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Lúcia Guimarães
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Chamem os adolescentes

Os adolescentes fizeram mais do que chorar. Depois de um novo massacre escolar nos Estados Unidos, os alunos da escola da Flórida onde Nikolas Cruz matou dezessete estudantes e professores, não delegaram seu luto a políticos. Houve vigílias e reuniões de famílias, o ritual comum que seguiu os mais de duzentos massacres em escolas americanas desde Columbine, em 1999.

Lúcia Guimarães, O Estado de S.Paulo

19 de fevereiro de 2018 | 02h00

Mas a carnificina, capturada ao vivo por celulares, provocou uma reação diferente. Os jovens da escola de Parkland se inseriram na narrativa de sua tragédia. Foram para a rede social atacar os demagogos que repetem, como papagaios, “nossas preces e pensamentos estão com as famílias.” Desmentiram com rapidez os boatos, muitos deles espalhados por bots russos.

“Não quero condolências. Rezar não resolve isto. Mas controlar a posse de armas previne que aconteça de novo,” escreveu uma aluna. Controle da posse de arma de fogo ainda é um tabu político no país onde o lobby dos fabricantes, a NRA, não só compra deputados e senadores, como lhes confere notas de bom comportamento. O massacre da quarta-feira foi mais um cometido com o fuzil AR-15, a arma semi-automática mais popular dos Estados Unidos, nas mãos de oito milhões de americanos. Na Flórida, é mais fácil comprar um AR-15 do que uma pistola comum.

Mas o poder macabro da NRA sobre a vida e a morte neste país deve enfrentar a artilharia de uma geração. A vasta maioria da população entre 18 e 35 anos é a favor de restrições para a compra de armas. “Minha mensagem para os legisladores e o Congresso é, por favor, comecem a agir,” disse David Hogg, 17 anos, após sobreviver ao massacre da escola de Parkland, numa entrevista que se tornou viral. “Nós somos as crianças. Vocês são os adultos. Trabalhem juntos, além da política e façam algo.”

O massacre na escola primária de Sandy Hook, em Connecticut, em 2012, foi inicialmente visto como um ponto de inflexão no debate sobre as armas de fogo. Pela primeira vez, o principal alvo de um assassino foram crianças de 6 e 7 anos. O próprio Barack Obama, que considera o massacre de Sandy Hook o momento mais negro de sua presidência, se iludiu com a possibilidade de implementar mudança nas leis, subestimando o cinismo da oposição republicana. Mas as vozes de revolta na rotina dos massacres partiam principalmente de adultos.

Os adolescentes que viram seus colegas e professores abatidos em Parkland são a primeira geração criada com a rede social e recorreram a ela para enfrentar o presidente que passa o dia no Twitter. Usaram suas contas para dizer ao presidente que ficasse longe das vigílias pelos mortos. Combateram a propaganda da NRA com as armas digitais que conhecem e tomaram o microfone dos adultos. Num discurso assistido centenas de milhares de vezes no fim de semana, Emma González, na 12ª série da escola de Parkland, liderou a multidão que repetia em coro o alerta de sua geração aos homens e mulheres no poder. Desmentiu cada clichê demagógico dos políticos comprados e pediu aos colegas que se registrem como eleitores assim que completarem 18 anos, neste país onde o voto não é obrigatório.

Assistindo ao desfile de autoridades que montaram a intervenção militar no Rio de Janeiro, pensei nos adolescentes Emma e David. Os jovens cariocas sob fogo cruzado são vítimas da mesma geração que não larga o osso do poder e do foro privilegiado. É uma geração que continua a repetir promessas, ciente de que não vai cumpri-las. Só quando as Emmas e os Davids do Rio reagirem, ocupando maior espaço físico e digital, podemos, quem sabe, conquistar o que os jovens da Flórida esperam: aposentar esta gente.

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