Chácara para cultivar palavras

Coletânea prova a verve combativa de Hilda Hilst, que optou pela reclusão

WILSON ALVES-BEZERRA, ESPECIAL PARA O ESTADO, WILSON ALVES-BEZERRA É PROFESSOR DA UFSCAR, AUTOR DE DA CLÍNICA DO DESEJO A SUA ESCRITA (MERCADO DE LETRAS/FAPESP), O Estado de S.Paulo

20 de julho de 2013 | 02h20

FICO BESTA QUANDO ME ENTENDEM - ENTREVISTAS COM HILDA HILST

Org.: Cristiano Diniz

Editora: Globo/Selo Biblioteca Azul (236 págs., R$ 44,90)

A carreira da escritora paulista Hilda Hilst (1930-2004) teve trajetória singular: detentora de uma escrita densa e provocativa, foi logo reconhecida pela crítica e comparada a Clarice Lispector por mais de um crítico; ainda assim, sua obra circulou pouco, sempre em pequenas edições. Só se popularizou nos anos 90, quando passou a se dedicar a livros que emulavam a tradição pornográfica, inserindo nela temas metafísicos e a crítica ao mercado editorial. O desconcerto foi geral e volumes como O Caderno Rosa de Lori Lamby e Contos d'Escárnio / Textos Grotescos foram traduzidos ao francês, ao italiano e levados ao teatro, conduzindo Hilst a um sucesso até então inédito.

O recente lançamento de Fico Besta Quando me Entendem, coletânea de entrevistas que vão de 1952 a 2003, revisita tal trajetória e é mais um passo em seu processo de consagração - que teve outro momento decisivo na reedição de suas obras completas pela Editora Globo, ao longo da década passada.

O novo livro, em edição luxuosa e bem cuidada, traz uma dimensão ainda pouco explorada de Hilst: sua palavra pública. Cristiano Diniz - o organizador da obra e um dos responsáveis pelo acervo da escritora no Cedae/Unicamp - chega a afirmar no prefácio que as entrevistas poderiam constituir, por si só, mais um dos muitos gêneros que a escritora praticou. Hipótese interessante, se se considerar que tais intervenções orais abarcam temas caros à autora, sob uma dimensão particular. A escrita, a falta de dinheiro e a inépcia dos editores, ganham tintas biográficas: Massao Ohno, Jacob Ginsburg e Luis Schwarcz não escapam de seu crivo mordaz da autora.

Ao percorrer as mais de 230 páginas do volume e deparar-se com sua verve combativa, o leitor logo percebe que a reclusão da escritora em sua "torre de capim" - uma chácara nos arredores de Campinas - desde meados dos anos 60, foi a solução possível para quem decidiu tomar por atitude vital um gesto radical de recusa: "O que existe é que eu escrevo movida por uma compulsão ética, a meu ver a única importante para qualquer escritor: a de não pactuar. Para mim, não transigir com o que nos é imposto como mentira circundante é uma atitude visceral, da alma do coração, da mente do escritor. O escritor é o que diz 'Não'".

Ao lado dessa recusa - da sociedade, das concessões e da morte -, Hilst queixa-se de uma pretensa incomunicabilidade com o leitor. Ela chega a afirmar que sua obra é portadora de uma verdade, ao mesmo tempo em que se diz frustrada por sua mensagem não ser compreendida, por não ser lida corretamente. Tal queixa, sempre repetida, chega a servir-lhe de justificativa para dizer, nos anos 80, que abandonaria a escrita, pois o escritor vale "menos que um cavalo morto", e que iria dedicar-se às suas experiências de comunicação com os mortos, através de gravadores e rádios fora de sintonia. Tais práticas, que lhe roubariam tempo da escrita, foram influenciadas pelo sueco Jürgenson, que teria ouvido em fitas de gravações de pássaros as vozes de 50 amigos mortos. Diz Hilst: "Alguns ouvidos levam muito tempo para captar alguma coisa. Tem gente que precisa esperar dez, 12 horas, antes de conseguir distinguir alguma coisa". Curioso perceber como a autora postula uma escuta ideal, tanto para sua literatura quanto para as vozes dos mortos.

Os anos 90 marcaram uma guinada importante para Hilda Hilst, pois é quando suas entrevistas e sua obra são abordadas para além do binônimo comunicação/incomunicabilidade por ela proposto. Não apenas na já citada incursão pela literatura pornô, que lhe permite revisitar seus temas fortes - a morte, o corpo, o sexo, a escrita -, mas também porque é nessa década que ela será mais incisivamente lida a partir de outros paradigmas.

O poeta Bruno Zeni, em entrevista de 1998, lança-lhe uma provocação que a um só tempo desarma sua queixa e propõe outra leitura para sua obra: "Você não é uma escritora mais dada à sedução que à comunicação?". Hilst vacila, diz que não entende da crítica, para finalmente reafirmar seu desejo de transparência. Já noutros momentos cede, ao admitir o relativismo na sua recepção. Em entrevista a José Castello, em 1994, diz: "Meu texto é magro para uns, mas gordo para outros, essa é minha singularidade".

Ficar besta quando compreendida, afirmar-se genial, atacar os que a editaram e os que não a editaram, viver no mato e ansiar a comunicação plena. Tais gestos dão mostras da radicalidade de Hilst, cuja obra, passados quase dez anos de sua morte, ainda clama por leituras outras, diferentes daquelas que ela sempre demandou.

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