Ceticismo e Fanatismo na obra de Vargas Llosa

Até os anos 80, a ausência de crença deixa personagens indefesos; depois, são uma ameaça pelo excesso de fé

Carlos Granés, Especial para o Estado

17 de março de 2013 | 02h12

Em todos trabalhos de Mario Vargas Llosa surge a mesma pergunta: que papel têm as crenças e a moral na vida humana? Ela está ali quando El Jaguar de A Cidade e os Cachorros se aferra a uma simples e inquebrantável máxima que forja a sua identidade, que é não trair; e também quando o irlandês Roger Casement, em O Sonho do Celta, descobre o princípio que orientará seus atos e lutas futuras: o que é mau para o Congo não pode ser bom para a Irlanda.

Está em todos os seus romances e em todos os seus personagens por uma razão simples: nós, humanos de carne e osso, também dependemos de crenças, convicções, de princípios e da imaginação para atuar. Sem esses elementos - e esta é uma lição por excelência do escritor - descambamos para a apatia e a resignação, golpeados por uma realidade da qual jamais poderemos fugir, ou que sempre vai se sobrepor aos nossos desejos, às nossas aspirações e aos nossos melhores princípios morais.

Sem crenças ou princípios perdemos o rumo. Fica difícil - em algumas ocasiões impossível - saber do que gostamos, o que é importante para nós, e por que viver vale a pena. Vargas Llosa analisou todas as variações possíveis deste drama existencial: a falta e o excesso de crença, a impossibilidade de crer em nada e o fanatismo que se desenvolve quando se acredita em alguma coisa, o vazio espiritual produzido pelo autoritarismo e o uso da imaginação que só é possível em liberdade. A razão é simples: o combustível humano é a nossa possibilidade de crer, desejar, imaginar, de dar sentido ao caos mediante escolhas de caráter moral. Sem estes elementos nos convertemos em caricaturas de nós mesmos.

O romance que melhor expõe este drama existencial é Conversa no Catedral, publicado originalmente m 1969, e, sem dúvida, uma das melhores obras de Vargas Llosa. Nele aparece o desmoralizado Zavalita, um dos personagens mais interessantes da literatura latino-americana, pois por intermédio dos seus conflitos e dramas observamos as consequências devastadoras da ditadura e da corrupção para o espírito humano. É uma narrativa sobre como, durante a ditadura de oito anos do general Odría, entre 1948 e 1956, o Peru se desintegrou, naufragou devido à apatia e à resignação moral. Zavalita é um reflexo do Peru. Ele também desmoronou e a razão do seu colapso era a sua incapacidade de crer ou apostar em alguma coisa. Ao longo do romance ouvimos seu monólogo: acreditar em Deus? Impossível. Acreditar no comunismo? Muito menos. Acreditar no Apra, tampouco. O ceticismo se abastece num contexto corrupto em que o maior esforço humano de nada serve. É o que ocorre com Zavalita. Ele não acredita na possibilidade de melhorar e por isso é incapaz de assumir riscos ou opor-se àquilo de que não gosta. Sua única opção é renunciar aos privilégios oferecidos pela família que enriqueceu graças à cumplicidade com a ditadura. Zavalita prefere o fracasso e uma vida medíocre. Sabe que o triunfo numa sociedade corrupta implica assimilar os vícios e a regras de jogo nocivas que perpetuam o sistema.

Se Zavalita encarna o ceticismo e a falta de fé, os personagens que Vargas Llosa criou na década de 1980 são o outro lado da moeda. A fauna humana que aparece em A Guerra do Fim do Mundo, História de Mayta, A Festa do Bode, O Paraíso na Outra Esquina, ou O Sonho do Celta, mostra o extremo oposto de Zavalita.

Todos esses personagem eliminaram completamente a dúvida das suas vidas, todos creem fielmente numa causa e se apegam a tal ponto às suas convicções que acabam se tornando fanáticos. Nem o Conselheiro, nem Mayta, Trujillo, ou Flora Tristán e tampouco Roger Casement alimentam a mínima dúvida sobre aquilo em que acreditam e que orienta seus atos. Não vacilam, não se questionam. Seus princípios se petrificaram até se tornarem verdades irrefutáveis. Como resultado, são personalidades rígidas, vulcões em perpétua erupção, que vão provocando terremotos por onde passam. Se, em seus primeiros romances, Vargas Llosa analisou os efeitos nocivos da sociedade sobre o indivíduo, agora revela o caso contrário: o efeito cataclísmico que um indivíduo pode provocar quando decide viver de acordo com seus ideais e arrasta os outros consigo.

Zavalita e outros personagens criados por Vargas Llosa exibem esses dilemas humanos: a ausência de uma crença nos deixa indefesos diante daquilo que nos cerca e o excesso de fé nos converte numa ameaça potencial para os outros. Sem uma crença que convida à ação e impõe prioridades, a vida fica nivelada e a frustração se apodera de você. Mas quando ela é excessiva, ficamos cegos para a realidade. Os princípios morais são necessários para enfrentar as chagas sociais, mas quando petrificados transformam o idealista num fanático. São os dramas da nossa condição humana, que Vargas Llosa explorou melhor do que ninguém. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

CARLOS GRANÉS É ENSAÍSTA,  DOUTOR EM ANTROPOLOGIA SOCIAL, ESPECIALISTA NA OBRA DE LLOSA

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