Cenas em ambiente onírico

Martin Page cria parábola sobre o meio artístico em A Libélula dos Seus Oito Anos

Tatiana Salem Levy, O Estado de S.Paulo

20 de novembro de 2010 | 00h00

A Libélula dos Seus Oito Anos, novo romance do francês Martin Page, conta a história de Fio Régale, menina que desde cedo conheceu as infelicidades da vida e que, por força do acaso, se torna uma grande celebridade no mundo das artes.

Autor do bem-sucedido Como me Tornei Estúpido, Page busca construir textos irônicos, em que revela o lado obscuro do mundo contemporâneo. A história de Fio é uma grande parábola do meio artístico, determinado pelas relações de poder, a inveja e a arrogância. Contrapondo-se à hipocrisia reinante, surge essa moça pura e verdadeira.

Fio perdeu os pais e a avó ainda pequena e por isso foi obrigada a se virar para garantir o próprio sustento. Vive de forma pacata, e tem como única amiga Zora, sua vizinha e proprietária do apartamento onde mora. Até que, certo dia, cai nas graças de Ambrose Abercombrie, um marchand parisiense milionário que se encanta com os quadros pintados por Fio.

Abercombrie está prestes a morrer, mas antes garante o futuro de Fio, lançando-a no mercado como a revelação do momento. A vida da personagem transforma-se radicalmente, e ela passa a ser o centro da atenção, circulando na grande mídia, tornando-se a queridinha dos melhores estilistas e dos críticos de arte. Mas o que o leitor percebe no decorrer da trama é que o diferencial de Fio não reside em sua criação artística, e sim na sua autenticidade, tão rara nos dias atuais. Embora seja conduzida para o estrelato, ela não perde a sua simplicidade original.

A narrativa segue quase como uma fábula, num cenário onírico, em que as fronteiras entre fantasia e realidade perdem o sentido. Fio é levada para um lugar misterioso que nos faz pensar em Alice no País das Maravilhas ou nos filmes de Tim Burton - só que, no texto de Page, esses elementos parecem falsos e sem propósito.

O importante na literatura não é descrever a realidade, mas construir um mundo que seja, por si mesmo, real. É nisso que Page fracassa, pois ao pretender se contrapor à artificialidade do ambiente artístico, termina por construir um mundo artificial, repleto de clichês e soluções fáceis. As críticas ao universo mesquinho são, na maioria das vezes, rasas e óbvias e não acrescentam nada de consistente àquilo que circula no senso comum. É verdade que o romance tem rompantes de lirismo, mas de forma geral é composto de metáforas sem força e de uma linguagem pouco trabalhada, reforçando a crise em que se encontra a nova literatura francesa.

TATIANA SALEM LEVY É DOUTORA EM LETRAS PELA PUC-RIO E AUTORA DO LIVRO A CHAVE DE CASA (RECORD)

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