Chega ao Brasil Peter Brook, grande nome do teatro

Reconhecido internacionalmente como um dos mais importantes encenadores da história do teatro, o inglês Peter Brook, de 79 anos, já criou nada menos do que 70 espetáculos teatrais, entre eles montagens memoráveis, como sua versão circense de Sonho de Uma Noite de Verão, de Shakespeare, ou a adaptação do épico hindu Mahabharata - e ainda dirigiu dez óperas, assinou 12 publicações, entre livros e coletânea de artigos, e fez dez filmes. No lançamento de um deles, Encontro Com Homens Notáveis, fez sua primeira viagem ao Brasil, em 1980. Agora ele volta ao País, a convite do Festival Internacional de Teatro de Belo Horizonte (FIT-BH). Sua mais recente montagem, Tierno Bokar, é um dos nove espetáculos internacionais da 7.ª edição do festival, que começa no dia 18 e termina no dia 30. Os ingressos para as quatro apresentações, entre os dias 27 e 30, se esgotaram no primeiro dia de vendas, e uma sessão extra já foi programada. Numa proveitosa extensão da viagem, o espetáculo será apresentado também em São Paulo, no Sesc Vila Mariana, entre os dias 17 e 20. Tierno Bokar tem texto assinado pela dramaturga Marie-Hélène Estienne, parceira de muitos anos de Brook, e é uma adaptação do livro do escritor malinês Amadou Hampâté Ba (1901-1991) sobre a vida de Tierno Bokar (1875-1940), seu mestre espiritual. Durante uma entrevista coletiva, na manhã de ontem, Brook explicou que a África atrai o seu olhar desde que fundou o Centro Internacional de Pesquisa, em 1971, na França. "Porque esse grande continente africano não é absolutamente conhecido, exceto através de estereótipos. O Brasil não é apenas o país do samba. Do mesmo modo, a África não é apenas um lugar de negros, batuque e aids. Até hoje não há respeito pela elevada cultura africana. O negro é visto ora como o violento primitivo, ora como o alegre simplório." Em seguida, definiu seu teatro como a busca de uma forma teatral simples de derrubar barreiras do mundo moderno. "A melhor definição ainda é de Shakespeare: o teatro é o espelho da realidade." Mas revelou rigor na busca desse reflexo. "O verdadeiro espelho reflete a realidade identificável de uma forma estranha para nos mostrar aspectos que não conhecemos." Sobre Tierno Bokar, ele disse: "Antes de mais nada ele não é um filósofo, mas sim um homem simples, que sozinho desenvolveu uma grande compreensão do seu tempo, do mundo social e religioso. E a vida desse homem, por razões muito complexas que têm a ver com o colonialismo e também com disputas internas, se tornou trágica. Não há mensagem intelectual. O teatro no qual se pode apreender idéias não está em Tierno Bokar." Trajetória - Filho de imigrantes russos, Peter Brook nasceu em Londres, em 1925. Formou-se em artes por Oxford e, aos 17 anos, dirigiu seu primeiro espetáculo, Dr. Fausto, de Marlowe. Em 45, faz a primeira montagem polêmica, de Romeu e Julieta, e, em 1962, assumiu a direção do Royal Shakespeare Theatre com a montagem de Rei Lear. Nas décadas de 50 e 60, afirmou-se como um dos grandes encenadores do século 20, tendo dirigido atores como Laurence Olivier, Vivian Leigh e John Gielgud. Montagens como Marat/Sade e O Interrogatório, de Peter Weiss, Rei Lear e Titus Andronicus, de Shakespeare, entre outras, bastariam para selar com brilho a carreira do diretor. Mas uma guinada radical começou em 1968, quando o diretor Jean-Louis Barrault o convidou para dar um workshop em Paris com atores de vários países. "O encontro de diferentes culturas interessou-me profundamente", disse ao New York Times. Em 1970, Brook despediu-se do Royal Theatre com a famosa montagem circense de Sonho de Uma Noite de Verão e fundou em Paris o Centro Internacional de Pesquisa Teatral. Começou então uma pesquisa que levaria a Orghast, no qual tentava criar uma linguagem abstrata. Mas foi em 1974, já instalado no Théâtre du Bouffes du Nord, que criou as duas primeiras encenações de impacto, Timão de Atenas, de Shakespeare, e Os Iks, história sobre tribos de Uganda. Desde então, dramaturgos como Samuel Beckett e Alfred Jarry ocuparam em seu teatro o mesmo espaço dos africanos Can Themba (Le Costume), Birago Diop (O Osso) ou do poeta persa Farid Attar (A Conferência dos Pássaros). Jamais deixou de encenar Shakespeare, mas trouxe para o universo do bardo a simplicidade aprendida no Oriente: Hamlet tinha apenas tapetes como cenário. "Há muito perdi o interesse em ir ao teatro para admirar habilidades e técnicas de atores e diretores. O que conta é a qualidade da experiência."Tierno Bokar - Espetáculo com legenda. Em São Paulo, no Sesc Vila Mariana, Rua Pelotas, 141, 5080-3000. Terça (17/8) a sexta (20/8), às 21 horas. R$ 30. Segunda (16/8), às 16 horas, encontro com Peter Brook (é preciso inscrever-se por telefone antecipadamente). Em Belo Horizonte, no Teatro Francisco Nunes, Avenida Afonso Pena, s/nº, Parque Municipal, Centro, (31) 3224-4546. Dias 27, 28 e 29/8, às 21 horas. Dia 30/8, às 20 horas

Agencia Estado,

12 de agosto de 2004 | 10h10

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