Chega às livrarias "Vidas do Carandiru"

No domingo, quando parte docomplexo do Carandiru, na zona norte de São Paulo, veio abaixo,Humberto Rodrigues pôde acompanhar, em liberdade e pelatelevisão, a demolição do lugar em que viveu por 471 dias, atéque uma decisão judicial o absolvesse da acusação de terorganizado um assalto a uma casa cheia de obras de arte.Recordei muita coisa, alegre e triste, e perguntei-me ondeestariam meus alunos. Pensei até nos milhares de percevejos queestavam morrendo naquela hora. Jornalista e publicitário, Humberto Rodrigues é autor deVidas do Carandiru, um relato do período em que esteve preso entre uma passagem breve, mas tenebrosa, na cadeia da Depatri,e sua experiência pelos pavilhões da Casa de Detenção. Parece um livro, mas são vários. Rodrigues começanarrando a sua história, do desemprego depois de uma carreira desucesso, após os 50 anos, à confusão em que se meteu e que olevou à prisão. Até então, o livro tem a forma de um depoimento,algo bastante tradicional na recente literatura feita porpresidiários no País - fórmula presente nas livrarias com obrascomo Diário de um Detento, de Jocenir, Sobrevivente Andrédu Rap, de André du Rap, e Memórias de um Sobrevivente(Companhia das Letras), de Luiz Alberto Mendes. A partir da chegada ao Carandiru, Rodrigues passa aorganizar um diário no sentido estrito. Conta por que e comocomeçou a escrever - inicialmente, para participar de umconcurso literário que resultou no livro Letras e Liberdade,lançado há dois anos, com textos de 15 detentos, entre elesRodrigues - e de como começou a dar aulas de português ematemática para seus colegas na prisão. O dia-a-dia traz ainda problemas de dinheiro, de saúde,de estada. Rodrigues também relata mortes de companheiros,apresenta números sobre o sistema carcerário e suas expectativascom relação ao seu processo. Como detento, Humberto viveu arebelião de 18 de fevereiro de 2001. Há dias que não seesquecem mais e este será um deles. Tudo estava aparentementetranqüilo. Aos poucos, os presos tomam conhecimento dadimensão da rebelião, que alcançou 28 presídios. Seis mesesdepois, em 18 de agosto, Rodrigues se lembra: Hoje éaniversário da minha filha. A última data do diário de Rodrigues é 21 de outubro de2001, já em liberdade, três dias após sua soltura - uma notacompleta o dia, intitulada Um Mês depois, em que escreve:Estou sozinho novamente, mas não estou ´isolado eincomunicável´, como afirmou meu irmão certa vez. Agora estou emmeu apartamento, que é pequeno e acolhedor. Ao fim de seu diário, inicia o capítulo As Histórias deMeus Companheiros, 12 perfis de outros detentos do Carandiru,que ocupa cerca de metade de Vidas do Carandiru. É o livroimaginado por Rodrigues que surge, com as possibilidades que sóa condição de ´repórter-participante´ permite. Aqui, cabe apenascitar os breves resumos que compõem o sumário dessa parte: PorUm Milhão de Dólares - Saiu de uma pequena cidade do interior daNigéria e tornou-se o maior traficante da África do Sul,conseguindo ganhar mais de um milhão de dólares; e Vadinho -Ele trapaceia da mesma forma que precisamos de ar para respirar,como as abelhas precisam do néctar de suas flores. Ashistórias não devem nada a suas apresentações.Serviço - Vidas do Carandiru. De Humberto Rodrigues. GeraçãoEditorial, 294 págs., R$ 25. Lançamento na sexta-feira, às 18h30 na Livraria da Vila (R. Fradique Coutinho, 915, tel.3814-5811)

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