Informação para você ler, ouvir, assistir, dialogar e compartilhar!
Estadão Digital
Apenas R$99,90/ano
APENAS R$99,90/ANO APROVEITE

Cem histórias indiscretas

Joaquim Ferreira dos Santos descreve os desejos e os receios de suas amigas

UBIRATAN BRASIL, O Estado de S.Paulo

06 de maio de 2012 | 03h09

Repórter na essência, aquele que mantém o gravador natural do ouvido sempre ligado, Joaquim Ferreira dos Santos decidiu reunir histórias saborosas que escutou de amigas: casos de infidelidade, vingança, e também poéticos. Ao juntar uma centena, ele os reuniu no livro Minhas Amigas, que a editora Objetiva lança nesta semana.

"Privilegiei histórias da nova mulher que está em cena, a poderosa, a que faz e acontece", conta Joaquim, colunista do jornal O Globo. "Minhas amigas são chefes em empresas, donas de seus próprios escritórios, profissionais liberais que viajam pelo mundo dando palestras e decidindo coisas. Elas têm cada vez menos receio do mundo. Comandam famílias sozinhas, bancam o orçamento doméstico à custa do próprio esforço. Elas fazem e acontecem, mas continuam com dois receios fundamentais: o horror às baratas e o temor de que vá embora o príncipe encantado que pode matá-las no meio da madrugada."

O escritor garante que todas as histórias são reais, trabalhadas literariamente até chegar ao formato de crônica ou miniconto. Claro que ele eliminou qualquer possibilidade de as mulheres serem identificadas, garantindo assim suas preciosas fontes.

E que preciosas! Logo nas primeiras páginas, o cronista apresenta uma amiga que, por viajar muito e de estar sempre disposta a não perder nenhuma oportunidade, carrega vibradores na mala de mão, para a infelicidade de não encontrar um bom parceiro de noitada. O único inconveniente é a reação, sempre inesperada, dos operadores de raio X, na fiscalização de bagagem.

"Em alguns momentos, mais delicados, misturei características de amigas diferentes, para evitar que alguma fosse publicamente associada àquela história", conta Joaquim. "Levarei para o túmulo, só eu e ela saberemos, a identificação da amiga que, para dar um clima de cabaré saliente, no meio do namoro jogou sobre o abajur a calcinha de nylon, que imediatamente derreteu e pôs fogo no apartamento."

Graças às amizades de longos anos, Joaquim percebeu que as mulheres expõem mais do que os homens os seus fracassos e ridículos. "Homens precisam se alardear vencedores o tempo todo, elas têm outros compromissos. Riem mais de si próprias. O livro tem muitas histórias tragicômicas, de mendigos namorados por elas como se fossem galãs e de vexames amorosos por causa de uma depilação com prazo vencido."

Joaquim foi testemunha ocular de diversas histórias, afinal, as 'vítimas' são amigas muito próximas. Em outros momentos, ouviu com atenção o relato, fazendo perguntas, estimulando a memória delas, jogando iscas de repórter. Ele garante que, em nenhum momento, as moças se vangloriaram de algum feito ou mesmo tentaram dourar a pílula. "Afinal, mulheres riem mais e ficam mais bonitas quando riem de si próprias, jogando pó de mico na gaveta de cuecas do namorado que abandonou uma delas", diverte-se.

Se há algum ponto em comum na centena de narrativas, certamente é a busca do grande amor, que continua como o grande motor de suas existências. Joaquim tem uma certeza: as mulheres querem ser desejadas, eis a eterna condenação feminina. "É diferente de antigamente, quando buscavam a proteção masculina", comenta. "As minhas amigas querem a presença do olhar masculino em sua reverência, seguido da cumplicidade de afetos. Não estão mais de olho no bem patrimonial, pois têm os seus. Receiam não ter os benquereres."

Questionado sobre qual história mais o impressionou, Joaquim selecionou a da amiga que passa a tarde catando piolho na cabeça da filha enquanto na sua própria vão passando os conflitos de um casamento corrompido pelos insetos rotineiros da vida doméstica. Suas amigas são imprevisíveis, ao menos para o olhar da observação masculina. Ao analisar a própria obra, Joaquim acredita que o livro tem um olhar carinhosamente espantado de um homem para dentro do vestiário da existência feminina.

"Gosto da história de uma amiga que sempre namorou homens fora do padrão de beleza clássico", conta. "Ela curte aqueles caras meio desleixados, barba por fazer, roupa longe do padrão Richard's, e com cheiro de macho. Uma noite, no bar de calçada em que aquecia as turbinas com a galera para em seguida emendar numa festa, ela viu um rapaz com esse perfil do outro lado da calçada. Ele estava encostado no poste, esquisitão. Já meio bêbada, ela ofereceu um chope pra ele. Acabaram indo juntos para a festa. Lá, num determinado momento, sozinho, ele desabou na cama, lençóis de mil fios, da dona da festa. Foi aí que todos notaram: o sujeito era o mendigo do bairro."

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.