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Chanel quer criar novo polo de moda em Dubai

Grife francesa apresentou coleção criada especialmente por Karl Lagerfeld

Maria Rita Alonso, Especial para O Estado de S. Paulo / Dubai

18 de maio de 2014 | 03h00

A pequena ilha artificial de Jumeira Palm, em Dubai, com vista para os arranha-céus mais futuristas do mundo, serviu de palco para o desfile de Cruise Collection da Chanel, na última terça-feira. Barcos antigos, usados originalmente para carregar especiarias, foram alugados para transportar os mais de 1.300 convidados. Não havia um dress code definido, lógico. As árabes usavam niqabs pretos, os xeiques, túnicas brancas. Enquanto as celebridades e clientes especiais, vindos de longe especialmente para o show, aproveitavam a oportunidade para exibir as últimas compras com o logo da marca. “Além de ser um centro importante para o nosso negócio, Dubai inspira viagens e evoca o espírito do novo resort”, diz Bruno Pavlovsky, presidente da divisão de moda da marca francesa. Ele conta que o estilista Karl Lagerfeld anda fascinado por Dubai, a megalópole do século 21. “Ela representa uma encruzilhada entre as civilizações ocidental e oriental.”

Na passarela, o choque cultural fez da coleção uma sucessão de boas surpresas. Enquanto a grande maioria dos estilistas não se cansa de olhar para trás, e recriar modismos dos anos 60,70,80, Lagerfeld decidiu olhar para frente. “É um novo mundo. E a moda é sobre o novo” , disse ele aos jornalistas depois do desfile. “A construção mais alta do mundo ficava em Paris, era a Torre Eiffel. Em seguida, Nova York, e agora está aqui, no extremo Oriente. Por isso seguimos o movimento.” 

Arabescos, sapatos como os de Aladim e peças de lamê dourado disputavam a atenção com os tweeds, pied-de-poule e as pérolas (em colares e bordados rebuscados), os famosos clássicos da Chanel. A tradição e a modernidade apareceram juntas, totalmente misturadas, de uma forma inesperada e harmônica. Os cabelos vieram rebeldes, armados, alguns penteados lembravam Brigitte Bardot em Búzios. Vestidos tinham estampas florais exóticas. A mensagem estava clara: a Chanel tem tudo para agradar a todos – que puderem pagar, é claro.

Aos 80 anos, Lagerfeld olha para a moda em perspectiva, decifra os novos códigos de comportamentos e aproveita os movimentos da economia global para imaginar um novo jeito de vestir. Do guarda-roupa dos homens árabes, empresta as túnicas (ou dishdashas) sobre calças ajustadas. E confecciona o modelo com estampas quadriculadas cheias de efeitos tridimensionais. As famosas jaquetas da grife francesa ganharam modelagens curtinhas e acabaram virando um bolero. Apareceram ainda como casacas assimétricas, mais compridas na parte de trás. A cantora francesa Vanessa Paradis, uma das convidadas vips, que está prestes a fazer uma turnê, ficou encantada com os sapatos no estilo Aladim e as calças conhecidas como harem pants. “Roupa dourada cai bem no palco”, disse ela. Referências ao oriente médio, como a bolsinha de couro em formato de galão de petróleo, os jerricanes, fizeram sucesso imediato nas redes sociais.

“A Chanel é top-down. Não criamos roupas com cara de brasileiras para as brasileiras, nem acessórios sob medida para agradar as chinesas ou as árabes”, diz o presidente da marca, Bruno Pavlovsky. “O que fazemos é dar todo o suporte possível a Karl, para que ele produza o universo mágico e aspiracional que imaginou para a coleção e assim atrair nosso público.”

Por todo o suporte, nesse caso, leia-se levar quase dois meses para construir as instalações que acomodaram a passarela. Ao final, o lugar parecia um museu de arte moderna, com a fachada inteira revestida por treliças, que reproduziam o logo da marca, inspiradas nas Mashrabiya. Lá dentro, tapetes, almofadas e sofás baixinhos espalhavam-se por todos os lados. Havia palmeiras, cactos e tendas beduínas montadas no caminho de areia, iluminado por velas. Era tudo tão diferente que a atriz indiana Frieda Pinto sacou o celular e passou tirando fotos. Além disso, mais de mil pessoas foram envolvidas na organização da festa, dando suporte aos convidados e atuando no backstage do desfile.

Acessórios. O evento foi feito com o apoio logístico e administrativo do governo de Mohammed bin Rashid Al Maktoum, o monarca constitucional de Dubai e vice-presidente dos Emirados Árabes. Em contrapartida, Chanel deve ajudar a cidade no projeto de se tornar um polo de moda. “Aos poucos, tem surgido uma cultura de moda local”, diz Shashi Menon, publisher do site Style.com/Arabia, no ar há um ano e meio. “O desfile, por exemplo, foi o assunto das últimas semanas nas rodas de quem acompanha a moda por aqui.”

Desde da crise econômica de 2008, as grifes internacionais, de uma forma geral, passaram a investir mais nos países emergentes. Em 2009, a Chanel inaugurou sua boutique no shopping Dubai Mall. Em seguida, abriu mais dois endereços no Mall of the Emirates, um deles voltado apenas para sapatos (aliás, ali existe um andar inteiro dedicado só aos sapatos).

Definitivamente, acessórios são importantes em um país em que muitas mulheres da classe alta costumam usar burca. Mas, além do consumo de turistas e shopaholics, que aproveitam as taxas razoáveis de importação (entre 5 e 10%), Dubai conta com as árabes, que costumam se vestir para elas mesmas. “Nas festas e eventos sociais, as mulheres ficam em uma sala separada dos homens. Assim que chegam, elas podem tirar a burca e impressionar as amigas com suas últimas compras”, conta a carioca Daniele Freitas Sabino, que mora com o marido e os filhos há 23 anos em Dubai. “As mulheres aqui gostam de roupas coloridas, de preferência estampadas. Preto, nem pensar, porque elas já usam todo o dia.” Olhando para essa última coleção da Chanel, tão sofisticada, colorida e vibrante, dá para perceber que Karl Lagerfeld sabe o que faz.

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