Felipe Rau/Estadão
Felipe Rau/Estadão

Cenas essenciais

Nelson Pereira fala sobre filmes da exposição e do que prepara sobre d. Pedro II

Ubiratan Brasil, O Estado de S.Paulo

23 de agosto de 2013 | 07h50

A sala é inteiramente escura, iluminada apenas por 12 monitores de TV, que exibem cenas de seus principais filmes. “Eu queria algo minimalista, sem fotos ou textos explicativos, apenas imagens de alguns longas”, justifica o cineasta Nelson Pereira dos Santos, homenageado com um ciclo de suas obras primordiais além de uma exposição, no Itaú Cultural. Trata-se da Ocupação Nelson Pereira dos Santos, homenagem ao diretor que, aos 84 anos, ainda constrói uma das mais sólidas e importantes cinematografias brasileiras – já prepara o que será seu 23.º longa-metragem, inspirado na biografia do imperador Pedro II.

Nelson foi um dos que lançaram a pedra fundamental do Cinema Novo, com Rio 40 Graus (1955). Também transpôs às telas obras fundamentais de Jorge Amado, Guimarães Rosa, Machado de Assis e Graciliano Ramos. Tratou do sincretismo místico e religioso brasileiro. Falou de colonização e antropofagia. E ainda realizou documentários sobre Gilberto Freyre, Sérgio Buarque de Hollanda e Tom Jobim.

São justamente cenas dessas obras que compõem as imagens exibidas nos monitores colocados naquela sala escura do Itaú Cultural. “De cada filme, selecionei duas cenas, aquelas que melhor representam o filme”, justifica.

Nelson Pereira dos Santos gargalha quando se recorda do nó que deixou na cabeça dos pesquisadores do Itaú Cultural, encarregados de ajudá-lo a montar a exposição que abre amanhã. “Eles queriam fotos, textos explicativos, mas isso só aborrece o visitante”, comenta. “Para mim, bastam duas cenas primordiais de cada filme, aquelas que expõem o contexto da história, o caráter dos personagens, a luz que revela as imagens. E, ao final dessa espécie de trailer, a frase de alguma resenha publicada na época da estreia.”

Tal despojamento é notório em seu método de trabalho. “Ele nunca foi de seguir roteiros”, comentou a amiga Miúcha, com quem dividiu uma divertida mesa na última edição da Festa Literária Internacional de Paraty, em julho. Dessa aparente liberdade, porém, desponta um artista com pleno domínio de seu ofício.

Foi na cidade fluminense, por exemplo, que Nelson rodou uma trilogia (Azyllo Muito Louco, Como Era Gostoso o Meu Francês e Quem É Beta?) com que denunciou o regime autoritário (à época, década de 1970, militares estavam no poder) por meio de uma alegoria política.

Esses três longas serão exibidos, junto a outros dez, no Itaú Cultural, em um programação que acontece neste fim de semana e nos dias 7 e 8 de setembro. O ciclo complementa a exposição minimalista na já conhecida sala escura - lá, as sequências de cenas de seus 18 filmes encaminharão o espectador ao universo cinematográfico criado por Nelson Pereira. Tais imagens serão mostradas de forma aleatória e simultânea por 12 monitores.

Outras duas telas exibirão documentários sobre o trabalho do cineasta. Um deles é uma entrevista realizada em Paraty por uma equipe do Itaú Cultural. Também figura na lista Nelson Filma, realizado por Luiz Carlos Lacerda, em 1970, com alunos da Universidade Fluminense - trata-se de um retrato do cinema independente no Brasil desde o primeiro longa do diretor, Rio, 40 Graus (1955), até Azyllo Muito Louco (1970).

Finalmente, o bem-humorado Como se Morre no Cinema, filme de 20 minutos realizado em 2002 em que a diretora Luelane Corrêa apresenta as memórias do papagaio que participou da filmagem de Vidas Secas, em 1962, quando atuou ao lado da cachorra Baleia.

A única concessão feita por Nelson estará na entrada da Ocupação: o texto Nelson Pereira dos Santos, Cinema Novo e Além, escrito por Haden Guest, diretor do Harvard Film Archive, para uma mostra realizada no ano passado em tributo ao que eles definem como uma das mais lendárias figuras do cinema latino-americano.

“Eu aceitei porque é uma visão externa que avalia unicamente a obra”, comenta ele, que espera começar a filmagem da biografia de D. Pedro II no próximo ano. O roteiro está pronto e é inspirado no livro do historiador José Murilo de Carvalho. “O orçamento é de R$ 7 milhões e já captamos R$ 2 milhões”, informa o cineasta, que leu recentemente o livro Una Napoletana Imperatrice aí Tropici (Uma Imperatriz Napolitana nos Trópicos), de Aniello Ângelo Avella, sobre a princesa Teresa Cristina, mulher de D. Pedro II.

“Descobri que, ao contrário da lenda, não se tratava de uma mulher tão feia. E ainda era uma intelectual, como o imperador, com muitos conhecimentos de arqueologia. Viajaram ao Egito, de onde voltaram com uma múmia, hoje exposta no Rio.”

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