Felipe Rau/Estadão
Felipe Rau/Estadão

Centro de Convivência de Campinas agoniza com a crise

Local foi desativado em 2011 por falta de recursos para manutenção e está sob constante risco de depredação

Adriana Menezes - ESPECIAL PARA O ESTADO, O Estado de S.Paulo

27 de novembro de 2016 | 04h00

CAMPINAS  - Sem música, dança, teatro, sem arte nenhuma, uma arrojada tese da arquitetura brasileira de equipamento cultural urbano, que saiu do papel e virou realidade de concreto há quatro décadas, permanece fechada desde 2011. O Centro de Convivência Cultural (CCC), complexo de quatro edifícios criado por Fábio de Moura Penteado, em Campinas, a 90 km de São Paulo, foi desativado em dezembro de 2011 por falta de recursos para manutenção e está sob constante risco de depredação. 

O icônico espaço, tombado pelas agências oficiais de preservação do patrimônio do País, selecionado nos anos 1970 como referência do setor pela curadoria da Quadrienal de Arquitetura de Praga, deu projeção, com suas linhas atrevidas, à imagem da cidade - um centro universitário, científico e acadêmico de envergadura internacional. O teatro interno de 500 lugares e todas as demais instalações do conjunto, permanecem interditados. Uma perícia encontrou no auditório e em seus anexos infiltrações e danos graves na rede elétrica que ameaçavam a segurança.

O problema atravessou diferentes gestões municipais e, apesar de haver hoje um laudo que descarta a possibilidade definitiva de desabamento, não se fala em data para início das obras de restauro, providência que deve exigir dois anos de trabalho. A fase atual é de tomada do orçamento e, depois, de licitação pública. A estimativa do investimento gira em torno de R$ 25 milhões, que não sairão dos cofres públicos, garante a atual administração. O modelo adotado passará necessariamente pela parceria com a iniciativa privada. 

A praça que cerca o complexo sobrevive com o uso por esportistas amadores e pela realização, aos sábados, da feira de artesanato, antiguidades e petiscos. A ONG Resgate Cambuí, o bairro onde está o CCC, cobra mais transparência da prefeitura nos procedimentos realizados; quer acesso aos laudos das vistorias e ao programa da reforma programada.

Perfil. Inaugurado há 40 anos, o conjunto arquitetônico do Centro de Convivência Cultural (CCC) de Campinas é formado por quatro edifícios em cruz que abrigam na parte superior as arquibancadas de um teatro de arena, com capacidade de 5 mil a 8 mil pessoas. O projeto inclui ainda um teatro interno, na parte subterrânea do Convivência, onde há também um anel interligando todos os prédios por meio de galerias para exposições, salas para escolas de arte, cinemateca, cafés.

Ao longo do tempo, os teatros interno e de arena receberam importantes espetáculos. Também funcionava ali a sede da Orquestra Sinfônica de Campinas, à época um dos três mais importantes conjuntos nacionais do gênero. 

O desenho inovador de Penteado começou a sair do papel em 1967, para logo ser interrompido. Faltou dinheiro. A retomada veio em 1974 e dois anos depois o CCC foi inaugurado. “É a nossa única obra que nunca parou. Não teve hiato desde que assumi a secretaria em janeiro de 2013”, diz o secretário de Cultura da cidade, Ney Carrasco. O CCC deu azar. Esquecido em meio a uma crise política que afastou dois prefeitos, cassados pela Câmara de Vereadores, saiu da lista de prioridades orçamentárias. Em 2012, quando foi eleito o atual prefeito Jonas Donizete, é que o secretário Carrasco - músico, professor da Unicamp - conheceu de perto a situação. Todavia, o procedimento anda devagar. A explicação para a demora está na complexidade do empreendimento e na emperrada burocracia da estrutura pública. 

