Chega às livrarias <i>Mulheres de Cabul</i>, de Harriet Logan

Acostumada a captar muita tristeza, alguma felicidade erestos de esperança nos olhos de mulheres ao redor do mundo,sejam elas enfermeiras de pacientes terminais, prostitutas ouvítimas da aids, foi na Cabul sob o regime Taleban que afotógrafa inglesa Harriet Logan encontrou a personagem que maismarcaria sua vida. Zargoona chegou a lecionar física na EscolaPolitécnica da capital do Afeganistão, antes de os talebanstomarem conta do país em 1997. "Quando eles anunciaram tudo oque não poderíamos mais fazer, eu não consegui acreditar no queouvia. Depois, comecei a chorar", contou ela para Harriet,quando as duas se encontraram pela primeira vez. O relato é umde tantos estarrecedores colhidos pela fotógrafa e reproduzidosno livro Mulheres de Cabul (Geração Editorial, R$ 29,90,128págs.), que acaba de chegar às livrarias brasileiras. Harriet esteve duas vezes em Cabul, em 1997, logo após ainstalação do regime fundamentalista, e em 2001, enviada pelaLondon Sunday Times Magazine. Quando reencontrou Zargoona, elaparecia ainda mais pobre e fragilizada, a imagem da professorade física se esvaindo. "Eu nunca havia conhecido alguém tãodestruído emocionalmente quanto ela. E quando a reencontrei em2001, ela imediatamente começou a chorar, como fizera em 1997.Estava morrendo de câncer. Teve uma vida difícil, tão triste",explica Harriet que, nesta entrevista, conta como conseguiufurar a couraça das burcas para ouvir e fotografar as mulheresafegãs. De todas as histórias que você conta em Mulheres deCabul, qual mais a impressionou?A mais triste, com certeza é a de Zargoona. Quando a encontreipela primeira vez, ela vivia num quarto pequeno e gelado. Foimorar ali com a família, depois de perder a casa e o emprego deprofessora por causa do Taleban. Ela estava tentando sustentar ofilho sem ter absolutamente nada e estava desesperada. Eu melembro de sentar com ela e meu tradutor no chão daquele quartofrio, e no momento em que ela começou a falar, começou também achorar. Chorou o tempo todo. Você fica se sentindo impotentediante de uma situação como a dela, fica querendo de todo ojeito ajudar. E quando eu a reencontrei em 2001, elaimediatamente começou a chorar de novo. Estava morrendo decâncer. Que vida terrível, muito triste. Como conseguiu contactar essas mulheres?Eu ouvi falar delas por meio da Parsa (Psysiotherapy andRehabilitation Support for Afghanistan), um grupo de mulheresque presta ajuda à população dali e que me ajudou a fazer meutrabalho em Cabul. O risco que as entrevistadas correram ao sedeixarem fotografar foi imenso, porque o Taleban classificou afotografia como uma forma de idolatria, e a proibiu. Mas elasestavam dispostas a assumir o risco, por acreditar que o mundoprecisava saber o que estava acontecendo com elas. Vítimas do HIV, prostitutas, enfermeiras, mulheres deCabul. Posso dizer que você é uma especialista em mulheres? Acho que fiz tantos trabalhos relacionados a mulheres justamenteporque não me vejo, de forma alguma, como uma feminista. Semprefui muito destemida, nunca me preocupei com situações de risco,porque realmente acredito que posso fazer diferença com minhasfotos, fazer as pessoas olharem os problemas sob o ponto devista do outro. Algumas vezes, eu acho que isso é verdade, e queeu mudei certas coisas e que ao menos por alguns momentos fizalguém parar e pensar depois de olhar uma fotografia. Acho que éisso que meu trabalho significa. Tenho muita sorte de trabalharpara a revista do Sunday Times, um lugar excelente para tornaresse trabalho visto. Seu livro termina com uma foto de uma bandeira americananas mãos de um morador de Cabul. Como avalia a presença dosEstados Unidos no Afeganistão?Fico muito preocupada com a presença dos americanos em Cabul.Temo que aconteça ali a mesma coisa que aconteceu na Somáliadepois da operação de restauração da paz, que tudo saia docontrole de novo. Não sei mesmo que resposta dar a você. Sei queé importante que não saiamos do Afeganistão, mas vejo com certocinismo as razões de nosso envolvimento na política local. Senão tivesse havido o 11 de Setembro, nós nunca nospreocuparíamos com o Afeganistão e o regime opressivo do Taleban não estaríamos interessados em tentar ajudar o povo dali. Eagora que olhamos para eles como terroristas, a situação nãomelhorou. Fico preocupada com a maneira como a nação islâmicaestá sendo demonizada pelo Ocidente, e o mundo ainda terá umalto preço a pagar pela ruptura entre Ocidente e Oriente.

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