Chamaram o Brown

Com shows e declarações politizadas, rap incendeia e dá sobrevida à festa da música da MTV

ROBERTO NASCIMENTO , O Estado de S.Paulo

22 de setembro de 2012 | 03h08

O segundo capítulo da tomada do VMB pelo hip-hop nacional chegou a proporções popularescas na noite desta quinta-feira. O que, no ano passado, parecia ser apenas parte de uma guinada da MTV em direção à autoridade crítica, cerceando a hegemonia de bandas como Restart e NX Zero e laureando nomes cult, mas nem tanto, do rap nacional, como Criolo e Emicida, foi carimbado com o insofismável selo de autenticidade popular dos Racionais MC's, shows do Planet Hemp, Emicida, do popular Cone Crew Diretoria, Karol Conká, e prêmios para Criolo (em premiação duvidosa, pois não lançou nenhum disco este ano), Projota, BNegão, Emicida e para a gangue de Mano Brown. A musa da periferia paraense Gaby Amarantos foi a grande premiada feminina da noite.

O amém do hip-hop nacional foi dado por Mano Brown pouco depois da meia-noite, quando os Racionais entraram no palco com uma motocicleta, trajando figurino Bloods ou Crips, à la gangues de Los Angeles. A música escolhida foi Cores e Valores, de 2011, faixa de clássico batidão sinistro, que mostrou de cara a gravidade e importância que a simples presença de Mano Brown em um evento comanda. Logo em seguida, tocaram Marighella, uma cortante homenagem ao guerrilheiro do proletariado, por qual haviam vencido o prêmio de videoclipe do ano no bloco anterior. Foi um indício de como o hip-hop nacional, por mais que ganhe seus nichos e novos diálogos, ainda tem como centro de gravidade os maiores defensores da lei do gueto. Tanto que o outro grande momento da premiação ficou por conta de Emicida, que começou seu show denunciando os "36 incêndios criminosos", que ocorreram, recentemente, em favelas de São Paulo, e o cerco feito pela Polícia Militar para impedir que os moradores voltassem aos lares queimados. Foi um ataque eficaz, ao som da providencial Dedo na Ferida, que levou o prêmio de Música do Ano. O beat é de rap metal, à la Rage Against the Machine, grupo que foi lembrado quando Emicida sacou uma bandeira do Movimento dos Sem-Terra.

Essa validação da nova onda , e o prático encontro dos gostos populares com os premiados pelos especialistas do júri, deu o tom desde o início da noite. Planet Hemp, padrinho do tipo de hip-hop com cheiro de ganja praticado hoje em dia pela moçada do Cone Crew Diretoria, deu o pontapé inicial, às 22 h. A cria contemporânea de Marcelo D2 viria mais tarde, com o hit Chama os Muleke, e causaria um alvoroço que começou com vaias, quando o grupo de rock Restart levou o prêmio de Hit do Ano, por Menina Estranha (o Cone Crew concorria com Chama os Muleke), e terminou com a depredação do camarim com um skate, pelo Cone Crew, de acordo com fontes internas da MTV.

No lado feminino do VMB, Gaby Amarantos disse que o País está finalmente deixando de ser careta, e Gal Costa quase mandou o telespectador para cama cedo.

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