Chega às livrarias conto que originou Brokeback Mountain

Eles foram criados em fazendas de gado pequenas e pobres em cantos opostos do Estado. Jack Twist em Lightning Flat, na fronteira de Montana, Ennis del Mar era dos arredores de Sage, próximo à fronteira de Utah, ambos garotos do interior sem o ensino médio completo e sem perspectivas, preparados para dar duro e passar necessidade, ambos de modos e fala rudes, acostumados à vida estóica - assim começa a tradução brasileira do conto O Segredo de Brokeback Mountain, realizada por Adalgisa Campos da Silva, que a editora Intrínseca envia hoje para as livrarias (72 págs., R$ 22,90).Foi um trabalho a toque de caixa: a fim de aproveitar o sucesso do filme nos cinemas e da expectativa em relação ao Oscar (concorre em oito categorias), a editora seguiu os mesmos passos de suas colegas estrangeiras e lançou apenas o conto da americana E. (Edna) Annie Proulx, separado dos demais que compõem a obra. O conjunto completo vai ser lançado só no segundo semestre.Uma jogada comercial, de fato, especialmente por ser a capa uma cena do filme. A se lamentar apenas a limitação momentânea de o leitor se aprofundar na obra de Annie Proulx, cuja outra história, Chegadas e Partidas, já inspirara outro longa, com Kevin Spacey. Tanto um livro como outro trazem a essência da obra de Annie, cujos personagens beiram à mediocridade banal.O Segredo de Brokeback Mountain, conto publicado em 1997, na revista New Yorker, conta a história do amor entre dois caubóis. Não trata apenas de amor e da solidão, mas principalmente da homofobia que vive encravada no coração da América cristã. E o grande mérito do filme dirigido por Ang Lee é ressaltar justamente esse rancor que, se não aparece explicitamente, é descoberto nas frases cifradas, nos olhares carregados de ódio, nas vozes com sotaque de desprezo.O roteiro adaptado de Larry McMurtry e Diana Ossana segue respeitosamente a narrativa de Annie. A trama começa em 1963, na porta do escritório do fazendeiro Joe Aguirre, em uma pequena cidade do Wyoming. Ele é dono de centenas de ovelhas e todos os anos precisa de alguém para pastorear o rebanho na montanha Brokeback durante os meses de inverno. O vaqueiro Ennis Del Mar e o aspirante a peão de rodeios Jack Twist aceitam a incumbência.É curioso como a passagem do tempo é tratada no livro e no filme. Se no texto de Annie Proulx a seqüência dos dias é marcada pela descrição dos pequenos detalhes que diferenciam a rotina modorrenta dos caubóis, no cinema o recurso é a tradicional fusão de imagens, alternando dia e noite, sol e chuva, calor e neve. O impacto da revelação do amor, no entanto, é o mesmo - sem rodeios, Jack e Ennis aproveitam a bebedeira e o frio cortante para fazerem sexo pela primeira vez. A narrativa de Annie, aliás, é mais crua, como se o envolvimento fosse um acontecimento natural da relação entre ambos."Só havia os dois na montanha pairando no ar eufórico e amargo, olhando de cima o dorso da águia e os faróis rastejantes dos veículos na planície, suspensos acima dos assuntos corriqueiros e longe dos mansos cachorros de fazenda que latiam quando escurecia. Eles se achavam invisíveis", descreve Annie, uma jornada pelos labirintos dos sentimentos humanos brutos, sem qualquer polimento ou moldura.

Agencia Estado,

24 de fevereiro de 2006 | 18h19

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