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Cervantes

Obra de Santiago Muñoz Machado tenta descobrir como surgiu o livro que deslumbrou a Europa

Mario Vargas Llosa, O Estado de S.Paulo

05 de maio de 2022 | 03h00

Minha primeira tentativa de ler Dom Quixote de la Mancha foi um fracasso. Eu ainda estava na escola e me confundia com as frases longas e as palavras antigas, as quais precisava procurar a cada tanto no dicionário. Acabei desistindo.

Anos depois, quando estava na faculdade, um livrinho precioso de Azorín, La Ruta de Don Quijote, me encorajou a tentar novamente. Desta vez, sim, eu li do começo ao fim, desfrutando cada frase e cada página da história daquela dupla inusitada: o cavaleiro idealista determinado a transformar a realidade para que se assemelhe à de seus livros e seus sonhos; e o escudeiro pragmático que tenta manter seu mestre na dura realidade para que ele não se perca nas nuvens da fantasia.

Tudo é deslumbrante nesse livro que simboliza melhor do que qualquer outro a riqueza de nossa língua: a infinita variedade do espanhol para expressar a condição humana com todas as nuances, a fantasia que leva o ser humano a transformar a vida e fazê-la progredir. Em outras palavras, a forma como a literatura nos defende da frustração, do fracasso e da mediocridade. O mundo estreito e provinciano de La Mancha, pelo qual Dom Quixote e Sancho fazem sua peregrinação, pouco a pouco se torna, graças à coragem e à vontade do determinado cavaleiro andante, um universo de aventuras jocosas e insólitas, em que se entrelaçam audácia, absurdo e humor, tudo impregnado de humanidade, para nos mostrar como a imaginação pode transformar o tédio em aventura e converter o cotidiano em uma peripécia inusitada em que se alternam o maravilhoso, o milagroso, o patético – todos os matizes de que se faz a vida.

As resenhas muito elogiosas e justificadas dizem que o recente livro de Santiago Muñoz Machado é uma nova biografia de Cervantes. Não se trata disso. No livro são analisadas as biografias mais importantes de Cervantes, com seus erros e acertos. Por exemplo: Muñoz Machado é muito mais severo com Américo Castro – El Pensamiento de Cervantes – do que os especialistas que se atreveram a criticá-lo quando seu livro apareceu.

Se a covid não tivesse impedido, a primeira pergunta que eu teria feito ao diretor da Academia Espanhola seria esta: “Você planejou assim desde o início? Ler essas centenas, talvez milhares de livros, para ter uma ideia clara de como e onde nasceu Dom Quixote?”. Porque o mais extraordinário do Cervantes de Muñoz Machado é que parece ter sido planejado para uma vida inteira de pesquisas e leituras, um interminável trabalho de biblioteca, para saber em que sociedade e como surgiu aquele livro que, quase inesperadamente, deslumbrou a Europa de imediato. Não creio que haja uma obra semelhante nos últimos muitos anos, uma obra que possa ser equiparada a essa análise em que praticamente todas as manifestações da sociedade espanhola aparecem para nos explicar em que mundo e com que objetivos nasceu Dom Quixote.

Não estou exagerando nada. O leitor deste livro de mais de mil páginas e mais de 200 notas bibliográficas pode ver tudo: o aparato jurídico que reinava na Espanha enquanto Cervantes escrevia as aventuras de Dom Quixote, as festas populares, a propagação da feitiçaria, a vida cultural em todas as suas manifestações e, claro, os enredos e crimes da Inquisição, assim como a vida culta de pintores, comediantes, atores e artistas e a mentalidade militar à sombra da Coroa. Tudo está lá, detalhado e exposto com grande detalhe, narrado com aquela linguagem simples, clara, sem aspereza nem violência de Santiago Muñoz Machado, tão cauteloso que parece falar aos ouvidos das pessoas.

