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Chão mineiro em Cuba

Era madrugada em Havana, e quem me dava a notícia, pela porta entreaberta, algo solenizado, era o Roberto D’Ávila:

Humberto Werneck, O Estado de S. Paulo

15 de dezembro de 2015 | 02h00

– O comandante nos convida para ir à Sierra Maestra!

O comandante, ainda longe de vestir seu agasalho Adidas de aposentado, era Fidel Castro, que o repórter, ao cabo de exemplar insistência, reforçada por Chico Buarque, tinha acabado de entrevistar.

– Legal – bocejei, e, com toda a rapidez de raciocínio de que sou capaz quando me cortam o sono às 3 da matina, indaguei: – Quando vamos?

– Agora! – informou o Roberto – e foi despertar os demais jornalistas brasileiros hospedados no Riviera.

Convite do comandante, por apetecível que fosse, era ordem, de modo que às 5 horas, estremunhados e de estômago vazio, estávamos subindo num turboélice Antonov ministerial rumo a Baiamo, nas entranhas de Cuba. Sem Fidel, é verdade, mas com ampla paparicação compensatória. Basta dizer que, na volta, tive direito a doses de rum Matusalém, aquele que será servido às massas no Milênio Socialista.

Roberto, viajante equipadíssimo (não lhe faltava sequer aquele travesseirinho inflável em forma de ferradura), ajustou sua máscara de dormir e, ao contrário do avião, saiu do ar. Os outros – Ricardo Gontijo, Paulo Rocha e Emir Sader – se ajeitaram no lado da cabine onde havia poltronas e, felizardos, também apagaram. Incapaz de reatar o sono, me ajeitei no lado oposto, equipado com poltronas e mesinhas.

Amanhecia quando descemos em Baiamo, e do pé da escada nos levaram para um café da manhã capitalista. Em seguida nos acondicionaram em dois Ladas, e a bordo deles atravessamos a manhã, em direção aos contrafortes da Sierra Maestra. Quando, resfolegando na subida, os automovinhos russos, rucíssimos, abriram o bico, já nos esperava um par de jipes militares.

Aqui e ali, Roberto pedia pausa para gravar imagens e falas com que imaginara quebrar a monotonia visual da entrevista. No momento em que, na encosta cada vez mais empinada, também os jipes se puseram a bufar, divisamos um platô, e nele, arreadas, umas tantas mulas estatais.

Foi montados nelas que percorremos, em meio à mata, o dorso da Sierra Maestra. Em vão sugeri ao Roberto que se deixasse filmar no lombo do muar que lhe coubera.

– Não pega bem, desconversou ele – e ficou sem registro o que talvez tenha sido, na Sierra Maestra ou alhures, a primeira, quem sabe única viagem de mula de alguém calçando sapatos de cromo alemão.

Para quem era garoto quando Fidel desembarcou na ilha, em 1956, e adolescente quando a revolução escorraçou a ditadura de Fulgencio Batista, no primeiro dia de 1959, foi emocionante visitar o ninho alcantilado da guerrilha cubana, paisagem que me sugeriu uma Serra do Mar brasileira ainda intocada.

Ao longo da peregrinação, nossa coluna equestre fez escala junto a santuários da revolução. Entre eles, ruínas preservadas de cabanas – numa das quais se exibia, picotada de balas e convertida em relíquia, uma idosa, obesa geladeira americana. Aqui dormiram o Che e o Camilo Cienfuegos, ia recitando nosso guia, empenhado em conferir realismo a sua narrativa. Mais um pouco e sentiríamos cheiro de pólvora.

Em contraponto, era impossível não pensar no que, àquela altura – dezembro de 1985, faz agora 30 anos –, fora feito de uma revolução que em seus primeiros tempos ateou tão generosas esperanças nos moços que fomos.

Pelo meio da tarde, nossas mulas nos levaram serra abaixo, e, já na planície, ao emergir da mata, fomos desaguar no que outrora terá sido uma fazenda particular, bem conservada em décadas de administração coletivista.

Como tanta coisa em Cuba, aquilo me lembrou um naco de Brasil – para mim, espantosamente familiar: fazendas do interior de Minas a que também não faltariam coqueiros, mangueiras, vacas cismarentas e a alvura da roupa quarando sobre a grama verde.

Uma escadinha de degraus de pedra, uma varanda fresca, um escuro corredor de tábuas largas ringindo sob os pés – e, lá dentro, sob o teto alto, subitamente me dei conta de que viajara tanto para chegar à casa da minha bisavó Chiquinha, em Sete Lagoas.

Dos fundos vinha o cheiro de feijão ficando pronto, de ensopado de galinha, vinha o chiado de bifes na frigideira – não faltava nada naquele inesperado chão mineiro ao pé da Sierra, nem mesmo, nas paredes, os quadros sagrados coloridos à mão, com a diferença, no caso irrelevante, de que em vez de Sagrado Coração de Jesus quem nos abençoava era outro barbudo, o comandante Ernesto Guevara de la Serna.

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