Cem anos na encruzilhada

Ele teria vendido a alma para se tornar o maior. Lenda? O fato é que Robert Johnson, um século depois, é mesmo o maior

Gabriel Vituri, O Estado de S.Paulo

16 Abril 2011 | 00h00

Vinte e nove composições, três fotos e uma lenda. Alguns diziam que não houve veneno ou ciúmes na morte de Robert Johnson. Era coisa do diabo que, justiça seja feita, voltou para cumprir o acordo. O bluesman de Hazlehurst, Mississippi, viveu pouco. Mas o suficiente para encantar mulheres, causar fúria nos homens e influenciar uma série de artistas que surgiram depois dele.

Agora, 100 anos depois do nascimento de Robert Johnson, a Sony lança uma coleção de luxo, com registros da lenda do blues - em CD e vinil (leia mais ao lado).

Filha de escravos, Julia Ann Majors - ou Julia Major Dodds, depois do primeiro casamento - teve um caso com Noah Johnson. Tiveram apenas um filho: Robert Johnson. Depois de ficar afastado da mãe, aos 3 anos, Robert Dusty (como era conhecido na época) voltou a viver com Julia e o padrasto, Willie "Dusty" Willis, em Memphis, Tennessee. Matriculado na escola e debilitado pela catarata em um dos olhos, o garoto - que já demonstrava interesse pela música - abandonou as aulas e passou a se dedicar a um instrumento chamado jaw"s harp, algo como harpa ou berimbau de boca, em português. Antes de chegar finalmente ao violão, ele arriscaria algumas notas na harmônica.

Casado duas vezes (as certidões pontam, inclusive, para um pequeno desencontro de suas datas de nascimento, 1910, 1911 ou 1912), foi do primeiro amor que Robert Johnson teve as mais tristes lembranças. Em 1931, Virginia Travis, de apenas 16 anos, morreu durante o parto do primeiro filho do casal. À época em Robinsonville e arrasado com a tragédia, o compositor decidiu retornar a Hazlehurst em busca do pai desconhecido. Não encontrou rastro algum, mas, para não perder a viagem, arranjou outro casamento e um camarada músico. Ike Zinnerman tinha um hábito inusitado: à noite, tocava seu violão entre túmulos da região.

Na encruzilhada. Foram esses os tempos mais misteriosos e polêmicos do autor de Me and the Devil Blues. Reza a lenda que Robert Johnson, determinado a se tornar um grande mestre, foi até uma encruzilhada nas plantations de Dockery, à meia-noite.

Um negro alto, sem dizer palavra, tomou-lhe o violão, afinou as seis cordas e deu ao jovem músico a oportunidade de se tornar o maior bluesman de todo o Mississippi. Bastava colocar sua alma em jogo. O pacto com o diabo estava selado.

Quando voltou a Robinsonville, separado da segunda mulher, foi ao encontro de ídolos como Son House e Charley Patton. A destreza com que Robert Johnson dedilhava seu violão assustou a todos, que viram no tinhoso a única justificativa para aquela mudança súbita.

Foi em Three Forks (tridente?) que o bluesman do Mississippi se apresentou pela última vez, em uma das centenas de juke joints por onde passou. Comuns nas áreas rurais, as juke joints eram o ponto de encontro dos moradores e trabalhadores das regiões de plantações. Dançar, beber e jogar ao som de work songs e blues eram seus passatempos, sempre com navalhas em punho para retalhar o primeiro desafeto que aparecesse.

Robert Johnson estava entre os escalados para o From Spirituals to Swing, concerto organizado por John Hammond para promover ritmos afro-americanos. O show - com Count Basie, Joe Turner, Benny Goodman e outros - aconteceu na antevéspera do Natal de 1938, no Carnegie Hall, em Nova York. A notícia da morte só foi descoberta em cima da hora, semanas antes do evento. Hammond precisou improvisar. E fez bem: convocou Big Bill Broonzy, de Hey Hey.

78 rpm. Envolto em dúvidas há mais de meio século, o legado do bluesman continua a ser estudado e questionado. Em 2010, Jon Wilde, do jornal britânico The Guardian, trouxe à tona a discussão sobre a velocidade com que as gravações do músico foram masterizadas. Steven Johnson, vice-presidente da Robert Johnson Blues Foundation, concorda com a hipótese de que canções de seu avô sejam executadas 20% mais rápidas do que originalmente.

O procedimento era "comum" em alguns selos de blues e jazz da época - como a gravadora Vocalion, responsável por 12 lançamentos. Especula-se que as 78 rotações por minuto tenham sido aumentadas para até 81 rpm, para dar "mais emoção" ou por falta de tecnologia.

Apesar de antigas, as canções de Robert Johnson soam modernas, facilmente adaptáveis para a guitarra e com metáforas (principalmente as sexuais) que continuam atuais.

Johnson registrou, em duas ocasiões, apenas 29 músicas, algumas com dois takes, que resultaram em 42 gravações. E isso é tudo. No estúdio improvisado do quarto 414 do Hotel Gunter, em Santo Antonio, Texas, o violonista de Hazlehurst, com o corpo virado para a parede, eternizou, entre outras, Come on In My Kitchen e Cross Road Blues, divididas em três dias de gravação. Em junho de 1937, Johnson pegou a estrada rumo a Dallas para as duas últimas gravações da sua vida. As sessões, também improvisadas, duraram dois dias.

Seus murmúrios, lamentos e uivos ainda são ouvidos de longe, com a mesma força daquela noite em Three Fork.

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