Chanel: um nome de guerra

'Ensinada a não gostar de judeus, ela teve infância dura: sobreviver era a prioridade', diz Hal Vaughan

Flavia Guerra, O Estado de S.Paulo

18 de setembro de 2011 | 00h00

Entrevista

Hal Vaughan

JORNALISTA E ESCRITOR

Ainda que a Maison Chanel negue as afirmações de Vaughan em Dormindo com o Inimigo, outras fontes já confirmaram, mesmo superficialmente, que Coco Chanel não só teria sido agente nazista, mas também antissemita e anticomunista. "Há provas de que seu número da Abwehr era F-7124 e o codinome era Westminster, em referência ao duque de Westminster, com quem teve um affair", diz.

Mais uma vez, para entender a personalidade e a história multifacetada da estilista, é preciso levar em conta sua formação. "Viu a mãe morrer de tuberculose, foi deixada pelo pai aos nove anos em um convento, onde lavava o chão com as mãos e aprendeu que os judeus mataram Jesus. Assim aprendeu a sobreviver. Reinventou a si mesma e criou a beleza como compensação. Rodeada de beleza, poderia esquecer o horror que enfrentou na infância."

Chanel tinha clientes e sócios judeus. Era mesmo antissemita?

Não necessariamente. Mas foi educada por freiras em um orfanato. Foi ensinada a achar que os judeus mataram Jesus. Era natural que fosse antissemita. Se você cresce com esta educação, não precisa de mais nada para não gostar de judeus. Mas também é fato que ela gostava dos Rothschild e até dos Wertheimer, afinal, apesar das divergências, eram seus parceiros e a ajudaram a criar o império e consolidar o Chanel nº 5.

Foi usada ou usou os nazistas? Não acha que ela sempre foi uma sobrevivente, que sua guerra começou muito antes.

Grande questão. Usou ou foi usada por Dincklage? Acho que foi uma guerreira. Desde a infância, foi oportunista. Veio de um mundo muito duro. Imagine como é ter de ser uma coquete para sobreviver? Ter de vender seu corpo por anos e anos? Ser amante de um homem rico (o industrial Étienne Balsan)? Sempre lutou. Guerra é guerra, não?

Sim. Mas nunca saberemos o quanto ela sabia de fato sobre os campos de concentração.

Não esqueça que ela viveu no Hotel Ritz por quatro anos. Garanto que, de 1940 em diante, ela sabia. E Chanel não poderia deixar de saber porque com certeza Dickinlage sabia. Todo parisiense sabia que havia gente sendo enviada para os campos de prisioneiros todo dia. E eles eram não só homens, mas mulheres e crianças. Alguns estavam horrorizados. Outros até achavam que era ótima ideia porque eram antissemitas também.

E porque lucraram com a desapropriação de posses judaicas.

Também. Era isso que Chanel queria, que sua empresa de perfumes, que estava nas mãos dos Wertheimer, voltasse para ela. E por isso ela contatou Kurt Blanke (oficial nazista responsável para "arianização" das propriedades judaicas): Estes judeus deixaram o país. Quero a propriedade de volta. Não deu certo porque Hermann Goring (braço direito de Hitler) negou o pedido.

No filme Coco Chanel e Igor Stravinski, ela pesquisa fórmula do célebre nº5, cuja produção foi financiada pelos judeus Wertheimer, para quem ela licenciou o nome para a criação da Parfums Chanel e com quem brigou por 20 anos para reaver os direitos sobre a marca

O autor

Vaughan fazia pesquisas para outro livro nos arquivos oficiais franceses quando encontrou por acaso documentos que provavam que Chanel foi agente secreta da inteligência nazista.

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