Cenas do amargo regresso

Um Pombo e Um Menino, de Meir Shalev, revê as transformações de Israel

Luis S. Krausz, O Estado de S.Paulo

18 de setembro de 2010 | 00h00

Meir Shalev nasceu numa colônia agrícola em 1948, neto de uma família de imigrantes russos da 2.ª aliá - a geração que sonhava com a criação de um novo tipo de sociedade em Israel, no início do século 20. Um Pombo e Um Menino, seu mais novo romance, lançado em Israel há três anos, consagrado na Europa e nos EUA, chega agora ao Brasil, em tradução fluente e muito cuidadosa. É um livro em flash-backs, ambientado na década de 1940 e hoje, cuja narrativa principal enternece com histórias de amores e desamores e retoma o idealismo daquela geração que se empenhou pela formação dos Kibutzim (colônias agrícolas coletivas) e pelo nascimento de um Estado judeu independente. O enredo revê as abruptas transformações pelas quais passou Israel em seus 62 anos de existência. Faz isso por meio da contraposição entre os costumes, as maneiras de ser e as ideias dos judeus refugiados da Alemanha, que chegaram ao que foi a Palestina britânica para continuarem com suas vidas, divididos entre o apego à sua cultura de origem e a filiação ao sionismo, e os da geração atual, que vive à beira do abismo de banalização e de vertigem das sociedades de consumo e de massas.

O universo narrativo é limitado pelas trajetórias de dois personagens: Bebê, um menino do Kibutz e treinador de pombos-correio, que perece na Guerra da Independência, em 1948, e Yair Mendelssohn, guia turístico de meia-idade. Essas trajetórias se unem por meio de um turista que participou daquela guerra, e começa a contar a Yair a história de um pombo-correio - ave que anseia, sempre, por voltar à sua casa, e que é considerada, no livro, como uma metáfora para o povo judeu.

A busca por um lar é também o que levará Yair a um reencontro com suas origens. Como Bebê, cuja infância, no ambiente do Kibutz, não teve espaço para a individualidade, Yair chegou até onde chegou varrido por forças maiores do que sua vontade. Saber se ele encontrará ou não a liberdade, em meio aos riscos e às oportunidades do mundo contemporâneo, importa menos do que saborear essa trama bem construída, as descrições de momentos históricos que são, também, estações da vida do autor, e a fineza de idioma característica de Shalev, preservada no texto em português.

LUIS S. KRAUSZ É DOUTOR EM LITERATURA E CULTURA JUDAICA PELA USP, E AUTOR DE AS MUSAS: POESIA E DIVINDADE NA GRÉCIA ARCAICA E RITUAIS CREPUSCULARES: JOSEPH ROTH E A NOSTALGIA AUSTRO-JUDAICA, AMBOS PUBLICADOS PELA EDUSP

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