Cenas de uma vida real e de fantasia

El Sueño del Celta, romance de Mario Vargas Llosa, que acaba de sair na Espanha, recria a atormentada trajetória do diplomata irlandês Roger Casement, que viveu dividido entre ética e obsessões pessoais

Carlos Granés, O Estado de S.Paulo

06 de novembro de 2010 | 00h00

Primeiro foi o Conselheiro, aquele místico alto e esquálido que instigou a rebelião de Canudos, depois o general Trujillo, Paul Gauguin e Flora Tristán. Há 30 anos a literatura de Mario Vargas Llosa se povoou de personagens reais que imprimiram sua marca na história. Todas elas, para bem ou para mal, foram homens e mulheres que se afastaram do comum, representantes de ideias fantásticas, donos de paixões vulcânicas e convicções férreas que os levaram a desafiar a realidade em busca de paraísos perdidos. O Conselheiro condenou seus seguidores a imolar-se perseguindo a santidade. Trujillo submeteu os habitantes da República Dominicana acreditando que assim os tiraria do subdesenvolvimento. Flora Tristán desafiou as convenções de sua época buscando uma sociedade igualitária para homens e mulheres. Paul Gauguin se despiu de suas roupagens ocidentais para buscar as fontes da criação artística na vida primitiva. Agora, em El Sueño del Celta (O Sonho do Celta), Mario Vargas Llosa desentranha a biografia de outra personagem histórica cuja odisseia existencial supera inclusive a dos protagonistas de seus romances anteriores.

O celta a que se refere o título do romance é Roger Casement, um cônsul britânico - nascido na Irlanda - que se converteu no principal denunciante das atrocidades cometidas pelo rei Leopoldo II no Congo e pela companhia de borracha de Julio C. Arana na selvática região de Putumayo, na fronteira entre o Peru e a Colômbia. Casement, como as outras personagens que despertam a curiosidade de Vargas Llosa, teve uma vida atribulada, cheia de aventuras, compromissos éticos e lutas políticas, e também um mundo privado de desejos e fantasias ocultos que, no final de sua existência, quando estava prestes a ser enforcado pelo governo britânico, mancharam a imagem de justiceiro que havia conquistado com seus informes sobre o Congo e o Putumayo.

Truque. A escritura do romance exigiu uma minuciosa investigação que conduziu Vargas Llosa por bibliotecas, selvas e cidades de três continentes. O resultado é uma construção literária sólida, sem fissuras, tecida com uma prosa sóbria que contrasta com os horrores que salpicam cada uma de suas páginas. A ilusão de realismo é tão bem lograda que afasta qualquer suspeita sobre a veracidade dos episódios narrados. Esse, porém, é apenas um dos truques de um mestre do ofício. O Sonho do Celta é antes de tudo uma ficção que se emancipa da realidade e cria um mundo a parte, de palavras, onde Vargas Llosa pode explorar com total liberdade as obsessões, demônios e dilemas que conformam o núcleo de sua literatura. Essa é uma das chaves para entender seus romances.

Todas as personagens de Vargas Llosa são um canal que deságua diretamente no centro nevrálgico de suas preocupações. Roger Casement não é exceção. Suas peripécias, metamorfoses e batalhas morais serviram para Vargas Llosa explorar as suas, pois como o cônsul britânico, ele também foi um encarniçado lutador que, sem medo da impopularidade, contrastou permanentemente suas convicções e princípios com todos os acontecimentos sociais, políticos e culturais que marcam o rumo das sociedades contemporâneas.

O grande problema com o qual Casement se defronta, e que mudará sua forma de entender e viver a vida, é a relação entre as potências ocidentais e os países da periferia. No princípio da história, Roger é um jovem aventureiro que viaja à África convencido das bondades do colonialismo. Ele crê piamente nos três "C", comércio, cristianismo e civilização, e no intercâmbio cultural como fórmula para tirar o Congo do atraso. Pouco tempo depois de estar na selva, porém, ele perde a inocência. A retórica altruísta com a qual Leopoldo II havia conseguido que lhe cedessem o extenso território do Congo, demonstrou ser uma miragem. Lá, em Boma ou Matadi, reinavam a borracha, o castigo, a cobiça, impondo uma lógica de submissão e horror que somente Joseph Conrad, o escritor polonês que conheceu Casement quando pretendia subir o rio Congo no comando de um barco da Sociedade Anônima Belga, pode expressar em O Coração das Trevas.

A cobiça é um grande vício que contamina todos os atos humanos no romance. Em lugares como o Congo e a selva latino-americana, paragens onde a civilização ocidental não penetrou e não há instituições nem legalidade que regulem a conduta, a liberdade total converte os homens em predadores de si mesmos, em criaturas dispostas a explorar e matar o fraco para obter benefícios. O que Casement vê em suas viagens o indispõe mortalmente com as potências coloniais. Os europeus, supostos arautos da civilização, haviam se convertido em déspotas insensíveis que matavam por simples tédio, como se a eliminação do outro fosse um esporte exótico que se praticasse naquelas latitudes esquecidas. O horror sentido de tão perto fez Roger mudar por completo sua maneira de pensar. Ele já não via as potências ocidentais como transmissoras de cultura e progresso, mas como nações opressoras e rapaces.

