Chega a vez do teatro para todos

Foi no Teatro Municipal que o jovem advogado Paulo Autran subiu ao palco pela primeira vez. Era a década de 40 e havia um sopro de renovação nas artes cênicas. Enquanto o teatro profissional, de olho na bilheteria, não ousava abandonar fórmulas já esgotadas, jovens amadores entravam em cena ávidos por inovação. Paulo Autran era um deles. Em 1947, atua em Esquina Perigosa pisando pela primeira vez no palco do Teatro Municipal, até então o único, em São Paulo, a acolher os grupos amadores. Pertencendo ao poder público, não tinha como objetivo o lucro e pôde apostar na renovação. Que realmente veio, exuberante, nas décadas de 50 e 60. Hoje, Paulo Autran volta ao Municipal para apresentar Quadrante na abertura da Mostra São Paulo de Teatro, que reunirá 39 companhias teatrais e seus espetáculos - sempre com entrada grátis - em diferentes palcos da metrópole, desde o grandioso Teatro Municipal, passando pelo Oficina de arquitetura sem igual, até sedes de companhias como o Galpão do Folias e o recém-inaugurado Teatro Fábrica São Paulo. Até o dia 7, a cidade será tomada por 66 apresentações, também em praças e ruas. A escolha de Paulo Autran não poderia ser mais apropriada. Ao longo da vida, interpretou protagonistas de tragédias gregas (Édipo Rei, Antígona), autores como Shakespeare (Otelo, Macbeth, Coriolano, Rei Lear), Arthur Miller (A Morte de um Caixeiro-Viajante), Bertolt Brecht (Galileu) e Vianinha (Em Família). Foi dirigido por nomes como Flávio Rangel, Antunes Filho, Gianni Ratto, Adolfo Celi e Ziembinski. Portanto, sua contribuição ao teatro brasileiro nos anos que se seguiram àquela estréia no Municipal é a prova maior da importância de se investir no talento emergente. Como na década de 40, há um novo, intenso e evidente movimento de renovação no teatro paulista. A qualidade da grande maioria dos espetáculos da mostra atesta isso. Existem hoje, atuantes na cidade, grupos ávidos por aprimoramento para melhor refletir sobre sua época. E, melhor, existe também um público curioso. Sobretudo os que ficaram por longo tempo alijados do consumo cultural na periferia da grande metrópole. Organizada pelo Departamento de Teatro da Secretaria Municipal de Cultura, a mostra permite o acesso dessa faixa de público à produção teatral e ainda uma visão de panorama da produção de companhias teatrais. "A mostra tem um caráter de celebração, de comemoração, é um evento energizante", diz o secretário municipal de Cultura Celso Frateschi. A grande novidade deste ano é a ampliação dos espaços: até o ano passado, as apresentações ficaram restritas ao Municipal. Fazem parte do evento espetáculos imperdíveis, que não mais estão em cartaz na cidade, como Hysteria, que será apresentado numa vila operária e envolve o público na vida de cinco mulheres internadas num hospício, no século 19, sob o diagnóstico de histeria; a transposição cênica de A Terra, primeira parte de Os Sertões, dirigida por José Celso Martinez Correa no Oficina; a leitura politizada do grupo Folias D´Arte para Otelo, de Shakespeare; a comédia Os Collegas, sobre os conflitos de poder na era Collor; a linguagem lúdica de Pequeno Sonho em Vermelho; o talento de Dan Stulbalch e o belo texto de Bosco Brasil em Novas Diretrizes em Tempos de Paz; e a mais recente peça de Mário Bortolotto, A Frente Fria Que a Chuva Traz, entre outros.Mais informações sobre a mostra podem ser obtidas pelo telefone: 3334-0001, ramal 1908

Agencia Estado,

26 de fevereiro de 2004 | 10h11

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