Cenas da presença francesa

História do Pé, de Le Clézio, traça um panorama da influência francófana hoje

Vinicius Jatobá, O Estado de S.Paulo

14 de julho de 2012 | 03h10

A História do Pé e Outras Fantasias é o último livro do francês J. M. G. Le Clézio, Prêmio Nobel de 2008. De obra prolixa, esse é seu terceiro título adulto editado com regular esmero pela Cosac Naify. Cada uma dessas obras é inteiramente diferente da outra. O Africano, um elegante relato memorialístico, repensa e retraça a trajetória da família do autor no Congo, remontando as origens do fascínio de Le Clézio pelo universo simbólico "primitivo", que ocupa boa parte de sua produção. Refrão da Fome é outro animal: relato acerca da sobrevivência de uma família sob a égide da ocupação nazista na França. O retrato de penúria traçado por Le Clézio é tocante pela sua simplicidade: como uma doença, o nazismo vai envenenando aos poucos as relações pessoais; o drama é resistir, bem mais que a fome, ao envenenamento moral da presença violenta da guerra.

Este História do Pé é um livro peculiar, nesta sequência: mais crônica que conto, descompromissado, ele avança traçando um panorama sobre o que é o universo francófono hoje, de Paris às ex-colônias africanas. Rastreia o que é a França atualmente, e sua influência cultural no mundo; contudo, dá um passo além: mostra como o contágio também se deu no sentido oposto, mudando a cultura francesa e tornando-a mais plural.

Le Clézio começou como um autor parisiense herdeiro do nouveau roman para logo assumir a máscara de autor circunavegante, retratista da aventura colonial francesa ao redor do mundo. O seu problema, que o faz ser tão relevante hoje, é o excesso de desejo de reparação. Seus livros romantizam tanto a cultura selvagem, trabalham tanto dentro de uma imagem primitiva cunhada ironicamente pela cultura metropolitana que a força política de suas obras se dilui dentro de uma gentileza de olhar algo redentora: suas personagens são sempre nobres, guardiãs de valores imemoriais, cuja modernidade, seja em sua aventura colonial, seja por suas máquinas de guerra, ameaçam corromper.

Le Clézio é o escritor certo para tempos escrupulosos. Seus livros são assépticos, suas personagens puras, suas missões, nobres. Tanta beatice incomodaria se não fosse pela beleza magnética de sua prosa. O melhor conto do livro é História do Pé, e dele se depreende todas as qualidades e complicações do trabalho do escritor. A precisa rapidez com que consegue pintar um ambiente ficcional, no qual a protagonista mestiça integrada à cultura francesa se vê às voltas com um crescente incômodo em relação à forma de seus pés, é contagiante.

No entanto, o que poderia ser uma brilhante história sobre a sexualidade (sua gravidez, seu noivo relutante) se torna, logo, uma reflexão ajambrada em torno da inadequação e meditações sobre memória e persistência cultural. O problema nunca é tentar mesclar pensamento com peripécia: a questão é que uma ideia precisa de um tratamento estético, uma resolução narrativa para ganhar força. Não basta apenas que ela seja correta ou relevante, profunda. Em Le Clézio não há fluidez entre as duas instâncias: é algo mecânico, apesar da beleza e precisão do texto, esse migrar entre os registros ensaístico, descritivo e narrativo.

 É CRÍTICO, ESCRITOR

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