Cem anos do livro que desmascarou a República

Cem anos depois, Os Sertões, de Euclides da Cunha, continua dividindo opiniões. É raro que não se reconheça sua qualidade e importância, ainda que muitos o considerem um livro chato. As opiniões se dividem sobre o alcance do livro. Euclides dizia, por exemplo, que sua pretensão era promover o "consórcio entre ciência e arte"; mas não são poucos os estudiosos que descartam sua ciência e ficam com sua arte. Outros também criticam seu trabalho como repórter; no entanto, o livro é considerado uma obra-prima do jornalismo ensaístico brasileiro. A maior divisão, que engloba essas e outras, diz respeito à intenção do autor. Para uns, Euclides tenta e consegue "advogar pelos sertanejos", como em uma carta disse ter pretendido; para outros, ele não se desvencilha de seus preconceitos positivistas, de sua noção do homem como produto do meio, fanático porque atrasado.É uma reação comum a relatos que mergulham na barbárie. No caso mais famoso, O Coração das Trevas, de Joseph Conrad, há quem veja ali uma defesa do colonialismo, o diagnóstico da ausência de civilização naquele povo (inspirado na dominação do Congo pelo rei belga Leopoldo II), e há quem veja ali uma crítica ao colonialismo, a denúncia da barbárie promovida pela tal civilização (pois houve um massacre em massa). No caso de Os Sertões, ele também costuma ser tido de um lado como uma descoberta do "Brasil profundo", em que os sertanejos demonstram mais dignidade do que os urbanos, e do outro como uma crítica ao primitivismo daquela gente. Mas, como em Conrad, a intenção central em Euclides é justamente captar essa ambigüidade de sentimentos.Por não ser um romance, Os Sertões pode não deixar clara a existência de tal subjetividade. Mas o livro é essencialmente a história de uma transformação pessoal - a história de um engenheiro militar, com sólidos conhecimentos de geologia e geografia, que se veste de correspondente do Estado, parte para o semi-árido baiano a fim de entender por que a República estava a "curvar a cerviz" (como diz em outra carta) para uma seita monarquista e, lá chegando, acompanha o desenrolar da campanha de seus pares com uma mescla de assombro e indignação - assombro diante da capacidade de resistência e ardil dos homens do local, indignação diante da crueldade e burrice das táticas militares. Tal como o negociante de marfim Kurz ficando mais bárbaro que os bárbaros que sonhava catequizar, o Exército se revela primitivo ao realizar o que Euclides chamou de "charqueada" e os jornais de hoje chamariam de carnificina.Esse é o fulcro da genialidade do livro, cujo estilo - apesar de rejeitado mais tarde pelo próprio Euclides como imaturo - consegue, para o leitor que não se sente incomodado com as palavras que desconhece, traduzir tanto a grandiosa complexidade da situação quanto os ardorosos desdobramentos do conflito. Cada uma das partes do livro tem seu próprio andamento: A Terra, "andante maestoso"; O Homem, heróico-trágico; A Luta, veloz e vivaz.Informações científicas abrem caminho para especulações sociológicas e desembocam numa narrativa estilística, onde o ser humano passo a passo toma o primeiro plano, com suas imprevisibilidades e relativismos. É isto, mais que a opção temática, que explica a influência de Euclides sobre tantos romances modernos, como Grande Sertão: Veredas, de Guimarães Rosa, ou Guerra do Fim do Mundo, de Mario Vargas Llosa; e que tenha colhido elogios de poetas como Robert Lowell, que o comparou com Guerra e Paz, de Tolstoi.Para enxergar melhor esse impacto subjetivo, é importante ir à sua correspondência, ao Diário da Expedição e às reportagens no Estado. Nestas, é impressionante ver como ao fervoroso republicano custa crer que a "campanha clássica" não marcha gradualmente para a vitória. Como os americanos no Vietnã, Euclides e os combatentes vão descobrindo a astúcia dos adversários, que nasce de seu conhecimento do terreno e se exprime numa tática de guerrilha, de ciladas dispersas, que atraem o inimigo como a aranha à espera das moscas. E o que avulta no espírito do escritor é, acima de tudo, o tamanho da ignorância sobre o que ocorre, como e por quê. "Procurar-se a verdade neste torvelinho é impor-se a tarefa estéril e fatigante de Sísifo", divaga o repórter, depois da seqüência de desastres militares.Num texto de 10 de outubro de 1897, o correspondente relata a chegada ao último círculo do inferno: "o arraial imenso de Canudos". Em cima do cavalo, olha ao redor e se surpreende com sua "disposição topográfica e constituição geológica" - que comporiam os estudos de A Terra, no livro que levaria cinco anos sendo escrito. O arraial lhe parece um labirinto inextricável, como um abrigo africano amaldiçoado, e ele confessa: "Quando os tiros dela (da cidade) partem, de todos os pontos, irradiando para todos os pontos da linha amplíssima do cerco, a fantasia apenas divisa ali dentro uma legião invisível e intangível de demônios." No futuro - no Araguaia, no Carandiru ou em Carajás - essa mesma fantasia demonizante descambaria em equivalentes massacres.Na verdade, Euclides espera que a ordem e a razão voltem a ser os valores vocacionais da República e, embora considere admirável a força dos sertanejos, nem por isso deixa de vê-los como fanáticos e matutos. Mas, embora boa parte de sua antropologia soe obsoleta (além de alguns equívocos geológicos e geográficos), não deve restar nenhuma dúvida sobre sua ênfase.Euclides diz com todas as letras: "Vivendo 400 anos no litoral vastíssimo, em que palejam reflexos da vida civilizada, tivemos de improviso, como herança inesperada, a República. Ascendemos, (...) deixando na penumbra secular em que jazem, no âmago do país, um terço da nossa gente. Iludidos por uma civilização de empréstimo", decreta em O Homem. E adiante: "E quando pela nossa imprevidência inegável deixamos que entre eles se formasse um núcleo de maníacos, não vimos o traço superior do acontecimento. Abreviamos o espírito ao conceito estreito de uma preocupação partidária. (...) Vimos no agitador sertanejo, do qual a revolta era um aspecto da própria rebeldia contra a ordem natural, adversário sério, (...) capaz de derruir as instituições nascentes."Euclides tentou recuperar em Os Sertões o traço superior do acontecimento: a estreiteza de espírito de uma república emprestada convertendo-se em intolerância brutal. É este o quadro histórico que pinta, com a força que só possuem aqueles que enfrentam sua própria ilusão e, expandindo seu espírito, dão a toda uma nação a oportunidade de também fazê-lo.

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