony Music como edição comemorativa dos 40 anos da morte de Hendrix. Fora a remasterização já feita em reedições anteriores, os discos trazem DVD com um excelente documentário sobre a concepção de cada um desses álbuns.

O apresentador desses "making ofs" é o engenheiro de som Eddie Kramer, que capitaneou a mesa de mixagem em todos os discos e tornou-se um mago dos estúdios ao concretizar as façanhas sonoras imaginadas por Hendrix. Kramer fala sobre a construção de faixas como Crosstown Traffic, Purple Haze e Spanish Castle Magic em frente de um console com as fitas originais.

Enquanto conta as histórias de cada música, o engenheiro as remixa, ora trazendo à tona as diversas camadas de guitarra que Hendrix gravou, ora iluminando detalhes difíceis de ouvir nas versões finalizadas. Para fãs e curiosos sobre o processo criativo de um gênio, é um deleite.

É possível ouvir com clareza, por exemplo, junto à saborosa história de como Hendrix, ao gravar Electric Ladyland, saía no meio da noite para buscar músicos nos inferninhos de Nova York, um diálogo musical brilhante entre o músico e o organista Steve Winwood, sem se perder na densidade sonora de Voodoo Chile.

Kramer também ilustra a construção de Little Wing com detalhes como o acompanhamento de sinos infantis concebido em contraponto à linha de baixo da música. As primeiras tentativas de Hendrix ao gravar a faixa são espantosas. Mostram o músico tateando, arriscando e lapidando as possibilidades sonoras à perfeição com uma liberdade criativa impressionante, uma obsessão que é foco de boa parte dos documentários.

Como revela Chas Chandler, produtor dos dois primeiros discos, o perfeccionismo do músico foi o estopim de uma briga que levou Chandler a abandoná-lo durante as gravações de Electric Ladyland, quando Hendrix passava noites no estúdio, tomado pelos surtos criativos que originaram uma infindável mina de ouro de lançamentos póstumos.

Além de longas improvisações, o músico gravava de 30 a 40 takes de cada faixa e levava o produtor, preocupado com o orçamento, à loucura.

Os documentários também contam com entrevistas de Mitch Mitchell, Noel Redding, e Billy Cox, parceiros de Hendrix. Além de revelar curiosidades (saíram das mãos de Kramer, pianista amador, os acordes de Spanish Castle Magic; uma flauta doce encontrada por Hendrix no estúdio foi usada pelo guitarrista para a improvisação do final de If Six Was Nine) o grande trunfo das histórias é o facho de luz que jogam na relevância de Jimi Hendrix.

Em uma de suas mixagens, Kramer adiciona, uma por uma, as diversas camadas de guitarra de Night Bird Flying. A perfeição com que se encaixam relatam a explosão criativa que Hendrix viveu ao longo de sua breve carreira. Lembram também uma fuga de Bach, aquele outro grande músico que nos influencia até hoje.

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