Cena Contemporânea transforma geografia e tempo em Brasília

No festival de teatro, concreto vira pista de dança e peça portuguesa mobiliza percepção das horas

Beth Néspoli, de O Estado de S. Paulo,

29 de agosto de 2008 | 16h23

Numa cidade planejada, a arte muda traçados. Na madrugada de quarta-feira, dançava-se ao ar livre entre o Museu da República e a Biblioteca Nacional ao som do DJ Eugênio Lima. No espaço entre os dois prédios, a organização do Cena Contemporânea, o festival internacional de teatro de Brasília, instalou o ‘ponto de encontro’ do evento: restaurante para os participantes, palco para performances e DJs, bar, área de convivência e o Palco Petrobrás, onde ocorrem lançamentos de livros e encontros à tarde. Tudo junto numa bagunça harmônica. Veja também:Galeria com fotos do Cena Contemporânea   Mas não é só a geografia que a arte pode mudar. Na noite de quinta, no Teatro Goldoni era sobre o tempo, ou a percepção dele, que o espetáculo português Miséria interferia. O texto de Álvaro Magalhães é adaptação de A Morte e o Ferreiro, clássico popular que tem variações, mas conta basicamente a história do homem que engana a morte ao prendê-la numa árvore encantada. A casa em miniatura do ferreiro Miséria já nos remete à infância. O diretor e ator-manipulador João Paulo Seara Cardoso, co-autor da dramaturgia, dá voz e gestos aos bonecos: o ferreiro, o Diabo, São Pedro, a morte. Há fogo de verdade em cena, efeitos de luz e fumaça, e humor na aparição do Diabo, elementos que mal utilizados poderiam fazer o espetáculo descambar para o entretenimento raso, infantilizado. Mas João Paulo escapa desse risco ao manipular o tempo em cena de forma a nos fazer pensar sobre o tempo fora dela. Silêncios, pausas, imobilidades e a trilha sonora - música de João Loio - têm o claro objetivo de ressaltar na narrativa o sentido da singularidade da vida e das escolhas feitas nessa trajetória única. Vinte anos podem valer o mesmo que segundos nos ensina esse ferreiro, sem moralismos, sem tom piegas, um personagem com suas contradições, querendo como qualquer um de nós esticar indefinidamente o tempo na companhia do que ama, errando por isso. Tudo numa manipulação que muito mais do que movimento imprime vida interior aos bonecos. João Paulo é diretor do Teatro de Marionetes do Porto, grupo que também apresentou Cabaret Molotov na programação do Cena Contemporânea. Aceleração do tempo também preocupa o dramaturgo Gustavo Ott, autor de Bandolero y Malasangre, o espetáculo venezuelano da mostra. "A rapidez nas inovações tecnológicas de nossa era digital mudou a percepção do tempo", diz ele em conversa informal com Guilherme Reis, ator e diretor do Cena Contemporânea. Em seguida observa que tal velocidade influi negativamente nas relações e percepções, "cada vez mais superficiais". Seu texto, interpretado pelo ator David Villegas, flagra diferentes personagens na passagem de ano de 1999 para 2000. À conhecida euforia que tomou conta de todos pela "entrada num novo milênio", ele contrapõe gente comum, cuja dor ou solidão os deixa à margem da eufórica contagem regressiva. Na noite de quarta-feira, o espetáculo deu um salto graças à interação espontânea de um menino de 10 anos. Numa cena, um sobrevivente de uma tragédia pede um abraço para alguém invisível. Pois Pabilla, num impulso, subiu ao palco e abraçou o ator, que retribuiu, ficaram segundos assim, antes do menino descer e o espetáculo continuar. Ao fim, num português perfeito, Pabilla conta que é colombiano, está morando há apenas cinco meses em Brasília. Por que o abraço? Obviamente qualquer explicação seria tola para tal impulso. "Não sei, ele pediu."  A repórter viajou a convite da organização do evento

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