Quando a sala interna foi interditada, suspeitou-se que toda a estrutura do CCC estava comprometida, incluindo o enorme teatro descoberto da área externa. Mas os relatórios técnicos de uma equipe de engenheiros limitaram as suspeitas ao território dos boatos. Em 2014, a administração municipal decidiu usar o Termo de Ajuste de Conduta (TAC), em que empresas com dívidas com a prefeitura arcam com custos de determinadas obras como ferramenta.

A Rossi Construtora, cooptada no TAC, realizou novos testes. Foi gasto R$ 1 milhão em recursos do TAC, incluindo o projeto técnico da revitalização. Em novembro de 2014, os testes foram concluídos. Em janeiro de 2015, começou a elaboração do pacote de engenharia, concluído em setembro de 2016. “Há uma pilha de pastas com plantas, desenhos e cálculos. Tudo muito minucioso”, diz Carrasco. “Não imaginava que seria tão lento. Pagamos o preço da falta de manutenção pelas administrações passadas”, conclui. 

A atual fase de orçamento não tem ainda conclusão prevista. Ela será seguida de abertura de licitação e depois início da obra. Carrasco afirma que, sendo otimista, é possível que no segundo semestre de 2017 seja iniciada a execução da reforma. Mas isso é incerto, porque a prefeitura não dispõe dos recursos e pretende recorrer ao uso do potencial construtivo, pelo qual a empresa que investe na obra recebe certificados que lhe dão o direito de construção em outras áreas numa espécie de transferência. Confiante, o secretário afirma que “o teatro interno terá o padrão da Sala São Paulo”, referência à Estação Júlio Prestes.

A galerista e especialista em restauro de bens móveis e de patrimônios Tereza Penteado, sobrinha do arquiteto Fábio Penteado, reivindica mais transparência nos procedimentos feitos pela prefeitura para laudos e projetos de reforma do CCC. “Nós temos todas as plantas. Se a prefeitura quisesse, poderia pegar conosco. Falei que queria acompanhar, mas nunca me chamaram e nunca me mostraram o TAC da Rossi”, afirma Tereza, que promete fiscalizar inclusive a manutenção do projeto original do seu tio, “porque é patrimônio tombado”.

Na opinião da restauradora, todos os papéis e reuniões relacionados a TACs deveriam estar no site da prefeitura. “Vai ter que ser um processo transparente, do material usado aos gastos.” Tereza lembra que seu tio também reclamava que não haviam utilizado o material indicado por ele na construção do CCC. “Não seguiram 100% do que ele projetou. E depois a obra ficou sem manutenção. Como é que se deixa um lugar daquele se deteriorar?”, protesta. 

Governo estadual tenta transferir para cidades a gestão desses espaços, mas prefeitos dizem que não dispõem de recursos

SOROCABA - A crise econômica que levou ao fechamento do Museu da TAM, em São Carlos, mantém fechados cinco importantes museus públicos do interior de São Paulo. Outros cinco, com acervos relevantes para a cultura regional, funcionam de forma precária por problemas nas instalações ou falta de funcionários. O governo estadual tenta transferir para os municípios a gestão e manutenção desses espaços, mas algumas prefeituras alegam falta de condições financeiras para assumir os encargos.

Em Guaratinguetá, o Ministério Público Federal (MPF) entrou com ação para obrigar o Estado a reabrir o Museu Conselheiro Rodrigues Alves, fechado há oito anos. O casarão de taipa de meados do século 19 teve o restauro concluído em 2010, mas não reabriu as portas. O acervo de 1.600 peças inclui documentos, objetos pessoais e mobiliário de Rodrigues Alves, governante de São Paulo por três vezes e duas vezes eleito presidente da República.

 

Escoras de madeira sustentam as paredes do casarão que abriga o Museu das Monções, em Porto Feliz. A construção em taipa do século 18 que hospedou D. Pedro 2º. foi interditada e corre o risco de desabar. O acervo sobre a saga dos bandeirantes paulistas foi retirado do imóvel há cinco anos e está encaixotado. O prédio pertence ao Estado, que alega falta de recursos para a restauração. O Ministério Público entrou com ação contra o Estado para obrigar a recuperação do patrimônio e obteve decisão favorável, mas o governo recorreu.

