Centro cardíaco da cidade

Livro busca jogar luzes sobre a importância arquitetônica e social do Centro Cultural São Paulo, que faz 30 anos

JOTABÊ MEDEIROS, O Estado de S.Paulo

19 de dezembro de 2012 | 02h09

Marco na paisagem paulistana, o edifício do Centro Cultural São Paulo, na Rua Vergueiro, acomoda-se com suavidade num declive do terreno e abre-se democraticamente para os transeuntes que passam por sua calçada, afirmando uma utopia arquitetônica socializante. Mas poucos serão aqueles que saberão dizer de bate-pronto quem foi o arquiteto que o projetou - mesmo no dia de sua inauguração, em 13 de maio de 1982, os arquitetos "não foram citados e assistiram camuflados na massa", segundo lembra o livro Centro Cultural São Paulo - Espaço e Vida, de Fernando Serapião.

Eurico Prado Lopes e seu sócio Luiz Telles, autores do projeto, tinham menos de 40 anos na época e eram "azarões" na empreitada. Tinham desenvolvido o projeto do Mercado de Pinheiros anteriormente. Eurico Prado Lopes, especialmente, era um promissor enfant terrible da arquitetura paulistana, um flâneur de classe média de orientação progressista, seguidor de Vilanova Artigas (Eurico morreria precocemente, aos 45 anos, em um acidente de automóvel na Via Dutra, em 1985).

Com o auxílio de Luiz Telles, Fernando Serapião faz uma pequena biografia comentada dos protagonistas e do projeto, "o primeiro equipamento multicultural" de São Paulo, e aborda seu desenvolvimento no volume a partir de uma perspectiva social, política e histórica da cidade. Ele considera que a solução do concreto no projeto é "uma resposta à crítica endereçada tanto às obras da escola paulista quanto às da escola carioca de Niemeyer e Lúcio Costa".

O autor conta que lembra precisamente da primeira vez que viu o Centro Cultural São Paulo. Passeava com o pai pela Avenida 23 de Maio e tinha 10 anos. "Ele foi inspirado naquele projeto de Paris", comentou o pai, referindo-se ao Centro Georges Pompidou. "O que poucos perceberam é que sua arquitetura libertária é uma resposta aos anos de chumbo. O espaço carrega essa contradição: se por um lado, a escala e a maneira como foi construído revelam uma era de imposição, por outro, o desenho franco como extensão da rua é um grito de liberdade."

O livro de Serapião é ricamente ilustrado com fotos e desenhos do terreno, da obra e dos personagens de sua construção, além de ensaios fotográficos de Cristiano Mascaro, Mauro Restiffe e Nelson Kon. Ele narra os percalços da construção, as improvisações, os problemas que persistiram por mais de uma década, e também as vocações naturais dos espaços de exposição e de apresentações.

"É um dos espaços mais democráticos da cidade, onde um morador de albergue pode jogar xadrez, o estudante navegar na internet e um pesquisador de música encontrar a partitura desejada. Tudo de graça", escreve Serapião. Em 30 anos, o CCSP já teve 13 diretores, de advogados a filósofos. Alguns o dirigiram por sete anos, outros por um mês.

Na entrada, a escultura Eva, de Brecheret, recebe os cerca de 800 mil visitantes que passam por ali a cada ano. O autor sustenta que sua biblioteca é a mais visitada do País. Para isso, conta com um orçamento anual de R$ 3 milhões, segundo o autor (só para efeito de comparação, a recém-criada SP Escola de Teatro, do governo do Estado, tem um orçamento de R$ 9 milhões por ano).

"Esse edifício constitui-se num magnífico exemplo de amparo da imprevisibilidade da vida. Aqui podemos fazer o que quisermos, desfiles de moda, parte da Bienal de São Paulo, o que quisermos imaginar", disse o arquiteto Paulo Mendes da Rocha, acrescentando que "a cidade é o centro cultural", e o centro cultural é "uma vaguidão específica".

Certamente, Mendes da Rocha sabe que nem tudo é tão redondo em se tratando de administração pública. O CCSP é objeto frequente de debates sobre a natureza da política cultural da metrópole. Em dias recentes, padece da uma falta de planejamento que, em dado momento, atrasou a obra de reforma e bagunçou toda sua programação, obrigando curadores a remanejar exposições; está na iminência de ter seu acervo desmembrado, levado para ocupar novos espaços da Prefeitura (logo poderá haver pedaços do CCSP por toda a cidade); e não possui uma política de aquisição. Também se diz que é obrigado, por ser uma espécie de "patinho feio" da administração pública, a "agasalhar" pedidos vindos de cima, o que não raro compromete seu orçamento e agenda.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.