Entre as páginas do livro, acho que as dedicadas às bruxas são um grande acerto. Elas vão muito além de Las Brujas y Su Mundo – o livro de Caro Baroja – por sua graça e ferocidade e também por suas pesquisas rigorosas. Aí temos o inquisidor, convencido de que a bruxa que ele está julgando é louca, confrontado com aquela fera que lhe assegura que “fez amor com o diabo” e que o fará novamente, “depois de ser queimada”. Os inquisidores não têm escolha a não ser mandá-la para a fogueira, pois não conseguem convencê-la de que tudo o que ela diz é pura fantasia.

Mas é no campo cultural e literário que Muñoz Machado celebra seus melhores momentos. A verdade é que Cervantes passa pelo indizível para encontrar quem apoie seu livro: as pessoas escolhidas se negam e os poetas e artistas a quem se pede poemas ou textos para sustentar seu romance também resistem.

E aí vem a grande questão. Cervantes era um homem simples e miserável, aparentemente desde muito jovem. Não sabemos muito sobre sua infância. No começo da vida, um crime, verdadeiro ou falso, o tira da Espanha e leva para Itália, com o séquito de um arcebispo. Como todos os humildes, ele se torna soldado. E guerreia em Lepanto contra os turcos, quando não deveria, por causa da condição de que sofria. Ele sempre teve orgulho do arcabuz que arruinou sua mão. E, então, devido aos raptores berberiscos, ele passou cinco anos em Argel, onde deve ter sofrido o indescritível, sobretudo depois de suas tentativas de fuga. Alguns padres de trinitarianos o salvaram, pagando seu resgate. Na Espanha, tentou ir para a América, mas o Estado nem respondeu às suas cartas. Ou seja, com ele tudo acontecia de maneira tal que ele poderia muito bem se tornar ressentido e magoado. E, no entanto, a generosidade e a hombridade de Cervantes estão mais do que garantidas. Era um homem generoso e sem remorso, seriamente preocupado em elevar a vida de seus concidadãos.

Um homem bom e idealista, sem dúvida. Como se explica esse contraste? E aqui está a última pergunta para Santiago Muñoz Machado, que – expressamente o diz em seu livro – está convencido de que Dom Quixote foi escrito por Cervantes para “acabar com os romances de cavalaria”. Tem certeza disso? Porque a verdade é que Cervantes tinha lido tantos romances de cavalaria que ninguém podia negar que tivesse uma certa afeição por eles. Há inúmeros exemplos disso em Dom Quixote. Claro que ele conhecia o Amadís de Gaula e, além disso, há uma síntese bastante exata do Tirant lo Blanch, que, assegura Cervantes, “é o melhor livro do mundo”. Não há uma certa nostalgia em tudo isso? Existe, pelo menos, a ilusão de um mundo de ordem, no qual a violência humana encontrara uma maneira que a reduzira e aplacara, um mundo distante da realidade no qual tudo fora planejado e estabelecido segundo códigos rígidos. Talvez assim o ser humano pudesse ser humanizado e contido em seus muitos excessos, a começar pelos da guerra.

Quando li Dom Quixote pela primeira vez, já havia muito tempo que lia romances de cavalaria, nos quais o formalismo e os costumes tentavam frear os excessos da época, transformando aquele mundo terrível em uma forma de minueto. Será que, depois de tanto sofrer na vida, Cervantes também não houvesse buscado a mesma coisa? Sob o brilho das espadas e a ferocidade das batalhas, surgiu um mundo de paz e ordem, de condutas estritas, segundo um plano rígido destinado a acabar com a espontaneidade que derramava toneladas de sangue, fazia rolarem cabeças e mostrava o mundo como ele é: pútrido e irremediável. Será que Dom Quixote não tentou acabar com tudo isso ainda que retoricamente, com as travessuras de um louco que sonhava com a velha cavalaria?

É PRÊMIO NOBEL DE LITERATURA © DIREITOS DE PUBLICAÇÃO EM TODAS AS LÍNGUAS RESERVADAS PARA EDICIONES EL PAÍS S.L. 2021 

TRADUÇÃO DE RENATO PRELORENTZOU

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