Cenas de um casamento

NOVA YORK

Lúcia Guimarães, O Estado de S.Paulo

08 de maio de 2010 | 00h00

Num momento em que somos brindados com a leitura dos torpedos que Tiger Woods enviava a prostitutas e atrizes pornô em sua prosa tatibitate escatológica, Norman Mailer oferece uma pausa refrescante, contada nas memórias de sua viúva, Norris. Flagrado certa vez por ela - sua sexta mulher -, ele improvisou a desculpa literária. Brilhante mentiroso, Mailer alegou que, ao fazer pesquisas para o romance O Fantasma de Harlot, sobre a CIA, havia sido arrastado pela fascinação com a vida dupla. Essa e outras histórias saborosas, engraçadas, irritantes e dolorosas recheiam A Ticket to the Circus, A Memoir (Ingresso para o Circo, Memórias), recém-lançado por Norris Church Mailer, última companheira do escritor, morto em novembro de 2007. Quem diria, o famoso apartamento de Brooklyn Heights, com vista para Manhattan, abrigava, e continua abrigando, uma segunda pessoa capaz de prender a atenção do leitor.

A mulher alta e elegante que chega para a noite de autógrafos em uma livraria nova-iorquina numa segunda-feira recente ainda exibe o olhar que derreteu o então futuro marido durante uma festa, décadas atrás, na pequena Russellville, no Arkansas. Mas anos de luta contra um câncer são evidentes na magreza da ex-modelo de 61 anos que, jovem, diante da pergunta maliciosa sobre a ordem que ocupava na lista de mrs. Mailers, disparava: "A última." Ela acertou na previsão, uma ousadia quando se considera a voracidade sexual do autor, objeto também de outra memória recém-lançada, Loving Mailer (Amando Mailer), relativamente ignorada e escrita pela ex-atriz, ex-jornalista e ex-amante profissional Carole Mallory.

O título do livro de Norris refere-se, naturalmente, aos 33 tumultuados anos de vida em comum. "Bem, comprei um ingresso para o circo. Não sei por que me surpreendi ao ver os elefantes", diz ela na epígrafe. Uma festa para qual a moça batizada de Barbara Jean Davis não havia sido convidada selou a união de um dos casais mais improváveis e glamourosos dessa cidade, em 1975. Norris era sobrenome do primeiro marido de Barbara e Church veio depois - foi o nome escolhido por Mailer para dar à nova namorada uma aura de classe anglo-saxônica quando ela se tornou modelo em Nova York.

Norris tinha 26 anos, era professora do ensino médio e acabara de ler Marilyn, de Mailer, oferta do clube do livro em Arkansas. Ao descobrir uma rara celebridade visitando uma escola próxima, suplicou ao amigo anfitrião para ir de penetra e pedir um autógrafo. Com 1,79 m de altura e longos cabelos ruivos, a beldade, que já havia conquistado sexualmente um aspirante à política local chamado Bill Clinton, deixou Mailer tão agitado que ele obrigou o anfitrião a convidá-la para o pequeno e exclusivo jantar em sua homenagem. Mailer tinha 52 anos, um a mais do que o pai da futura Norris Church.

A primeira parte da biografia, sobre a vida no Arkansas, revela uma prosa prejudicada por clichês e folclore sulistas, mas a autora não faz pose de literata. Chega a confessar que o marido atribuía a harmonia inicial do relacionamento, explosivo em energia sexual, ao fato de ele não compreender seu sotaque de gente do Sul dos EUA. Ela já era mãe de um menino de 3 anos quando foi à tal festa e com Mailer teria John Buffalo, ficcionista e dramaturgo, hoje com 32 anos. Mailer, um dos leões do romance do pós-guerra americano, chegou à união ostentando uma ficha que incluía cinco ex-mulheres e sete filhos. E trouxe também o turbilhão permanente das festas e viagens, da convivência com Kennedys, pugilistas, assassinos e ditadores internacionais, de Ferdinand Marcos a Fidel Castro.

