Chega às livrarias 'Livro das Perguntas', de Pablo Neruda

Ferreira Gullar é responsável pela tradução e Isidro Ferrer das ilustrações da obra póstuma do poeta chileno

Antonio Gonçalves Filho, de O Estado de S. Paulo,

09 de maio de 2008 | 16h48

Num tempo em que a palavra "natural" é vendida como refrigerante diet, não custa lembrar que só mesmo uma sociedade que não se assombra com nada, para a qual tudo é natural, pode viver sem fazer perguntas. Sim, porque, para o homem grego, que se assombrava com tudo, tudo era sobrenatural - e não há, de fato, nada de natural na natureza, onde uma flor rara nasce em meio a flores vulgares sem que alguém possa explicar o fenômeno. Uma dessas raridades é um livro póstumo do poeta chileno Pablo Neruda (1904-1973), chamado muito apropriadamente de Livro das Perguntas (Cosac Naify, tradução de Ferreira Gullar, ilustrações de Isidro Ferrer, 182 págs., R$ 45), que será lançado neste sábado, 10, às 16 horas, na Livraria da Vila (R. Fradique Coutinho, 915, Vila Madalena, tel. 11- 3814-5811), com uma leitura performática da atriz Amanda Miorim.   Muitos críticos concordam que esse é o testamento poético de Neruda, mas nem todos aceitam classificá-lo como livro infantil, apesar das perguntas que só uma criança, em sua ingenuidade pagã, teria coragem de formular. Há quem aponte certa influência oriental no Livro das Perguntas, especialmente a relação que guarda com a forma dos haicais, e outros que preferem ler esse "testamento" como um tributo de Neruda às suas primeiras paixões, como as "lunerías" de García Lorca ou as greguerias de Ramón Gómez de la Serna. O autor do posfácio da edição que agora é publicada no Brasil, Herrín Hidalgo, prefere ver nele um livro que adota o bíblico Livro de Jó como modelo, o que faz sentido. Tantas perguntas sem respostas do céu só podem apontar o caminho do sofrimento.   Essa, porém, não é a rota escolhida pelo ilustrador aragonês Isidro Ferrer, que vem ao Brasil na próxima semana participar (no dia 16, às 11 horas) de um debate com o argentino Pablo Bernasconi sobre o design ibero-americano, na Escola Superior de Propaganda e Marketing (R. Dr. Álvaro Alvim, 123, Vila Mariana), numa promoção conjunta com o Instituto Cervantes e Colégio Miguel de Cervantes, que comemora 30 anos patrocinando uma edição especial de 200 exemplares do livro de Neruda (a tiragem comercial é de 5 mil exemplares).   Ferrer concedeu uma entrevista ao Estado, em que conta como aceitou a encomenda da editora valenciana Media Vaca para ilustrar o Livro das Perguntas de Neruda, a mesma que a paulistana Cosac Naify publica agora. "A princípio, me pareceu um texto complexo, muito complexo para ilustrar", diz Ferrer, que passou um ano pesquisando a vida do poeta chileno, lendo sua obra e organizando um arquivo de imagens que mais tarde utilizaria na confecção do livro. "Numa primeira leitura surgiram vários caminhos de atuação, sendo o mais óbvio e fácil tentar uma resposta a essas perguntas." Foi o que fizeram algumas crianças do Chile, onde circulou uma edição com respostas tão poéticas como as desconcertantes perguntas de Neruda, que preparava o livro quando a morte o surpreendeu. A pergunta "Se acabar o amarelo, com o que vamos fazer o pão?", foi assim respondia: "Com o azul e a clara do ovo."   Nem todas, porém, comportam uma resposta tão lírica às questões formuladas pelo poeta que, como se sabe, entrou para o Partido Comunista em 1945, foi eleito senador pelo Chile e permaneceu fiel ao PC mesmo após as denúncias dos crimes praticados por Stalin. Sua morte, de leucemia, em 23 de setembro de 1973, é provável, foi acelerada pelo golpe de Pinochet que derrubou Allende 12 dias antes. Neruda, ainda atônito com a denúncia de Watergate naquele mesmo ano, envolvendo o então presidente norte-americano Richard Nixon, pergunta em seu Livro das Perguntas: "É ruim viver sem inferno: não podemos reconstruí-lo?/ E colocar o triste Nixon com a bunda sobre o braseiro?"/ Queimando-o a fogo lento com napalm norte-americano?"   O autor do posfácio Herrín Hidalgo não está certo de que esse seja, portanto, um livro para crianças. "Talvez seja um livro que o poeta escreveu para si mesmo, ou que escreveu para ninguém", observa Hidalgo. "Depois de haver dedicado tantos poemas a todo mundo, incluindo o átomo, o homem invisível, o caldinho de enguia e o peixe-serra, faz sentido oferecer um livro completo a ninguém", conclui. Como Neruda, o ilustrador Isidro Ferrer trabalha igualmente para ele mesmo, "o que é uma forma de acertar sempre", segundo Hidalgo, que define seu trabalho como "um teatrinho a meio caminho entre La Barraca de Lorca e o circo de Calder".   Ferrer assume o teatrinho. Originalmente um ator, o ilustrador espanhol diz que as ilustrações "não poderiam cair no erro de tentar responder às perguntas formuladas, porque, sendo a maioria perguntas retóricas, perguntas sem resposta, a ilustração, ao invés de responder, apenas daria soluções falsas". Sua formação teatral, diz Ferrer, foi "fundamental" para a realização do livro, não só pela bagagem cultural como pela busca de uma linguagem emocional, capaz de traduzir o universo de Neruda, cujos 23 livros estão sendo reeditados neste momento pela Editorial Sudamericana, cada um com prólogo de um ensaísta ou poeta conhecido, todos sob a supervisão de Hernán Loyola. A edição comemora 50 anos de uma escritura sem interrupções, iniciada em 1923, com Crepusculário, e concluída com a autobiografia Confesso Que Vivi, publicada pouco tempo depois da morte do poeta, cuja obra, segundo Juan José Saer, resulta de um ensaio permanente, da procura incessante para corrigir erros do passado.     Confira os Cantos II, III e IV do livro   Se já estou morto e não sei/ a quem devo perguntar as horas? De onde tira tantas folhas a primavera da França? Onde pode viver um cego a quem perseguem as abelhas? Se acabar o amarelo, com que vamos fazer o pão? Me diga, a rosa está nua ou tem apenas esse vestido? Por que as árvores escondem o esplendor de suas raízes? Quem escuta os remorsos do automóvel criminoso? Há alguma coisa mais triste no mundo que um trem imóvel na chuva? Quantas igrejas tem o céu? Por que o tubarão não ataca as impávidas sereias? A fumaça fala com as nuvens? É verdade que as esperanças/ devem regar-se com orvalho?    

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