Cenários divinos de Mestre Ataíde

Restauradores descobrem pinturas ornamentais de artista barroco

Jotabê Medeiros, de O Estado de S. Paulo,

11 Setembro 2009 | 07h20

Uma grata surpresa no maior complexo de arte do período barroco no Brasil. Depois de escavar cinco camadas de tinta acumuladas grosseiramente durante um século nas paredes das capelas do Santuário de Bom Jesus de Matosinhos, em Congonhas (Minas Gerias, a 80 km de Belo Horizonte, restauradores descobriram pinturas ornamentais de um dos grandes artistas do período, Manoel da Costa Ataíde, mais conhecido como Mestre Ataíde. A reportagem do Estado teve acesso, com exclusividade, ao trabalho já em fase de finalização nas paredes de duas das capelas, um restauro que está sendo desenvolvido há três meses em Minas, a um custo de cerca de R$ 900 mil. Sob camadas sucessivas de azul, azul claro, azul escuro, branco e azul esverdeado surgiram colunas, árvores, alpendres, brasões, tarjas, estrelinhas no teto. As obras têm até recibo de autoria, há uma citação no Livro de Receita e Despesa do Santuário dando conta que o Mestre Ataíde recebeu pelo trabalho.

 

Ataíde fez as pinturas diretamente na parede, com tinta a óleo. Não há registro de outro trabalho dessa natureza no período. "Não é correto chamar de afresco, porque tecnicamente, afresco é aquela técnica em que o pigmento é misturado à própria massa, o que não é o caso", diz o restaurador Edmilson Barreto Marques. Ele estima que o trabalho estará completo em dezembro, quando poderá ser mostrado ao público. Antes, porém, uma das maiores experts em arte colonial brasileira, Myriam Ribeiro de Oliveira, vai redefinir a forma como as esculturas do Aleijadinho, que compõem as cenas sacras nas capelas, serão exibidas a partir da descoberta.

 

As capelas que têm obras do Mestre Ataíde são as três primeiras do conjunto: Santa Ceia, Horto das Oliveiras e Prisão de Cristo. As pinturas que se mostram de forma mais completa estão do Horto das Oliveiras, mas os restauradores fazem um trabalho discreto, para não tornar os ornamentos vistoso demais. Parece estranho? "As pinturas não podem concorrer com as obras, ela forma colocadas ali justamente para realçar as imagens", diz Edmilson Barreto. "Se você leva uma mulher de 60 anos a um cirurgião plástico, o cirurgião pode fazer com que ela pareça ter 10 anos a menos. Mas, se ele a fizer parecer que tem 15 anos, terá feito uma aberração", explica o restaurador.

 

Outro restaurador da equipe, o historiador Carlos Magno de Araújo diz que, antes da descoberta das pinturas, as obras do Aleijadinho erram mostradas como se estivessem em um armário. Não havia cenário. É como se uma peça teatral tivesse sido montado com um cenário de J.C Serroni e depois, na hora de exibi-la, tirassem o cenário, considera. As imagens do Aleijadinho seriam os atores dessa peça. "É mais do que provável que o próprio Ataíde tenha sido também responsável pela organização desses três primeiros Passos em suas respectivas capelas", escreveu Myriam Ribeiro de Oliveira. Erguidas entre 1799 e 1875, as Capelas dos Passos representam o caminho de Jesus ao Calvário. A partir da Santa Ceia, dispostas em ziguezague, estão seis capelas com as cenas da prisão, flagelação, coração de espinhos, subida ao calvário e crucificação do Cristo. Dentro dessa capelas, compõem-se de 64 esculturas em cedros rosa de um dos gênios da arte barroca brasileira, Antonio Francisco Lisboa, o Aleijadinho.

 

O Santuário de Matosinhos é primo-irmão de um santuário parecido na cidade de Braga, em Portugal. Foi um fiel, delirante, Feliciano Mendes, quem iniciou sua construção, em 1796. Aleijadinho realizou o trabalho na fase final de sua carreira, assim como as esculturas do Profetas. Mas houve uma paralisação nos trabalhos, e as capelas ficaram quase meio século antes de serem completadas. As três últimas capelas foram trabalho de artistas de escolas completamente diferentes. A primeira repintura, que cobriu as imagens que iam se desgastando nas paredes, ocorreu em 1891, seis meses depois de completado o complexo.

 

Acima de todo o conjunto, no ponto mais alto do complexo, está a igreja e os 12 profetas de pedra de Aleijadinho, atração turística mais proeminente, pérola barroca do País, que levou Congonhas a ser declarada Patrimônio da Humanidade pelas Nações Unidas. Os profetas, realizados em pedra-sabão, estão em péssimo estado. O estudioso francês Germain Bazin, antigo conservador do Louvre de Paris, após conhecer o Santuário de Congonhas, entusiasmou-se e disse que este complexo é um dos locais em que a mão de Deus se manifesta pela mão do homem. Com umas cinco mãos de tinta a menos, ficou ainda mais celestial.

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