Em A Ticket to the Circus, aliás, há uma foto melancólica de Norman na sala da casa de Ernest Hemingway em Cuba. Mailer foi direto à estante da residência transformada em museu e não encontrou na coleção nenhum dos três livros que publicou antes da morte de Hemingway, em 1961. Não era a primeira decepção. Mailer havia pedido a seu antecessor em hipermachismo na prosa literária uma nota publicitária para ajudar nas vendas de O Parque de Veados e não recebeu resposta. Depois tentou ser apresentado ao ídolo e passou um dia todo esperando em vão.

Feministas. Além do escândalo provocado em Russelville pela ligação com o escritor casado e muito mais velho, Norris Mailer chocou as sensibilidades feministas de Nova York. Afinal, adúltero serial, o romancista fascinado por violência havia esfaqueado e ferido gravemente a segunda mulher, Adele, numa noite de bebedeira. Uma colorida política nova-iorquina, já morta, temeu pela recém-chegada. Bella Abzug, depois de oferecer a Norris o telefone de casa para "ligar a qualquer hora da noite", pediu: "Não deixe aquele homem engravidá-la!"

A reação da mídia americana às memórias de Norris Church Mailer reflete enorme simpatia pela mulher que admite sem rodeios que tomava conta do escritor famoso nos mínimos detalhes. Ela cozinhava, ajudava a criar os sete enteados, pagava as contas, administrava duas residências, no Brooklyn e em Provincetown, e até descobrir, em 1991, que era traída regularmente havia anos, esperava como uma Penélope durante as ausências constantes do marido. A pergunta inevitável é feita por todos os escreveram sobre o livro: por que ela não abandonou o porco chauvinista, o barrigudo baixinho que, perto dos 70 continuava pulando de cama em cama?

Na noite de autógrafos que acompanhei, a autora voltou a explicar seus motivos para cerca de cem pessoas na livraria. Os filhos John e Matt se misturavam aos fãs. Norris leu uma passagem sobre a primeira noite de sexo com o futuro marido, no tapete da sala de casa em Russellville ("Não foi tão bom. É raro ser bom da primeira vez.") Essa mulher altiva que frequentava o Actor"s Studio com os filhos, escreveu peças e roteiros e publicou dois romances menores (Windchill Summer e Cheap Diamonds), apesar das críticas virulentas do marido, sabe modular sua performance. Durante a leitura naquela noite, levantava o olhar da página para enfrentar a plateia com um sorriso brejeiro e arregalou os famosos olhos ao defender Mailer do furor feminista. Após uma rodada de perguntas que não passavam de elogios deslumbrados com pontos de interrogação, o mediador da noite apontou para mim: "Última pergunta."

Quis saber se a viúva, que considerava a reputação de misógino de Mailer uma grande injustiça, engajou o marido longe da mídia e da vida pública e arrancou dele ideias mais arejadas sobre a mulher. Silêncio. Ela começa a falar, hesita e confessa que não entendeu a pergunta. O mediador é seu amigo Dotson Rader, ex-namorado do dramaturgo Tennessee Williams, e pula em defesa da autora: "Antes de Norris, Norman não era exatamente agradável. Ela civilizou o Norman." Não é uma resposta à minha pergunta, mas nos remete a outra. Por que ela não foi embora? Quem tiver explicações precisas para as razões do coração que se disponha à vã tentativa de responder.

Mike. Fim do interrogatório. Ao me aproximar, conto à escritora que encontrei uma carta de Norman Mailer dentro da minha cópia da primeira edição de Noites Antigas, de 1983, comprada num sebo. Explico que é dirigida a "Miki". Ela supõe tratar-se de Mickey Knox, o velho ator, vítima do macarthismo e amigo da família Mailer. Norris me olha curiosa sobre o que quero fazer com a carta e se surpreende quando digo que quero enviar para ela. A autora anota logo o endereço postal da residência de Brooklyn Heights.

Caminhando na volta, começo a me lembrar da briga épica do escritor Paul Theroux com V.S. Naipul, o trinidadiano e Prêmio Nobel de Literatura de 2001. Theroux descobriu um livro que mandou de presente com dedicatória para o ex-mentor Naipaul à venda por 1.500 libras e se vingou com o relato devastador, Sir Vidia"s Shadow (A Sombra de Sir Vidia). Em casa, pego o papel timbrado de Norman Mailer; o carinhoso parágrafo datilografado, que acompanha a dedicatória escrita à caneta no livro, é dirigido a Miki, não Mickey. Espero não arruinar uma amizade.

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