Chega aos palcos peça inspirada em ´Estação Carandiru´

Escrita por Dib Carneiro, editor do Caderno 2, ´Salmo 91´ estréia no Sesc Santana

Agencia Estado

06 de julho de 2007 | 16h17

O impacto começa com a voz rasgada de Elza Soares, cantando O Meu Guri - sua voz melodramática invade o palco ainda escuro que, à medida que clareia, revela um homem amarrado. Na verdade, trata-se de Dadá, cujo corpo está envolto por uma "teresa", como é conhecida a corda feita com farrapos de roupas e lençóis e utilizada pelos presos para fugir. "Que 111 que nada! Foi muito mais!", vocifera ele que, entre palavrões e praguejamentos, revela ter escapado da morte. Não de uma violência comum, mas do famoso massacre do Carandiru, onde 111 presos foram mortos pela PM, em 1992. E Dadá é o único sobrevivente de uma série de dez personagens que contam sua história em Salmo 91, peça escrita por Dib Carneiro Neto, jornalista, dramaturgo e editor do Caderno 2. Inspirada no best-seller Estação Carandiru, de Drauzio Varella, a montagem estréia na sexta-feira, para convidados, no Sesc Santana.São dez monólogos, histórias de figuras como o Nego-Preto, o homossexual Zizi, o enfermeiro Edelso, além do malandro Dadá, todos representando tradicionais sentimentos humanos, como raiva, medo, submissão. E, como ocorreu no filme Carandiru, dirigido por Hector Babenco, e na série de TV, Carandiru - Outras Histórias, exibida pela Globo, ambos também inspirados na obra de Varella, personagens foram misturados, capítulos mesclados e falas trocadas. "A opção pelos monólogos, porém, conferiu a essa adaptação um valor diferenciado", acredita Gabriel Villela, que dirige a montagem. "Acontece aqui a valorização da palavra."De fato, ao encarar o público quando estão em cena, os cinco atores que se revezam nos papéis (Pascoal da Conceição, Rodrigo Fregnan, Pedro Henrique Moutinho, Ando Camargo e Rodolfo Vaz, este último especialmente convidado do Grupo Galpão) exibem uma economia de gestos para reforçar cada frase. Assim, o público - que assume justamente a mesma função de Drauzio Varella, ou seja, a do ouvinte privilegiado - é tomado por histórias que acariciam e agridem, com idêntica intensidade. Isso sem interpretações exageradamente físicas. "Fiquei impressionado com o relato do Dadá (Pascoal da Conceição) apenas ouvindo sua voz", confessou Varella, que assistiu, admirado, a um ensaio, na semana passada.Personagens Tal procedimento segue a principal intenção do diretor Villela, aqui em seu trabalho mais radical - conhecido pelo estilo barroco, em que todos os detalhes da encenação (dos figurinos aos gestos dos atores) parecem cuidadosamente bordados, Villela transforma sua 20.ª direção teatral em seu trabalho mais austero. "Meu ponto de partida foi a filosofia da tragédia grega, ou seja, em cada um dos dez monólogos é exibido um sentimento tipicamente humano."Assim, Dadá, que abre a encenação, é o sobrevivente do massacre, aquele que sabe tudo, atormentado pela culpa e arrependimento. Já Nego-Preto vive obcecado pela idéia da fidelidade, uma vez que foi traído por um parceiro de assalto. O grandalhão Charuto afirma ostensivamente sua masculinidade enquanto Zizi Marli, no canto oposto, é o homossexual medroso e submisso. Bolacha representa a lei do presídio, aquela que não é escrita, mas respeitada. Véio Valdo é, aos 70 anos, o homem mais descrente das boas intenções da clausura, enquanto Zé da Casa Verde, ao contrário, esbanja vitalidade e faz planos para o futuro fora das grades. Veronique é o travesti desgostoso com a decadência física. E, por fim, Valente é a síntese dos presidiários que se apoiaram na religião como alívio para seus tormentos."Praticamente todos morreram, mas sobraram suas palavras", comenta Villela, que faz em cada monólogo uma homenagem às belas-artes. A primeira cena, por exemplo, com Dadá amarrado por uma "teresa", faz lembrar Prometeu Acorrentado, clássico grego de Ésquilo. Já os painéis pendurados em varais que cruzam o palco provocam a mesma comoção que Guernica, célebre quadro com que Picasso revelou sua indignação com a Guerra Civil Espanhola.TrioEspectador privilegiado, Varella aprovou, comovido. Nervoso antes do início da encenação (movia as pernas e as mãos com um discreto nervosismo), ele acompanhou atentamente a sucessão de monólogos, em um galpão no bairro da Aclimação, onde o grupo ensaiava. "A cada palavra ouvida, eu me lembrava com nitidez dos personagens que inspiraram meu livro", conta ele, assombrado com a forma como os atores diziam seu texto. "Eis o poder de evocação do texto. É algo tão forte que duvido que o público, acostumado a ir ao teatro e depois jantar, não vá se sentir incomodado."Para concentrar todo o poder na palavra, Gabriel Villela convidou a atriz Walderez de Barros para ajudar no trabalho vocal dos atores. Especializada na oralidade do teatro trágico grego, ela apontou os caminhos para que cada expressão provocasse o efeito esperado.O trabalho também agradou a Dib Carneiro Neto, cuja adaptação é seu segundo texto encenado (o primeiro foi Adivinhe Quem Vem para Rezar, com Paulo Autran e Claudio Fontana). "Li o livro quando publicado, em 1999, e fiquei tão impressionado com sua força que percebi um grande potencial teatral.

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