Thomas Langdon/Divulgação
Thomas Langdon/Divulgação

Chega ao País antologia de Alex Epstein, escritor nascido na antiga Leningrado

Minicontos afastam-se dos temas clássicos e das narrativas nacionais e lança novos ares sobre a escrita israelense

Luiz S. Krausz, Especial para O Estado de S. Paulo

23 de maio de 2014 | 21h00

O crítico literário Yigal Schwartz afirmou certa vez que, "se Proust tivesse nascido em Israel, teria passado despercebido pela crítica". Schwartz referia-se ao fato de que, desde que começou a surgir uma literatura moderna em língua hebraica, na Europa do início século 19, criou-se, entre os críticos, o consenso de que autores que fizessem uso da língua da Torá, até então reservada aos estudos sagrados, deveriam abordar as grandes questões do povo judeu. Entre os autores israelenses tal consenso continuava a valer, até recentemente.

Os escritores que obtêm reconhecimento da crítica e prestígio para serem divulgados no exterior são os que tomam para si a missão de abordar e discutir os espinhosos temas políticos do país, de sua história ou de seu destino. Praticantes de literatura intimista encontram, de modo geral, pouco reconhecimento. É como se o escritor israelense tivesse, como os velhos profetas bíblicos, o dever de observar e criticar o comportamento da nação, e de traçar uma épica do povo judeu, tratando de assuntos tão graves quanto as guerras, o genocídio, o conflito com os palestinos - os traumas, sonhos e decepções coletivas.

A gradativa "normalização" da sociedade israelense em décadas recentes, que em determinados aspectos se aproxima, cada vez mais, das modernas sociedades ocidentais, abriu espaço para novas vozes literárias, que se recusam a assumir o papel de observadores da nação para percorrerem caminhos próprios, por meio de formas que privilegiam o lirismo, a subjetividade e, sobretudo, a total independência em relação aos discursos nacionais. Uma nova geração de autores propõe obras descomprometidas, em que a literatura se torna, enfim, um fim em si mesma.

Dentre estes está Alex Epstein, escritor nascido na antiga Leningrado em 1971 e emigrado para Israel aos oito anos de idade, de quem a antologia de minicontos Para a Próxima Mágica Vou Precisar de Asas acaba de chegar ao leitor de língua portuguesa, por meio da tradução habilidosa e sensível de Paulo Geiger. Assim como Borges que, por viver num dos subúrbios do mundo, observava com distância e com equidistância as "grandes culturas", Epstein também mistura repertórios díspares em suas narrativas em doses homeopáticas: nelas estão zen-budismo e o caráter prosaico da vida hedonista e ocidentalizada de Tel-Aviv; o olhar agudo que só um outsider consegue lançar sobre a realidade em que vive; lembranças de episódios canhestros vividos em viagens a países distantes; os paradoxos da velhice; as armadilhas da memória e do esquecimento.

Mais do que uma referência implícita, às vezes também por meio dos temas e do estilo escolhidos por Epstein, Borges, com suas paixões heterodoxas e com seu cosmopolitismo, aparece, explicitamente, no miniconto Homofotograficus, associado à sua inseparável edição de 1902 da Encyclopaedia Britannica, obra que representa melhor do que qualquer outra os apetites onívoros compartilhados pelo argentino e pelo israelense, que têm em comum a desconfiança em relação a qualquer tipo de consenso. Verdades que parecem mentiras e mentiras que parecem verdade constituem o jogo literário de Epstein, como uma paródia de provérbios que, ainda assim, contém uma inefável e leve sabedoria.

Como se fossem verbetes de um hipotético livro dos livros, cada um destes minicontos filosóficos propõe-se a abrir uma porta e a por em xeque um ou outro dos paradigmas herdados ou incorporados e automaticamente aceitos. São parábolas e representações da imperfeição das capacidades humanas - dentre as quais, a imperfeição da capacidade de narrar. A recusa à narrativa e a ênfase sobre o lirismo do instante único orientam esta escrita poética, delicada e sempre contida, que é como um sopro de ar fresco sobre um ambiente literário saturado de discussões, justificativas, acusações.

Os minicontos estão para um romance assim como uma exposição de fotografias está para um filme: em vez de entregarem uma história ao leitor, impõem-lhe a tarefa de decifrar, investigar, criar por si mesmo as associações necessárias e encontrar um nexo entre elas. Como escreve Epstein, "o homem que fotografa tenta esquecer por um momento que o mundo continua a se aproximar do seu fim". Capturar o tempo parece ser também a difícil missão que toma para si o autor destes intrigantes e potentes glóbulos literários.

PARA A PRÓXIMA MÁGICA VOU PRECISAR DE ASAS

Autor: Alex Epstein

Tradutor: Paulo Geiger

Editora: Nau Editora (128 págs., R$36)L

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