Cenas do triunfo das sombras

'Badenheim 1939', de Aharon Appelfeld, constrói alegoria sobre as vésperas do holocausto

Marcio Seligmann-Silva,

02 Fevereiro 2013 | 02h07

Toda cultura necessita de rituais para exorcizar a morte e a violência. Na nossa, a literatura e as artes ocupam um papel preponderante nesse processo. A obra de Aharon Appelfeld, escritor israelense nascido em Czernowitz, em 1932, não deixa dúvidas quanto a isso. Ela ocupa um lugar de destaque no que toca à tentativa de simbolização e elaboração de Auschwitz.

Seus textos, no entanto, não procuram apresentar os campos de concentração em si, nem falam diretamente das câmaras de gás. Como o próprio Appelfeld, que perambulou, muitas vezes só, dos 8 aos 12 anos de idade pelas florestas da Europa oriental, após escapar de ser deportado para um campo de concentração, também seus textos em prosa deambulam em torno desses campos, sem propriamente adentrá-los.

Em Badenheim 1939, originalmente publicado em hebraico, no ano de 1975, vemos uma complexa construção em forma de novela, que encena uma alegoria dos judeus europeus na véspera daquilo que o nazismo decretou como "a solução final" - a tentativa de extermínio dos judeus.

Em uma "aprazível" cidade austríaca de veraneio, marcada por seus festivais musicais, o autor localiza uma macabra história, na qual os judeus se entregam às forças da Divisão Sanitária, que aos poucos transformam a cidade em um gueto e posteriormente em um campo de transição. O ponto de vista do narrador onisciente e altamente irônico (em sua fria imparcialidade diante dos fatos que conta), recusa-se a descrever a interioridade dos vários personagens da cena, criando uma atmosfera que oscila entre o surreal (absurdo) e o hiper-real (da literatura de um Kafka ou Beckett). Os personagens são aos poucos transformados em marionetes da Divisão Sanitária e aceitam todas as imposições com um paradoxal contentamento. Eles veem nessa Divisão, a fusão absurda de uma agência de turismo com uma entidade que promoveria o fim do exílio judaico: ela levaria os judeus à terra prometida - a Polônia.

Os personagens tendem a grandes tipos, mas todos, com exceção de Trude e de um velho e (sintomaticamente) inválido rabino, encarnam uma aristocracia judaica assimilada que esquecera a tradição, substituída por Rilke e pela música erudita. A Divisão Sanitária obriga todos judeus que nela se inscrevam e o doutor Pappenheim, o empresário organizador do festival de verão, responde que é uma honra colocar o nome no "livro de ouro" da entidade. Esse personagem encarna a burguesia judaica assimilada, voltada para sua integração via alta cultura em uma Europa que se afunda no nacionalismo (antissemita) e na crise.

A narrativa oscila de modo muito bem orquestrado, entre tons de luz e de sombra. A abertura do livro já mostra esses dois tons que serão empregados magistralmente em sua luta na pintura dessa novela: "A primavera voltou a Badenheim. Na igreja da aldeia, próximo à cidade, os sinos badalaram. A sombra das árvores retirou-se para a floresta. O sol desfez os restos de escuridão e a luz estendeu-se ao longo da rua principal e, então, de praça em praça. Era um instante de transição. Os veranistas estavam prestes a invadir a cidade".

O contradomínio paulatino da Divisão Sanitária (ou seja, o triunfo das sombras) se dá, em termos da narrativa, em paralelo à apresentação dos personagens. Não existe um protagonista e todos os judeus são apresentados como parte de uma confraria (que muitas vezes exclui os judeus pobres do leste, os Ostjuden, com ódio e preconceito). Essa homogeneização é levada ao extremo com a personagem dos gêmeos idênticos, que recitam poemas de Rilke. Se os judeus são idênticos aos demais austríacos, não existe razão para a perseguição, afirma um judeu que é enviado a Badenheim. A lógica da identificação e do confinamento está a um passo de se transformar em crise de identidade e em uma epidemia de violência.

O caráter de alegoria na construção dessa cidade que se transforma em gueto fica claro em frases como esta: "Tudo agora seria Badenheim, tanto aqui como em outro lugar". A transformação de cidade em local tomado por um estado de sítio é também a passagem de um lar (Heim) para o estranho, não familiar (Unheimlich), na terminologia de Freud. Não por acaso, o texto se abre com uma apresentação do casal de farmacêuticos da cidade. Trude, a esposa do farmacêutico, está doente. Sua doença parece se espalhar pelos habitantes, que vão sendo descritos cada vez mais como corpos que precisam apenas saciar suas vontades biológicas e existenciais mínimas. De um grupo de aficionados pela música e literatura, são transformados em máquinas biológicas.

Nesse processo, eles pilham os armazéns e a farmácia, em busca de drogas que os mantenham vivos. Estas mantém a capacidade autoalucinatória dos personagens. Pappenheim, ao ver que na verdade os habitantes de Badenheim serão embarcados em um trem de carga e não em vagões de passageiros, alucina: "Se os vagões estão tão sujos, isso significa que o trajeto não será demorado". Doce ilusão... Em psicanálise, talvez o nome disso seria denegação ou rejeição da realidade, processo que, no caso, Appelfeld descreve com relação aos judeus, mas que está também presente de um modo geral em nossas vidas. Em Badenheim 1939, esse mecanismo produz uma sátira lúgubre, macabramente realista.

* MARCIO SELIGMANN-SILVA É PROFESSOR DE TEORIA LITERÁRIA DA UNICAMP, AUTOR DE A ATUALIDADE DE WALTER BENJAMIN E DE THEODOR ADORNO (CIVILIZAÇÃO BRASILEIRA)

Mais conteúdo sobre:
Marcio Seligmann-Silva literatura

Encontrou algum erro? Entre em contato

publicidade

publicidade

publicidade

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.