Divulgação/AE
Divulgação/AE

Cerebral, Gypsy une diferentes tendências

Musical de Charles Möeller e Claudio Botelho ultrapassa o entretenimento

, O Estado de S.Paulo

12 de outubro de 2010 | 00h00

Podem-se tolerar as faltas no teatro de prosa quando há bons sentimentos ou algumas ideias, mas a alta exigência que o teatro musical faz aos intérpretes, aos músicos e à equipe de operação é um dos atributos distintivos do gênero.

Parte do prazer antecipado pela plateia consiste, aliás, na expectativa de proezas vocais, coreografias elaboradas, execução musical impecável e, se possível, mutações cenográficas quase tão prodigiosas quanto mágicas.

Em parte porque a tradição vincula-o ao entretenimento e em parte porque a linguagem musical se dirige em primeiro lugar às emoções, a elaboração artesanal e a habilidade do teatro musical impressionam essencialmente os sentidos.

Antes de Bertolt Brecht e Kurt Weil isso bastava para satisfazer todas as ambições da plateia. Em resumo, se um musical não tiver uma só ideia interessante, mas um desempenho perito e acrobático, a noite está salva.

E não é pouca coisa aspirar a uma execução competente. Harold Clurman, um dos mais sérios críticos do teatro norte-americano dos anos 40 e 50 do século passado, ousou afirmar que Debora Kerr e Audrey Hepburn eram boas atrizes, mas, quanto à competência no ofício, não chegavam aos pés de uma caloura do teatro musical.

Esse respeito e consequente admiração pelo trabalho implícito na aprendizagem e no aperfeiçoamento de uma linguagem, muito semelhante ao apreço que dedicamos aos objetos produzidos artesanalmente é, talvez, um dos motivos do interesse renovado do público brasileiro pelo teatro musical.

Tem sido tão inventivo e deslumbrante o entretenimento produzido com o auxílio da tecnologia que a maestria laboriosamente conquistada dos artistas desse gênero reafirma, pelo que tem de sal do suor humano, a vontade de fazer coisas perfeitas tendo o corpo como instrumento. No entanto Gypsy, peça com libreto de Arthur Laurents, música de Jule Styne e letras de Stephen Sondheim, corresponde a uma vertente mais cerebral desse tipo de entretenimento.

Sucesso no final dos anos 50, o musical tornou-se um clássico revivido nos palcos e eternizado pelo cinema também em função da pluralidade temática da narrativa e dos estilos que mobiliza ao revestir os diferentes significados da trama.

Na transposição de Charles Möeller e Claudio Botelho para o palco brasileiro, a excelência técnica da produção se equipara à de outras realizações dessa dupla de artistas-produtores, que há mais de uma década estimula a formação de intérpretes dotados de todas aptidões que o musical exige. Esse é, portanto, um desafio superado. Enfim, a gratificação proporcionada pela boa música, pela coreografia (neste caso mais graciosa do que energética) e pelas mutações cenográficas engenhosas está garantida por um investimento contínuo nas equipes de criação. Em Gypsy, são as diferentes tendências e formalizações da linguagem teatral que se impõem como desafio intelectual e estético para a realização do espetáculo.

O nó edipiano, eixo temático da moderna dramaturgia norte-americana, é simbolizado com vigor e matizes patéticos por uma mãe que se realiza através da prole. Totia Meireles representa a mãe Rose com energia suficiente para mover a narrativa e aliciar a plateia. Há uma camada verista nos diálogos que mantém com a filha Louise e com o fidelíssimo companheiro, e esses interlúdios são muito bem desenhados pelos principais interlocutores de Rose, personificados pelos atores Adriana Garambone e Eduardo Galvão.

É preciso esse alicerce cotidiano e familiar, quase banal, para contrastar a obsessão que atropela os vínculos amorosos de Rose com a família. Na evolução dramática da peça há outro tema, o da arte, com um desenho paralelo e invertido: o vaudeville, gênero familiar e comportado, perdendo terreno, prestes a ser derrotado pelo espetáculo burlesco, mais grosseiro e erotizado.

Na concepção dos criadores deste espetáculo, tudo vale a pena. As paupérrimas companhias mambembes lideradas por Rose e as empresas teatrais colecionando fracassos nunca perdem inteiramente a aparência brilhante e o dom de agradar.

A ótica moralista rege outro universo e, por essa razão, Gypsy Rose Lee não tirava a roupa em público: despia-se como uma artista.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.