Cem anos da obra-prima de Proust em pinturas

Livro de Eric Karpeles é essencial na leitura de 'Em Busca do Tempo Perdido'

Antonio Gonçalves Filho, O Estado de S. Paulo

12 de novembro de 2013 | 20h45

No dia 14 de novembro de 1913 chegava às livrarias francesas No Caminho de Swann, primeiro dos sete volumes de Em Busca do Tempo Perdido, de Marcel Proust. O centenário da publicação do monumento literário agita o meio literário que, no dia 26, vai acompanhar a disputa, num leilão francês, da carta enviada a Proust por outro escritor famoso, André Gide, então editor da NRF (Nouvelle Revue Française), na qual ele comunica sua recusa em publicar o livro. Há pouco, um caderno de notas de Proust sobre a gênese do primeiro volume foi adquirido pela Biblioteca Nacional da França com a ajuda de um mecenas, elucidando parte das metáforas que cercam o processo embrionário da obra.

Outro guia fundamental para seu entendimento foi publicado há cinco anos pela Thames and Hudson, Paintings in Proust, do pintor norte-americano Eric Karpeles. É um livro revelador, que examina a pintura como combustível de uma obra que trata de percepção, memória e arte, fazendo uso, inclusive, de um pintor, Elstir. Amigo do narrador, é ele quem o apresenta à ambígua figura de Albertine - mais próxima de um Alberto enrustido, segundo a inconfidência de críticos da obra. Albertine, por quem se apaixona Marcel, é descrita, no segundo volume, À Sombra das Raparigas em Flor, como um enigma, que ele compara às mulheres viris pintadas por Veronese, preferíveis a ela em "termos estéticos" segundo Marcel - ainda que ele admita nada saber sobre Albertine, então só vista de relance, contra o mar.

A referência a Veronese não é gratuita, ainda mais que o pintor, assim como Proust, incomodou a sociedade de sua época (Veronese foi convocado pela Inquisição a dar explicações sobre suas figuras "vulgares"). Mais explícita, só mesmo a comparação entre Morel, o violinista amigo de Charlus, e o jovem afetado pintado por Bronzino em 1530. Morel é descrito por Charlus no quinto volume, A Prisioneira, como um homem disputado por prostitutas e damas, mas com dono: o próprio barão, que gostava, segundo Proust, de persuadir outras pessoas, além de a si mesmo, que Morel o amava. Charlus é um dos personagens principais do livro central de Em Busca do Tempo Perdido, Sodoma e Gomorra (volume 4), que concentra grande parte das citações pictóricas de Proust.

São mais de 100 os pintores citados pelo escritor em Em Busca do Tempo Perdido, de renascentistas como Veronese a modernos como Manet, que o narrador classifica de gênio numa conversa com madame de Cambreme-Legrandin, arrasando com a reputação de Poussin. A passagem está em Sodoma e Gomorra, que trata, entre outros assuntos, do autoexílio imposto por homossexuais para preservar sua integridade - e é no livro que Charlus tem um encontro amoroso com o alfaiate Jupien. Charlus, revela o narrador, só podia mesmo ter um alfaiate como amante, considerando a elegância de seu fraque bem cortado, que Proust compara ao do conde e dândi francês Robert de Montesquiou-Fezensac (1855-1921), retratado numa tela pintada por Whistler entre 1891 e 1892 .

O conde foi mesmo o avatar do barão criado por Proust. Montesquiou-Feazensac, diz o autor de Painting in Proust, foi inicialmente um modelo para o escritor francês, um pioneiro, por fazer da arte não um meio, mas o fim da própria vida. Antes da vanguarda teatral, de Artaud e outros, ele já fazia da existência uma obra de arte. "Isso, porém, acabou cansando Proust, que usa Swann e Charlus como exemplos dessa confusão de realidades", argumenta Karpeles, citando ainda a influência máxima de Proust, o historiador e crítico de arte inglês John Ruskin, como outro exemplo de mestre renegado pelo discípulo. "Ele não comungava de suas ideias a respeito de a grande arte e moralidade serem sinônimos".

Proust faz de três artistas - o escritor Bergotte, o compositor Vinteuil e o pintor Elstir - a santa trindade de seu clássico moderno. É no ateliê do último que o narrador de Em Busca do Tempo Perdido, lembra Karpeles, "experimenta sua primeira e madura interação com a arte". E são as visitas a Elstir que servem de pretexto para Proust fazer de seu narrador o objeto de uma metamorfose, transformando-o também num artista à medida que discute os grandes mestres com o amigo pintor.

Elstir, garante o pintor e ensaísta, pode ter sido inspirado no impressionista americano Alexandre Harrison, mas é mesmo na modernidade, na alegoria e na angústia de Watteau que esse modelo deve ser procurado. "Para inverter um comentário de Ruskin sobre os venezianos, que usavam a pintura para escrever, podemos dizer que Proust usou a escrita para pintar."

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