Certezas em ruínas

Hoje faz dez anos que as torres do World Trade Center em Nova York caíram depois de atingidas por aviões sequestrados por terroristas suicidas sob comando de Osama Bin Laden. Há muitos dias a mídia do mundo inteiro vem falando do assunto, tentando um balanço do decênio como se o ataque tivesse determinado todos os eventos que se seguiram. O fato de Osama ter sido preso e morto no Paquistão há cinco meses impediu que neste aniversário alguns rabugentos apontassem o dedo para o governo americano e dissessem "Como o mundo está mais seguro, se Osama continua por aí?" - o mesmo Osama que George W. Bush disse que seria caçado não importa em que caverna e, à maneira dos cartazes de um faroeste texano, "vivo ou morto". Ao mesmo tempo, diversos atentados marcaram o período - Madri, Londres, Bali e o que levou à morte do brasileiro Sergio Vieira de Mello na sede da ONU em Bagdá - e outros foram descobertos pouco antes de causarem novos traumas em solo americano, até mesmo na Times Square. Isso sem falar nos bilhões de dólares e nos milhares de vidas desperdiçados em guerras.

Daniel Piza, O Estado de S.Paulo

11 de setembro de 2011 | 00h00

Os falcões que dominavam a política externa durante o governo Bush II dizem que a ausência de outra agressão do mesmo porte a uma cidade americana mostra o acerto de suas reações ao terror. Mas a insegurança persiste, até porque seu discurso nunca foi nesse tom, e sim baseado em expressões como "Eixo do Mal". Eles também alegam que hoje o mundo árabe vive uma primavera libertadora, como se fosse efeito de sua política de invasões e sanções. Outros fatores, porém, parecem ter sido mais determinantes para o esgotamento das autocracias, como os mais de 40 anos de Kadafi no poder, o aumento da troca internacional de informações e - como não? - a retórica mais multilateral e pacifista de Barack Obama. Supor que apenas o combate ao terror serviu de "lição" para que o mundo islâmico se afastasse do fanatismo e do apoio a tiranias é, no mínimo, por conveniência, como notou o jornalista David Remnick. De qualquer modo, movimentos como o dos rebeldes da Líbia não foram previstos em 2001.

O que esses dez anos mais demonstram é justamente o erro das profecias, principalmente as mais apocalípticas, de ambos os lados. A própria eleição de Obama em 2004 - um presidente negro, jovem e democrata, livre de discursos polarizadores - não foi imaginada por ninguém na sequência dos atentados de 11/9, quando a ampla maioria da população deu apoio à vingança de Bush II. Lembrar o que foi dito e escrito naquele momento, por sinal, não é muito confortador. Se gente como Susan Sontag disse que os EUA colheram o que semearam e Stockhausen afirmou que aquele filme-catástrofe real era "a mais bela obra de arte jamais feita", outros falaram em "choque de civilizações" e em "cruzada" (Berlusconi) e houve discriminações contra imigrantes em vários locais. Pouquíssimos, como Obama, mantiveram o equilíbrio e viram diferença entre retaliar o Talebã e ocupar o Iraque. Uma espécie de retrocesso civilizatório era o mais aguardado para os anos seguintes; os atentados teriam dado início ao século 21 e este não parecia o mais promissor, com fundamentalistas do Ocidente e do Oriente entrando em rota de colisão crescente.

Quando se compara a primeira década do século com a anterior, no entanto, há outras mudanças que chamam atenção e raramente são notadas. Os protestos contra a tal globalização, por exemplo, perderam muita força, eles que eram tão comuns nos fóruns de Porto Alegre, Davos e outros endereços. O conceito de "globalização" como algo unilateral começou a cair por terra. Afinal, antes ela era atacada por trabalhadores do Primeiro Mundo indignados com a perda de empregos para o Terceiro Mundo, onde a mão de obra é bem mais barata, quando não semiescrava; e também pelos trabalhadores do Terceiro Mundo indignados com a expansão das corporações, que tirariam a soberania das nações e seriam nova modalidade de colonialismo. Tais certezas ruíram, e esta é uma boa notícia. Os países desenvolvidos estão em marcha lenta, vergados sob o peso das dívidas públicas, e o crescimento mundial depende de China, Índia e outros emergentes. Não foi o "neoliberalismo" que salvou o planeta com sua receita comum, mas a própria dinâmica de economias que deram mais espaço ao mercado de consumo sem necessariamente seguir a receita.

