Certidão de nascimento

Separadas por quase 100 anos, obras reveem momento fundamental da história nacional, a primeira missa

HELOISA ARUTH STURM / RIO, O Estado de S.Paulo

19 de abril de 2013 | 02h10

Quase um século separa as duas obras que retratam um dos momentos mais representativos da história nacional. A celebração da primeira missa em terra firme brasileira, inspiração para os painéis de Victor Meirelles (1832-1903) e Candido Portinari (1903-1962), é tema da exposição Quando o Brasil Amanhecia, que o Museu Nacional de Belas Artes inaugura amanhã em sua sede no centro do Rio. É a primeira vez que as obras são reunidas numa mesma exibição, trazendo elementos que promoverão um diálogo poético entre dois movimentos estéticos distintos.

A ideia de aproximar as duas pinturas num mesmo espaço expositivo partiu do então presidente do Instituto Brasileiro de Museus (Ibram), José do Nascimento Júnior, quando o instituto adquiriu a tela de Portinari, no fim do ano passado, por R$ 5 milhões e a transferiu para o MNBA, em janeiro. Uma equipe coordenada pelo curador Pedro Xexéo passou então a selecionar os estudos, documentos e fotos que também serão mostrados para ajudar a contextualizar as duas criações e estabelecer os traços distintivos entre elas.

Xexéo destaca os métodos de produção artística dos dois, que guardam importantes similaridades. Egressos da mesma escola superior de arte (Academia Imperial de Belas Artes, que passou a se chamar Escola Nacional de Belas Artes), tanto Meirelles quanto Portinari possuíam um método de trabalho baseado em extensas pesquisas e numa longa preparação para chegar à ideia definitiva da pintura.

Quando esteve em Paris, no auge da pintura romântica, Meirelles fez uma série de pesquisas sobre o momento histórico que pretendia retratar. Leu a carta de Pero Vaz de Caminha, fez contato com Jean-Ferdinand Denis, brasilianista conservador da Biblioteca Santa Genoveva em Paris, e recebeu uma série de informações sobre os costumes, vestuários e armarias da época. Meirelles também esteve antes na Bahia, analisando a topografia da região, e ainda contou com a ajuda do amigo Araújo Porto Alegre, diretor da Academia Imperial. A temática indianista, muito cara aos românticos brasileiros, não poderia faltar na composição.

"A pintura tenta ser cronista, no sentido de descrever a aparência dos índios, do vestuário, da armaria, a da própria topografia da região. É um quadro alegórico. É histórico, evidentemente, mas é uma alegoria ao descobrimento do Brasil. Uma obra que ficou no imaginário da maioria das pessoas", informa o curador. O artista fez 23 estudos preparatórios da primeira missa, em grafite e carvão. Todos pertencem ao museu, e sete deles integram a exposição.

O modernista, que criou seu painel em 1948, enquanto morava em Montevidéu com a esposa Maria Martinelli para fugir da perseguição aos comunistas, também realizou estudos preparatórios para a obra feita sob encomenda para decorar a sede do antigo Banco Boavista. A mostra fará com que um público maior tenha acesso a ela, já que até pouco tempo atrás somente alguns privilegiados que visitavam a sede do banco podiam ter contato direto com o painel.

Há 13 estudos preparatórios identificados pelo Projeto Portinari - todos pertencentes a colecionadores particulares. A maioria é de desenhos em grafite e três deles já são feitos com materiais de pintura - aquarela, guache e têmpera. Um dos estudos também estará exposto. Haverá ainda a exibição do fac-símile de uma carta de Portinari a Carmen Saavedra, mulher do barão de Saavedra, na qual o artista explica à amiga alguns detalhes da pintura encomendada pelo marido dela.

O curador conta que a inspiração para o título da exposição veio do livro homônimo de 1919, do historiador e escritor pernambucano Alberto Rangel (1871-1945), contemporâneo de Euclides da Cunha. Na obra, Rangel traz uma série de artigos sobre os episódios iniciais da constituição do território brasileiro, ainda no século 16.

Paralelamente à mostra, poderão ainda ser vistas quatro pinturas de Portinari recentemente doadas ao museu pelo Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade. As obras foram feitas sob encomenda em 1944, para ornamentar a Capela Mayrink, no Parque Nacional da Tijuca, e estavam sob a guarda do museu desde que haviam sido recuperadas após um furto ocorrido na década de 1990. Embora o museu atuasse como guardião dos quadros, não tinha permissão de expor as peças - a restrição foi retirada na segunda-feira, quando uma publicação no Diário Oficial da União oficializou a doação das peças.

As duas pinturas estarão em exposição até o dia 5 de junho. Depois, vão ser incorporadas à mostra Nas Pegadas do Senhor - Obras-Primas do Vaticano e dos Museus Italianos, também no Belas Artes, como parte integrante das atividades da Jornada Mundial da Juventude.

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