Chatô brilha na telinha enquanto o filme não vem

Era para ser apenas um personagem secundário, mas o talento e o carisma do ator Antônio Calloni transformaram o jornalista Assis Chateaubriand em um dos mais importantes da minissérie Um só Coração, que termina na quinta-feira. "Acho que a interpretação de Calloni foi uma das melhores da série", atesta Maria Adelaide Amaral, autora do texto ao lado de Alcides Nogueira. "Ele construiu um primoroso Chatô." O papel era um desafio, pois fisicamente o ator não se parece com o jornalista paraibano, que era baixo. "Não me preocupei em ser um retrato fiel, mas em demonstrar um traço fundamental de sua personalidade, que era um amor profundo pelo Brasil e, por causa disso, não ter limites em conseguir o que queria", comenta o ator. "Apesar das atitudes canalhas, Chatô não era o típico vilão da novela das 8, mas um homem determinado, com atitudes infantis." Gago, mulherengo, amante da arte e da aviação, senador, embaixador, empresário e comunicador, Assis Chateaubriand construiu um império jornalístico, os Diários Associados, além de deixar obras fundamentais, como a formação do Museu de Arte de São Paulo, o Masp, e seu acervo inestimável. Em seu trabalho de composição, Calloni reviu a minissérie Dossiê Chatô: O Rei do Brasil, que Walter Lima Jr. dirigiu para a televisão em 1996, e também o livro que é inspiração para qualquer trabalho sobre Chateaubriand: Chatô, o Rei do Brasil, do jornalista Fernando Morais. "A partir daí, utilizei algumas características dele", conta o ator, satisfeito com a aprovação das pessoas que conheceram pessoalmente Chateaubriand. "Segundo elas, quando viram meu trabalho, disseram ter visto a alma dele no personagem." Os elogios, de fato, vêm de todos os cantos. "Não assisti regularmente à minissérie, mas, sempre que via o trabalho do Calloni, eu me divertia muito", contou Morais. "Ele trabalhou sobre o fio da navalha sem se machucar. Como o Chateaubriand era controvertido, qualquer caracterização corre o risco de privilegiar apenas uma faceta, como o gângster, o mecenas, o proprietário de jornal." O detalhe também foi observado por Maria Adelaide Amaral, no período de construção dos personagens. "Ao longo da pesquisa da minissérie, conversei com algumas pessoas que conheceram Chateaubriand pessoalmente e quase todas aludiram a essa sedução mesclada com uma profunda amoralidade", conta ela. "Como bom ator que é, Calloni mergulhou no estudo do personagem e o fato de não se parecer fisicamente fica irrelevante diante da essência que ele conseguiu passar desde a primeira cena." Fernando Morais aprovou ainda a face subversiva do papel: a de crítico implacável da burguesia paulistana da época. "Chatô não era subserviente à elite; ao contrário, ele debochava dos ricos que tratavam mal os nordestinos", comenta o jornalista, que voltou a escrever as últimas cenas a serem filmadas do longa-metragem Chatô, o Rei do Brasil, do ator e diretor Guilherme Fontes. Iniciada em 1997, a filmagem foi interrompida dois anos depois por conta de estouro no orçamento. Pouco depois, a Secretaria do Audiovisual do MinC apontou irregularidades na prestação de contas e Fontes foi proibido de usar recursos das leis de incentivo à cultura. A situação foi acertada em 2001 e, desde então, Fontes pretende concluir o filme até o fim do ano. As cenas voltam a ser rodadas na segunda-feira, o que representa um problema para o ator Marco Ricca, que vive Assis Chateaubriand no filme. "Estou sem compromisso com o personagem, pois já não sei mais o que havia planejado para ele", conta Ricca que, na época, teve de engordar 16 quilos, além de usar peruca e prótese. "Hoje, revendo as cenas já rodadas, tenho outra concepção do personagem." Ricca também se aprofundou na figura de Chatô, inclusive visitando o local onde ele nasceu para aprimorar o sotaque. Como estava comprometido com a filmagem de O Casamento de Romeu & Julieta, de Bruno Barreto, ele não acompanhou a minissérie, mas ouviu apenas comentários favoráveis ao trabalho de Calloni. "Ele é um ator genial e, quem sabe, poderá me dar alguma dica para retomar o papel."

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