Na cultura, o 11 de setembro teve inúmeros subprodutos, desde referências em filmes de super-heróis (que voltaram com tudo, eles que quase sempre atuam em Nova York) até trabalhos de reportagem de alto nível, como os de Lawrence Wright, Jon Lee Anderson e Seymour Hersh, e diversos documentários em TV e cinema, passando por livros criativos como À Sombra das Torres Ausentes, de Art Spiegelman, e romances de autores como Don DeLillo, Ian McEwan e Joseph O"Neill. Num campo mais rasteiro, um dos temas mais comuns tem sido o da dita "decadência da América", já que o país mais rico do mundo tem enfrentado a desaceleração econômica, com aumento do desemprego, e movimentos reacionários como o Tea Party têm trazido outras pautas para o debate político. Mas, como escrevi recentemente, a cultura americana continua a ser consumida intensamente, graças também ao aumento dos meios de comunicação, e a internet ainda não fala chinês. Se existe algo que mudou o mundo nos últimos dez anos, é certamente essa tecnologia.

É um mundo pior ou melhor? A pergunta tem um aspecto infantil, uma necessidade de consolo sentimental. Osama atacou torres nas quais trabalhavam pessoas de mais de 90 países diferentes, e seu plano já existia quando Bill Clinton era presidente. Sua agenda tinha outra escala de tempo, ou seja, dizia respeito a séculos em que a maioria dos países islâmicos estagnou enquanto o Ocidente fez o Renascimento, o Iluminismo e a democracia moderna; mas também tinha objetivos mais imediatos, como incendiar as nações árabes contra Israel e o apoio dos EUA. Que ele não tenha conseguido e que muitos países do Norte da África e do Oriente Médio queiram mais liberdade política e um democrata sensato como Obama tenha chegado à Casa Branca, eis uma série de alívios. Mas a maioria das questões levantadas pelos escombros permanece não resolvida, como as fronteiras de Israel e a autonomia palestina, a rendição das classes políticas às gigantes multinacionais, a dependência de petróleo e outros combustíveis fósseis, o estilo de vida cada vez mais consumista, etc. Só que não precisávamos de Osama e seu terror para ver isso tudo. Dez anos depois, pelo menos a cegueira ideológica não saiu vitoriosa.

Cultura desbotada. Comentei em muitas ocasiões que nossos tempos vivem de reciclar obras do passado. Basta ver a onda de "remakes" no cinema e na TV, o uso que os DJs e rappers fazem de melodias antigas, os livros e prédios construídos em torno de citações e alusões, a volta dos anos 80 e 90 em shows e jogos, a quantidade de efemérides nos jornais. A moda da primeira década do século 21 foi uma sucessão de nostalgias: cada temporada trazia uma década do século anterior como referência, a tal ponto que será difícil que um dia alguém faça um retorno à "moda dos anos 00", porque nada a marcou a não ser essa onda retrô, que pôs em ampla circulação a palavra "vintage" (maneira mais chique de se referir a uma coisa antiga)... Há até um livro na praça sobre isso, Retromania, de Simon Reynolds, sobre como a cultura pop está "viciada em seu próprio passado". Em parte, sim, trata-se de uma geração descobrindo coisas com as quais não conviveu, como relógios de ponteiro, telefones de disco e outros itens analógicos, inspirada pelos bancos audiovisuais hoje disponíveis na internet. Mas não há como negar que tanta dependência de signos reciclados mostra falta de originalidade, uma grave anemia criativa.

Rodapé. Fiquei feliz com a notícia de que a editora Novo Século publicou de novo a tradução que fiz em 1993 (para a editora Imaginário, hoje extinta) de A Arte da Ficção, de Henry James, para a qual fiz novo prefácio. O ensaio do título é um marco na crítica literária de todos os tempos, provando que muitos dos maiores criadores modernos foram também grandes críticos (como Proust, Eliot e muitos outros). James também escreve sobre Maupassant e Zola, comenta "o futuro do romance" (tão contestado como gênero naquele momento quanto agora) e defende o valor da crítica, algo que no Brasil nunca é demais. "O senso crítico está tão longe de ser frequente que é absolutamente raro, e a posse do arsenal de qualidades que ele exige é uma das mais altas distinções."

Por que não me ufano. O crescimento do PIB brasileiro neste ano, segundo a maioria dos cálculos, mal vai passar de 3%. A inflação dos últimos 12 meses ficou acima de 7%. Como o Banco Central reduziu a taxa de juros, parece mais preocupado com o primeiro índice do que com o segundo. A presidente Dilma Rousseff deixou tudo às claras, então, ao fazer pronunciamento em TV nesta semana, alertando para a crise internacional que bruxuleia no horizonte, "complexa" e "pior que a crise de 2008". É melhor já botar a culpa nos brancos de olhos azuis, certo? Afinal, o Brasil tem reservas financeiras muito altas e um mercado interno crescente; só não vai melhor por causa da conjuntura mundial. A ineficiência dos gastos públicos, mesmo com recordes de arrecadação, e uma taxa de investimentos que não chega nem a 20% do PIB, tais os entraves à produtividade, não passam de intrigas da mídia...

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