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Centenário de nascimento de Claude Debussy (1862 – 1918)

Supl. Lit. O Estado de S. Paulo 27 Janeiro 1962

R. Schnorrenberg,

29 de janeiro de 2011 | 06h00

 

 

Claude Achille Debussy nasceu a 22 de agosto de 1862 em St. Germain-en-Laye. Nada o destinava á musica e ninguém em sua família – seus pais eram pequenos comerciantes – possua dotes artísticos. Destinado pelos pais á carreira maritima, foi numa visita a Cannes que conheceu o mar e teve suas primeiras aulas de piano com um certo Cerutti.

 

Pouco mais tarde passou a tomar aulas com uma professora italiana, Mme. Mauté de Fleurville, que tinha sido aluna de Chopin e era sogra de Paul Verlaine. Essa senhora fê-lo realizar tais progressos que pôde ingressar em 1873 no Consérvatoire, inicialmente na classe de solfejo (1) de Lavignac (2) e dois anos mais tarde na classe de piano de Marmontel (3). Lavignac muito o encorajou, até que Debussy obteve a primeira medalha de solfejo em 1876. As aulas com Marmontel foram já mais dificeis. O talento pianistico de Debussy era grande mas seu temperamento não se adaptava ás necessidades disciplinares do estudo puramente instrumental. Preferiria muito mais ler novas partituras a passar horas praticando escalas e arpejos, tanto assim que Marmontel, que não era insensível ás suas qualidades excepcionais, disse certa vez a outro aluno: “Esse diabo de Debussy não gosta nada de piano mas muito de musica”. Apesar dessas dificuldades Debussy conseguiu um “segundo premio” de piano em 1877.

 

Debussy seguiu depois o curso de harmonia de Emile Durand, homem severo e professor academico e reacionario, com quem manteve relações dificeis apesar de ter-lhe mais tarde dedicado um trio (1876-1879, inedito).

 

Em 1879, Debussy foi recomendado por Marmontel a Nadezhda von Meck que procurava um pianista para ler com ela novas musicas (4). Era ela a protetora de Tschaikovsky, possibilitando ao compositor uma vida sem dificuldades, desde que não travassem relações pessoais (5). Em sua companhia, Debussy visitou a Suiça, Italia e Russia. E’ então que ouve em Viena, pela primeira vez, “Tristão e Isolda”. Essa revelação ia marcá-lo por toda a vida. Na Russia, que visitou em 1881 e 1882, tomou conhecimento da musica russa, cuja influencia sobre sua carreira é muito discutida e sobre a qual voltarei em proximo artigo.

 

Também em 1880, Debussy obteve um "premier prix" em acompanhamento, na classe de Bazille. Ingressou ainda na classe de composição de Ernest Guiraud, preferindo-a á mais conhecida de Massenet (6). Tornou-se grande amigo de Guiraud que o auxiliou grandemente, impressionado pelos pontos de vista já originais do futuro compositor.

 

Na mesma epoca, tornou-se intimo da familia Vasnier, ele, arquiteto, amador de arte, ela, cantora. Datam de então as primeiras canções de Debussy, inclusive a famosa Mandoline. Encorajado por Vasnier, Debussy tentou obter o Prix de Rome, então essencial para uma carreira de compositor. Obteve em 1883 o segundo lugar com uma cantata Le Gladiateur (7) e em 1884 ganhou o Grand Prix com a cantata L’Enfant Prodigue, sobre um texto de Edouard Guinaud, obra ecletica, fortemente influenciada por Lalo e Massenet (8).

 

A estada de Debussy na Villa Medici, pensionato dos premiados, foi para ele um suplicio. Sentiu falta dos seus amigos de Paris, não teve nenhum contacto com seus colegas, queixando-se constantemente de seu alojamento, o “tumulo etrusco” (9). Compôs, no entanto, varias obras (10), se bem que geralmente incompletas: a ode sinfonica Zuleima (11), Diane au Bois (12), a suite Printemps (13) e  La Demoiselle Élue (14). Tais peças foram apreciadas pelos membros da Academia de Beaux-Arts, em cujo relatorio se encontram as primeiras referencias criticas desfavoraveis a Debussy. A proposito da “Demoiselle Élue, por exemplo, consta: “obra impregnada desse impressionismo vago que é dos mais perigosos... numa obra de arte” (15). Esta foi provavelmente a primeira vez em que o termo “impressionista” foi usado em relação á musica de Debussy (16).

 

Pouco se sabe sobre os primeiros anos que se seguiram ao regresso de Debussy de Roma. Começou uma opera, Chimène, sobre um libreto de Catulle Mendès, nunca terminada. Em 1887 conheceu Stéphane Mallarmé e tornou-se logo assiduo frequentador das terças-feiras literarias que este ultimo organizava em sua casa (17). Foi por sinal um dos poucos musicos a travar contacto com Mallarmé que, entretanto, como quase todos os simbolistas, tinha verdadeiro culto por Wagner.

