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Cerveja, orgasmo e eleição

Hoje sabemos que roubar patologicamente do governo é nossa marca registrada

Roberto DaMatta, O Estado de S. Paulo

08 Agosto 2018 | 02h00

Só um desvairado pode pretender juntar cerveja, orgasmo e eleição. Mas se os poetas rimam amor com dor, por que não juntar a cervejinha que alivia com um processo eleitoral singular e repleto de surpresas como um orgasmo? 

Um processo revelador do nosso viés aristocrático-legal, que iguala no papel, mas produz diferenças imorais entre eleitos e eleitores?

Hoje sabemos que roubar patologicamente no (e do) governo é a nossa marca registrada. 

A disputa eleitoral livre é análoga ao orgasmo. Em ambos há competição aberta até o arremate a ser comemorado com cerveja.

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A conjunção fica ainda mais intensa quando se vive um processo eleitoral expressivo de uma república sem princípios como em 1890, dizia Joaquim Nabuco no Jornal do Comércio. Veja o paradoxo: Lula, o político mais popular do País e o que o presidiu por dois mandatos e fez de Dilma a nossa primeira presidente; Lula, o que pregava uma igualdade radical, não resistiu à matriz aristocrática do papel de presidente e fez o que Nabuco previu: um regime autossuficiente o qual reproduz a monarquia, fazendo “reis com o título de presidentes”. A manipulação do sistema agenciou uma era de corrupção e pobreza. O político mais amado se tornou o mais criminalizado e está preso. E o seus partidários reacionariamente rejeitam o cerne do republicanismo, asseverando que ele está acima da lei. A cadeia, porém, deflagra outro contratempo: ela neutraliza as polaridades tradicionais do palco político, pondo no trono um potente “centrão” – esse primo do “esquerdão” e do “direitão” – zona na qual a ideologia política é englobada pela jamais denunciada ética dos relacionamentos. Dos favores e compadrios que sem limites estão em toda a parte. 

Há nisso tudo uma ironia. O partido do povo enricou; o presidente operário criou uma corte; a promessa de governar com o povo foi desmascarada: governou-se realizando um leilão do Brasil. No poder, a esquerda subverteu o bom senso. Enterramos tanto Joaquim Nabuco quanto Raymundo Faoro e Sérgio Buarque de Holanda e, no lugar deles, surge em sua malandra pequenez o extremo formalismo que “soluciona” problemas sociais com leis. Sem querer, a elite nacional desmascarou a dissimulação e começou a ouvir verdades. Essas verdades que a “ideologia” (branca, bem paga e acadêmica) sempre escondeu.

Pode vir a ser um orgasmo nacional. 

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Se, para muitos, o universo se resume em direita e esquerda, a transformação da esquerda num dos “donos do poder” mostra o lado formal da divisão. Se ser de esquerda é estar aberto ao igualitarismo; é lutar pela igualdade de gêneros e etnias e pela igualdade econômica; ser contra a República dos banqueiros; demonizar o mercado e pensar que tudo se resolve com políticas públicas sem engajamento social concreto e penoso, minha avó é bicicleta...

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Se Tocqueville, estudioso da primeira experiência democrática do planeta, fosse lido, ver-se-ia que esquerda e direita são atravessadas por um eixo transversal, que está no centro da crise brasileira. Refiro-me à oposição entre universalismo e particularismo, base do igualitarismo meritocrático e da mobilidade democrática. 

O universalismo regula, sem banir, leis particulares (os privilégios). É justamente a dialética entre o universal e o particular que viabiliza o igualitarismo como um valor, obrigando o individualismo a entender-se com suas obrigações coletivas. 

O axioma da lei para todos aterroriza as elites brasileiras, justamente porque ele é o construtor do cidadão comum. Nos regimes populares, mas particularistas, uma nomenclatura subsistiu ao baronato e o populismo disfarça o jogo particularista dos compadrios, amizades e parentescos ladravazes. Onde ainda não se aquilatou o peso do eixo universalismo/particularismo para a construção da ordem democrática, a dissimulação é moeda corrente. É ela quem faculta os orgasmos da corrupção. 

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