Goteiras. O Museu de Arte Darcy Penteado, em São Roque, foi fechado em 2011 depois que goteiras e fezes de pombos comprometeram parte do acervo - pinturas, livros e documentos - , instalado no prédio da antiga fábrica Brasital.

A reinstalação chegou a ser anunciada, mas não aconteceu. De acordo com o diretor de Cultura, Ronaldo Pio, no momento o município não tem condições financeiras para manter o acervo exposto em local adequado. “Recolhemos as obras numa reserva técnica.”

Encaixotado. A reabertura do Museu Francisco Blasi, de Botucatu, enfrenta também a burocracia. O acervo de 15 mil itens doado pelo industrial do café que dá nome ao museu não é mostrado há 15 anos. “O museu vagou conforme os interesses políticos de cada época e o acervo acabou encaixotado num espaço cultural”, diz o empresário do turismo Antonio Fernando Pereira. Segundo a prefeitura, as peças foram tratadas e o museu será municipalizado.

O Fórum das Artes, uma filial da Pinacoteca de São Paulo que deveria estar funcionando desde junho de 2015 em Botucatu, teve a abertura adiada para dezembro deste ano. O acervo está à espera da conclusão do restauro do prédio do antigo Fórum, construído na década de 1920 pelo arquiteto Ramos de Azevedo - o mesmo que projetou a Pinacoteca do Estado -, mas as obras atrasaram. A prefeitura informou que o atraso se deve a detalhes técnicos e artísticos do prédio, que é patrimônio histórico.

O Museu da Cidade de Campinas teve o acervo principal removido para evitar risco de perda. O prédio, do século 19, onde funcionou a indústria Lidgerwood, está deteriorado e com goteiras. O imóvel pertence à Companhia Paulista de Obras e Serviços (CPOS), empresa com participação do governo estadual, que não pretende renovar a concessão ao município. A empresa alega que, diante do atual cenário econômico, precisa usar o imóvel para obter receita. A prefeitura foi notificada, mas alegou não ter condições para locar ou comprar o imóvel.

Danos. O Museu do Café, na antiga casa sede da Fazenda Taquaral, em Campinas, também funciona de forma precária. O prédio foi danificado pelo tornado que atingiu a cidade em junho. Segundo a prefeitura, foi feito um reparo emergencial, mas são necessários recursos para uma reforma completa. Com 100 anos completados em abril, o Museu do Eucalipto, em Rio Claro, só abre para o público uma vez por mês. O motivo é a falta de funcionários.

Resposta. A Secretaria da Cultura do Estado informou que, além dos 18 museus que estão sob sua responsabilidade, mantém parceria com os municípios para a gestão de outros 45, criados a partir de 1950. Como a legislação proibiu o Estado de bancar despesa do município, a Secretaria vem fazendo municipalizações para que as prefeituras continuem a destinar recursos e pessoal para os museus. Conforme a pasta, 15 já foram municipalizados e os outros estão em andamento, como os de Botucatu e Guaratinguetá.

O Fórum das Artes (Pinacoteca de Botucatu), é um edifício que nunca teve uso cultural e está sendo restaurado por meio de convênio entre Estado e município. A obra recebeu investimento de R$ 17 milhões e está em fase final. O secretário de Cultura de Campinas, Ney Carrasco, disse que o município não tem recursos para a compra do imóvel do Museu da Cidade, que é histórico, mas já obteve promessa do governo estadual de cessão definitiva do prédio à prefeitura. A prefeitura de Sorocaba informou que o Museu Histórico será restaurado em convênio com a Caixa Econômica Federal. / JOSÉ MARIA TOMAZELA

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