Em 1888 e 1889 Debussy visitou Beirute para assistir ao festival wagneriano (18). Essas visitas caracterizaram uma epoca de grande evolução e maturidade intelectual de Debussy. De 1888 são as seis arietas mais tarde intituladas Ariettes Oubliés. De 1890 são os “5 Poémes de Baudelaire”. Em 1889 durante a exposição universal, Debussy assistiu a algumas representações de teatro javanês que mencionaria frequentemente a partir dessa época.

 

É também, então, que Debussy conheceu Erik Satie, cuja influencia sobre seu estilo é ponto violentamente controvertido. Sem duvida antes de Debussy, Satie tinha já adquirido certo vocabulario harmonico muito semelhante ao que ia desenvolver Debussy. Entretanto, Satie nunca produziu o que dele se esperava, enquanto que Debussy é um dos polos principais da musica contemporânea.

 

Em 1893 executou-se pela primeira vez (19) o Quatuor, pessimamente recebido. Com efeito, apesar de sua forma cíclica, grande coqueluche da epoca, a sua harmonia original, a sua escrita nova, a sua independencia em relação a quaisquer modelos, fizeram que mesmo Chausson, amigo intimo do compositor, não conseguisse aceitar plenamente a obra. Quase que apenas Paul Dukas elogiou imediatamente a composição.

 

Em 1894, nova estréia rumorosa: primeira execução do Prélude á l’après-midi d’un faune sobre o poema de Mallarmé. Desta vez, não se sabe exatamente por que, a primeira execução foi muito bem recebida, tanto assim que a peça foi bisada, tendo-se mantido até hoje como a mais popular de Debussy, aliás com ampla justiça, pois é “com flauta do fauno que começa uma nova respiração de arte musical” (20).

 

O proprio Mallarmé reconheceu o merito do compositor dedicando-lhe um exemplar do poema com as seguintes linhas:

“Sylvain d’haleine première

Si la flute a reussi

Ouis toute la lumière

Qu’y soufflera Debussy” (21)

 

(1) No Consérvatoire de Paris o solfejo tem sido sempre uma disciplina preliminar, tratada com o maximo cuidado e á qual é dada extrema importancia.

 

(2) Albert Lavignac (1846-1916), professor do conservatorio de Paris, conhecido principalmente por varios livros didaticos e de reminiscencias e como editor juntamente com Lionel de La Laurenele da famosa “Encyclopédie de la musique et dictionnaire du Consérvatoire”.

 

(3) Antoine-François Marmontal (1816-1898), famoso professor de piano no conservatorio de Paris de 1848 a 1887. Contam-se entre seus alunos Alneniz, Bizet, d’Indy, Guiraud, Planté e outros.

 

(4) Outras versões dizem que Debussy foi contratado como professor dos filhos de Mme. von Meck.

(5) Há varias referencias ao jovem “Bussy” na volumosa correspondencia entre Mme. von Meck e Tschaikovsky.

 

(6) Ernest Guiraude (1837-1892) foi pianista e mais tarde professor de composição do conservatorio de Paris, onde teve Debussy e Dukas como alunos. Deixou varias operetas e um estimavel tratado pratico de instrumentação, ainda hoje usado.

(7) Texto de Emile Moreau. A partitura mantém-se inedita.

 

(8) Uma famosa anedota conta que, algum tempo antes, Debussy tinha mostrado a Guiraud uma partitura semi-revolucionaria sobre Diane au bois de T. de Banville, e que o professor, elogiando a peça, acrescentara porém: Será necessario guardar isso para mais tarde senão nunca ganharás o Prix de Rome.

 

(9) C. Debussy: Monsieur Croche, Antidilettante

 

(10) Os pensionistas do Prix de Rome eram obrigados a compor varias obras justificando sua estada em Roma.

 

(11) Segundo o Almanzor, de Heine. Partitura perdida.

 

(12) Texto de T. de Banville.

 

(13) Originalmente para coro e orquestra, da qual só resta uma partitura, coral com redução de piano. A suite sinfonica desse nome, publicada muito mais tarde, não orquestrada por Debussy.

 

(14) Poema Lirico, de Dante Gabriel Rossetti, traduzido por G. Sarrazin, partitura terminada em 1888 e executada pela primeira vez em 1893.

 

(15) Citado por Pierre Boulez em Debussy – Encyclopédie de Musique Fasquelle.

 

(16) Da mesma epoca data também uma Fantasia para piano e orquestra.

 

(17) André Billy: L’époque 1900. (Histoire de la Vie Littéraire).

 

(18) Em 1887 visitara Brahms, com quem almoçou e assistiu a Carmen.

 

(19) Pelo quarteto (Ysaye, Criekboom, Van Hout, Jacob).

 

(20) Pierre Boulez: op. cit. De inicio, Debussy pretendia escrever um preludio, um interludio e uma parafrase final para o mesmo poema.

 

(21) Vers de Circonstance: dedicatorias do Prélude. (Obras Completas – Pléiade).

 

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