Diferentemente de Conrad, que culpava a natureza selvagem pela desumanização do homem, Casement intuiu que o mal emanava de outra fonte: do projeto colonialista.

Essa reflexão produziu uma segunda metamorfose no cônsul. No meio da selva, a milhares de quilômetros de seu lugar de nascimento, Casement descobriu seu verdadeiro eu. Descobriu que não era britânico, mas irlandês, e que a Irlanda, como o Congo, era uma nação colonizada.

Embora a violência exercida pelos ingleses não fosse tão explícita nem sanguinária, o jugo opressor havia abolido a língua gaélica e as tradições dos primeiros habitantes do Eire. O Congo lhe havia revirado as entranhas e um novo sentimento aflorava nele, Desde então, seu compromisso moral estaria ligado à Irlanda.

A reflexão que levou Roger a abraçar a causa nacionalista é impecável e coincide com proposições que Vargas Llosa expôs antes em seus ensaios: o que é mau para o Congo não pode ser bom para a Irlanda. O colonialismo é uma peste aqui e lá, e, portanto, deve ser combatido com igual ímpeto no Congo, na Amazônia ou na Irlanda. A clareza desse argumento obriga Roger a renegar tudo que havia sido até então. Ele não só deixa o serviço consular, como rompe relações com a Igreja Anglicana e com sua família. A equação moral que ele aplica à realidade dava um resultado inapelável. Colonialismo era igual a opressão, e independência a liberdade. Se queria ser consequente com a justa luta que havia iniciado na África, devia usar as poucas energia que ainda tinha lutando contra o inimigo invasor.

Dilema. Nesse ponto nos encontramos com outro dilema colocado pelo romance. A honradez moral e a coerência de princípios são, sem dúvida, uma grande virtude. No entanto, quando vividas de forma apaixonada, sem contato com a realidade, podem degenerar em fanatismos. Algo semelhante ocorre a Casement. Negando os matizes da realidade, ele igualou a situação de boras, huitotos e andoques à dos irlandeses, e chegou à conclusão de que tanto para uns como para outros não havia outra alternativa senão a violência. De justiceiro humanitário ele passou a ser um sonhador, empenhado em reverter o processo colonialista e resgatar uma Irlanda pura e primitiva. A busca dessa utopia o levou a forjar alianças com a Alemanha, inimiga declarada da Inglaterra durante a Primeira Guerra Mundial, e a defender uma luta suicida que mitificasse o sacrifício e a causa independentista. No fim, ele não conseguiu seus intentos. Acabou desprestigiado e odiado pelo país que antes o havia convertido em herói, esperando inutilmente um indulto que o salvasse da forca.

A história de Casement é tudo isso e muito mais, pois está impregnada também de imaginação e fantasia, de desejo e erotismo. O diário que o acompanhou em suas viagens foi um espaço de liberdade absoluta onde Casement pôde ventilar toda sua fogosidade erótica e viver as fantasias que na realidade não podia satisfazer. Em uma mesma pessoa coincidiam o justiceiro, o humanitário, o fanático e o homossexual fantasioso que se deleitava fotografando os corpos flexíveis e musculosos dos nativos. A grande façanha de Vargas Llosa foi ter dado coerência a uma vida tão contraditória, cheia de aventuras, transformações, dilemas e paixões que parecem ultrapassar os limites humanos. Por sua ambição, sua fatura impecável e a maneira como articula a experiência de três continentes, não cabe dúvida de que O Sonho do Celta é uma obra maior. Um modo idôneo de estrear o merecido e esquivo prêmio com o qual a Academia Sueca reconheceu - enfim! - sua trajetória literária em 7 de outubro de 2010. / TRADUÇÃO DE CELSO M. PACIORNIK

CARLOS GRANÉS É DOUTOR EM ANTROPOLOGIA SOCIAL PELA UNIVERSIDADE COMPLUTENSE

DE MADRI, AUTOR DE LA REVANCHA DE LA IMAGINACIÓN. ANTROPOLOGÍA DE LOS

PROCESOS CREATIVOS: MARIO VARGAS LLOSA Y JOSÉ ALEJANDRO RESTREPO. RECENTEMENTE, ORGANIZOU SABLES Y UTOPÍAS: VISIONES DE AMÉRICA LATINA (NO BRASIL, SABRES &

UTOPIAS - VISÕES DA AMÉRICA LATINA, EDITORA OBJETIVA), CONJUNTO DE ENSAIOS DE LLOSA

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