Cenas brasileiras em tons opostos

Reação ou indiferença diante de um corpo caído no chão; o cotidiano de trabalhadores numa linha de produção das mais ingratas. Cenas brasileiras, trazidas por dois filmes que participam da competição nacional do 16º É Tudo Verdade: Aterro no Flamengo, de Alessandra Bergamaschi, e Carne, Osso, de Caio Cavechini.

Luiz Zanin Oricchio, O Estado de S.Paulo

04 Abril 2011 | 00h00

Aterro do Flamengo é neutro até no título. Apenas enuncia a locação das imagens que serão vistas. A câmera é fixa, mostra um trecho do aterro com um pedaço de mar, uma pista de cooper, alguns aparelhos de ginástica. Num deles, destinado a flexões abdominais, há um corpo em posição estranha. Num ambiente em que todos se movem, ele se destaca pela imobilidade. A filmagem é quase em tempo real, embora haja cortes, que são denominados como prólogo, três episódios e epílogo. Enfim, em trabalho tão econômico em termos de sugestões, essa divisão acaba por induzir a uma narrativa. Que, claro, será forjada pelas imagens, mas principalmente pelo que se passa no interior da mente do espectador.

É curioso como obra tão despojada reavive discussões recorrentes, como por exemplo, em Cópia Fiel, de Abbas Kiarostami: o significado está na obra em si ou nos olhos (e mente, e coração) de quem a contempla? Pois bem, como existem várias respostas a essa questão (e, portanto, nenhuma), fiquemos com a impressão de que um doc tão pouco indicativo como Aterro do Flamengo pode nos sugerir muito a respeito tanto da indiferença como da compaixão. E nos falar, mais uma vez, do tabu da morte, que precisa ser encoberto de alguma forma para que vida continue a pulsar. Trabalho de rigor, executado por alguém cujo campo de atuação é o das artes visuais. De fato: Aterro do Flamengo é uma pintura móvel. Ou uma instalação.

O registro de Carne, Osso é oposto. À rarefação de Aterro do Flamengo responde pela imagem saturada do massacrante cotidiano laboral dos frigoríficos. Diante da linha de produção, desossando frangos, cortando carnes, eles executam movimentos repetidos, cada vez mais rápidos, diante da esteira que se movimenta no ritmo exigente da expansão econômica. Uma das operárias diz que se uma mosca pousar em seu rosto, ela não poderá espantá-la porque senão perderia o passo da esteira. Qualquer alusão ao clássico Tempos Modernos, de Chaplin, não é mera coincidência. A linha de montagem fordista aumenta o lucro, e desmonta seres humanos.

Não por acaso, também, muitos desses trabalhadores saem precocemente do serviço, com problemas como tendinite, atrofia dos nervos e...depressão. O documentário ouve os operários, autoridades do SUS e da Justiça do Trabalho, mas, compreensivelmente, nenhum dos patrões ou diretores dos frigoríficos aparece para defender essa modalidade industrial. Carne, Osso é uma poderosa denúncia da desumanização do trabalho.

ATERRO DO FLAMENGO

Cine Livraria Cultura. Hoje, às 15 h.

CARNE, OSSO

Cine Livraria Cultura. Hoje, às 21h; amanhã, às 15 h.

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