Chão, o espaço em que o corpo habita e cria

Espaço é o tema de Deslugares, de Helena Bastos e Raul Rachou, que celebra os 20 anos da cia. Musicanoar

HELENA KATZ , ESPECIAL PARA O ESTADO, O Estado de S.Paulo

05 de junho de 2013 | 02h10

Foi em 2001, depois de Cães, que a parceria de Helena Bastos e Raul Rachou se estreitou. A companhia, que havia sido fundada com o nome de Musicanoar, veio chamando a atenção para a relação música/dança na cena contemporânea e, pouco a pouco, foi desenhando o seu perfil na pesquisa: o de dar corpo para conceitos, o de transformar questões teóricas em proposições artísticas. Deslugares, o espetáculo com o qual celebra seus 20 anos, a 11.ª produção, segue nessa direção e faz do espaço o seu assunto.

Ao fundo, um amontoado de bastões vermelhos de diferentes tamanhos começam a ser recolhidos pela dupla, que os vai assentando aqui e ali. O que poderia ser somente um desenho sobre o chão, vai revelando a sua violência de impor-se como um novo chão. Os dois intérpretes, a certa altura, deitam-se ao lado dos bastões, como se fossem apenas mais um. Com esse gesto, reconfiguram esse outro chão, que passa a respirar e a ter volume. Chão-corpo.

Mais adiante, é Rachou quem vira bastão. Continuando o jogo de pega-varetas iniciado quando Helena Bastos juntava os bastões e os soltava, Raul se torna aquela vareta que não pode ser mexida porque destruiria toda a arquitetura.

A referência visual ao Oskar Schlemmer da Dança das Varetas (1927) se faz pela imagem do conjunto de bastões em que Raul se transforma. Varetas-linhas que querem virar corpo, corpo que se mimetiza em uma vareta misturada entre as outras, chão que subiu para o corpo, buscando a vertical - uma impossibilidade que o faz ser devolvido para a horizontal, mas não para a estabilidade.

Deslugares é um campo de teste para a percepção do chão, esse espaço sobre o qual tão pouco se problematiza. Ele deixa de ser aquela folha em branco a ser povoada pela coreografia para tecer-se com tropeços, fazendo de Deslugares aquilo que André Lepecki chama de "política do chão" no seu texto Planos de Composição (2010). Trata-se de um chão que não é neutro porque produz uma dança que acontece com ele e não nele. Deixa de ser de decoração e se torna um chão de arquitetura.

Além de Deslugares, a comemoração inclui o lançamento de um livro-caderno com artigos de professores universitários e a mostra Rastros Deslugares, com fotos de Inês Correa, João Caldas e Gil Grossi e desenhos coreográficos de Helena Bastos.

Como sucede com outras estreias relevantes, também Deslugares, que nasceu de verba pública do 12.º Programa Municipal de Fomento à Dança, não tem perspectiva de continuidade imediata. Foi apresentado na Galeria Olido e na Funarte e, no momento, ainda não tem novas datas na sua agenda.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.